quarta-feira, 7 de fevereiro de 2018

Marina Abramovic, Walk Through Walls

Escolhi este livro, não por ser uma grande admiradora de Marina Abramovic, cujo trabalho conheço ainda pouco, mas porque gosto de autobiografias e sinto-me intrigada pelos processos criativos. O livro, que tem versão traduzida, é tudo isso e muito mais. Inicia-se na infância da artista, na antiga Jugoslávia, numa família privilegiada do ponto de vista económico, mas disfuncional. As relações familiares vão acompanhar todo o livro, que passa em revista os amores, com a sua felicidade e infelicidade, os projectos, as inspirações, as dificuldades, as viagens, bem como os amigos que Marina foi fazendo. As questões económicas também estão presentes, até porque a arte da performance não é das mais lucrativas. Há sempre um português em qualquer boa história real ou ficcionada. E neste caso, temos o nosso compatriota Julião Sarmento. Muitas coisas me tocaram neste livro. A imaginação de Abramovic, claro. A sua sensibilidade, visível nas histórias que nos relata com emoção e sem esconder que a tocaram (quer de família, amigos e amores, quer de pessoas que foram assistir às suas performances e de se apercebeu). A sua resistência e força, bem digna do título do livro, retirado de uma frase dos combatentes comunistas na II Guerra Mundial. E também a pluralidade das experiências que teve: atravessar metade da Grande Muralha da China a pé (para ir ao encontro do homem com quem ia casar e de quem entretanto acabou por se separar definitivamente no termo dessa jornada), os três meses de retiro no Mosteiro de Tara Verde, algures no Tibete ou o encontro na floresta brasileira com xamans. Nova Iorque nos anos 80. Tornar-se amiga de Susan Sontag. Preparar performances com monges tibetanos e, já agora, conhecer o Dalai Lama. E as experiências comuns a cada ser humano, mas que são únicas para cada um de nós: perder um amor, ver morrer um amigo ou um familiar. Sentir o fracasso. Comprar casa. Muita coisa cabe neste livro e cada um saberá se isso lhe interessa. Por mim, apenas digo isto: se porventura acham a vida aborrecida é pegar nesta autobiografia. Vê-se logo que a falha está no observador, não no objecto de observação. E a boa notícia, é que a falha tem cura.

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