segunda-feira, 22 de janeiro de 2018

José Luís Peixoto, O caminho imperfeito




Não sigo de perto a obra de José Luís Peixoto. Recordo-me de ter lido passagens de Morreste-me e de ter ficado com os olhos rasos de lágrimas, talvez antecipando a enormidade de uma dor que tenho a felicidade de ainda não ter sentido. Este O caminho imperfeito tem subjacente uma viagem do autor à Tailândia, um país que também já tive o privilégio de visitar. Foi isso que me levou a comprar o livro. José Luís Peixoto escreve em determinado momento que cada um tem a sua Tailândia e que a dele não pretende sobrepor-se à dos demais. É verdade que assim é. Quando visitamos um país ficamos com uma recordação indelével dele e que é só nossa. Mesmo quem partilha a viagem connosco, tem outros olhos e outra alma e é por eles que peneira a experiência. Esta modéstia é um dos traços cativantes do livro. Depois, há a capacidade de descrever o exterior e de o comparar com outras vivências, a capacidade de ir pensando o livro connosco leitores, de recordar uma situação do passado, em particular da vivência familiar do escritor. E quantas vezes em viagem não damos por nós a recordar situações que parecem nada ter a ver com o que estamos a viver naquele momento? A mim, acontece-me com frequência. Experimentar um prato tailandês no The Blue Elephant de Banquecoque recordou-me a primeira vez que comi um prato daquele país, muitos anos antes, num restaurante algo manhoso em Paris, depois de ter chorado com saudades do esparguete da minha mãe. Pode não fazer sentido, mas a associação de ideias é assim para quem está de fora.
O caminho imperfeito é o relato de uma viagem (e reconhecemos aqui e ali locais que visitámos ou que deveremos visitar se formos à Tailândia) e também uma peregrinação interior. Há recordações de família do escritor e memórias de outras viagens (Las Vegas torna-se inesperadamente interessante, sob o seu olhar). A grande arte do escritor está na forma como nos faz entrar e sair com ele das diferentes situações que descreve. Não é apenas a capacidade de nos falar sobre o Palácio Real (que não descreve, mas para isso há guias e a wikipédia). São os pedaços de escrita que surgem aqui e ali, sobre o sentido da coerência perante a mutabilidade da vida, sobre o que significa estar vivo, sobre essa coisa estranha que é ser simultaneamente filho e pai. Sobre a saudade de quem já não está fisicamente connosco, sobre a capacidade de reconhecer que já se viveu muito e de que ninguém tem a vida na mão.
Só quem nunca pensou sobre estes assuntos (o que é desculpável se se for muito jovem) é que poderia pensar que as linhas de José Luís Peixoto têm lugares comuns. Ao contrário, nada é comum ou banal, porque cada experiência que vivemos é única e irrepetível. É essa necessidade de fixar o infixável – o momento que é fugaz e instantâneo – que torna este livro tão lúcido e tão bonito. 

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