Uma
biblioteca não é só um conjunto de livros. Uma biblioteca é o reflexo da alma
de quem a constrói. O seu espelho. Reflectido em cada prateleira está o gosto,
o esforço e as procuras literárias de quem um dia foi intitulado de “seu
proprietário”. Classificação enganadora: os livros não se possuem, são eles que
nos fazem seus. Poucas coisas permitem conhecer melhor e em tão pouco tempo uma
pessoa como passar os olhos pelos seus livros. Os que comprou revelam-no. Os que
lhe foram oferecidos expõem-no ao mostrarem a imagem que dele têm os que lhe
são próximos.
É
esta intimidade que explica uma das maiores dores que um leitor pode ter: a
biblioteca desamparada, que perdeu o seu leitor, aquele que a amou ao longo de
uma vida. Às vezes, quando olho para os meus livros, sobretudo os que me são
mais caros, penso nisto. O que será deles quando eu me for? É um pensamento
tétrico, eu sei. Mas quem passa tempo em alfarrabistas não pode deixar de ver
os livros empilhados em caixotes, vendidos ao quilo, sem que os herdeiros
ingratos se apercebam dos segredos que ali estão guardados. Ou então abandonados
junto de caixotes do lixo, expostos ao vento ou ao calor, sem ninguém que os
resguarde.
Uma
biblioteca que perdeu o seu leitor é uma visão de desamparo. Ali está ela
moribunda depois de durante anos ter pulsado com vida, num entra e sai de livros,
em corrupio entre estantes e mesa-de-cabeceira, com saídas para a praia e
deslocações a repartições públicas, porque o tempo do leitor é demasiado
escasso para ser gasto ao desbarato enquanto espera com uma senha na mão que o
Estado se digne ouvi-lo.
Por
vezes, antecipando o pior, o dono da biblioteca deixa disposições post-mortem, evitando a barbárie. Opta
por uma doação a uma instituição ou a um herdeiro em quem deposita confiança
livreira. Outras vezes, a biblioteca tem um golpe de sorte. Depois de ver
alguns dos seus livros comidos pelas traças e esboroados pela humidade, quando
quase tinha perdido a esperança, eís que a porta se abre e aparece um novo
leitor. Percorre as estantes, separa volumes com o olhar curioso, passa-lhes as
mãos pela lombada com a devoção de um amante sem fastio … É uma conversa a
três: a biblioteca, o seu antigo leitor e o novo leitor que entra em cena. A biblioteca
que estava moribunda renasce como se de coisa vive se tratasse. E, de facto, só
os seres sem imaginação podem não entender que a biblioteca é um ser vivo. E que
com cada novo leitor dá corpo à máxima: nada se perde, tudo se transforma.
Os
livros que estão na fotografia chegaram-me todos em segunda mão. Aos seus
leitores deixo esta promessa: vou cuidar bem deles. E obrigada.




