sábado, 24 de março de 2018

O segundo fôlego da biblioteca moribunda


Uma biblioteca não é só um conjunto de livros. Uma biblioteca é o reflexo da alma de quem a constrói. O seu espelho. Reflectido em cada prateleira está o gosto, o esforço e as procuras literárias de quem um dia foi intitulado de “seu proprietário”. Classificação enganadora: os livros não se possuem, são eles que nos fazem seus. Poucas coisas permitem conhecer melhor e em tão pouco tempo uma pessoa como passar os olhos pelos seus livros. Os que comprou revelam-no. Os que lhe foram oferecidos expõem-no ao mostrarem a imagem que dele têm os que lhe são próximos.
É esta intimidade que explica uma das maiores dores que um leitor pode ter: a biblioteca desamparada, que perdeu o seu leitor, aquele que a amou ao longo de uma vida. Às vezes, quando olho para os meus livros, sobretudo os que me são mais caros, penso nisto. O que será deles quando eu me for? É um pensamento tétrico, eu sei. Mas quem passa tempo em alfarrabistas não pode deixar de ver os livros empilhados em caixotes, vendidos ao quilo, sem que os herdeiros ingratos se apercebam dos segredos que ali estão guardados. Ou então abandonados junto de caixotes do lixo, expostos ao vento ou ao calor, sem ninguém que os resguarde.
Uma biblioteca que perdeu o seu leitor é uma visão de desamparo. Ali está ela moribunda depois de durante anos ter pulsado com vida, num entra e sai de livros, em corrupio entre estantes e mesa-de-cabeceira, com saídas para a praia e deslocações a repartições públicas, porque o tempo do leitor é demasiado escasso para ser gasto ao desbarato enquanto espera com uma senha na mão que o Estado se digne ouvi-lo.
Por vezes, antecipando o pior, o dono da biblioteca deixa disposições post-mortem, evitando a barbárie. Opta por uma doação a uma instituição ou a um herdeiro em quem deposita confiança livreira. Outras vezes, a biblioteca tem um golpe de sorte. Depois de ver alguns dos seus livros comidos pelas traças e esboroados pela humidade, quando quase tinha perdido a esperança, eís que a porta se abre e aparece um novo leitor. Percorre as estantes, separa volumes com o olhar curioso, passa-lhes as mãos pela lombada com a devoção de um amante sem fastio … É uma conversa a três: a biblioteca, o seu antigo leitor e o novo leitor que entra em cena. A biblioteca que estava moribunda renasce como se de coisa vive se tratasse. E, de facto, só os seres sem imaginação podem não entender que a biblioteca é um ser vivo. E que com cada novo leitor dá corpo à máxima: nada se perde, tudo se transforma.
Os livros que estão na fotografia chegaram-me todos em segunda mão. Aos seus leitores deixo esta promessa: vou cuidar bem deles. E obrigada.    

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