sexta-feira, 22 de dezembro de 2017

Eu matei Xerazade, Confissões de uma mulher árabe em fúria, Joumana Haddad





Joumana Haddad nasceu e cresceu no Líbano, onde ainda hoje vive. Intelectual, escritora e poetisa, é também editora da revista Jasad, publicação cultural dedicada ao corpo e ao erotismo. Este livro, que inaugura o lançamento de uma nova editora em Portugal (Sibilia Publicações) é um misto de autobiografia e manifesto. Na sua formulação original serviu de base a uma peça de teatro levada à cena nos Estados Unidos. A autora questiona o que significa ser árabe e em particular ser uma mulher árabe. Recordou a sua infância, o acesso aos livros como passaporte para uma liberdade sonhada e o modo como constrói esse mesmo sonho de criança: “Adorava ler por muitas razões: lia para respirar; lia para viver (tanto a minha vida como a dos outros); lia para viajar; lia para escapar a uma realidade brutal; lia pata abafar as explosões da guerra do Líbano; lia para ignorar os gritos dos meus pais, o seu dia-a-dia de discussões e sofrimentos; lia para alimentar a minha ambição; lia para ganhar forças; lia para afagar a minha alma; lia para esbofetear a minha alma; lia para aprender; lia para esquecer; lia para recordar; lia para compreender; lia para ter esperança; lia para planear; lia para acreditar; lia para amar; lia para desejar e pata me excitar …
E lia, especialmente, para ser capaz de honrar a promessa que tinha feito a mim mesmo de que, um dia, a minha vida seria diferente (…)”
Em alguns momentos do livro recordou-me As identidades assassinas de Amin Malouf, pela capacidade de questionar o que normalmente identificamos como as coordenadas existenciais dos outros e de nós próprios. O livro é provocador, convocando o olhar ocidental, mas também as mulheres árabes que devem reivindicar a sua liberdade. Claro que Haddad sabe distinguir as realidades. Há espaço em que tal reivindicação não é possível (como sucede com as meninas forçadas a casamentos precoces), mas há muitos outros que identifica como sendo responsabilidade de cada mulher não abdicar da liberdade que é naturalmente sua. É neste ponto que nos explica o porquê de matar Xerazade, modelo antiquado que continua a ser a mulher árabe de referência.
O livro está escrito de forma enérgica, com uma excelente edição em português, tornando a sua leitura um verdadeiro prazer. É inteligente e provocador, criando-nos a vontade de ler mais obra desta autora (creio que nada mais está, por ora, editado entre nós). 

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