sexta-feira, 23 de março de 2018

The rules do not apply, Ariel Levy

Senti curiosidade por esta obra desde que li o ensaio que a autora escreveu para a revista The New Yorker, Thanksgiving in Mongolia. Um dos meus sonhos (ainda) não concretizados é conhecer essa região, mas a verdade é que para o artigo escrito, a Mongólia enquanto espaço físico não é assim tão importante para a escritora. Mas é seguramente um território emocional, pois aí perdeu um filho e encontrou quem acabou por se tornar num novo amor.
The rules do not apply é um ensaio autobiográfico que começa muito antes dos dias que a escritora passou na Mongólia, embora tenha neles o seu ponto de viragem. É um livro tocante, curioso e que estimula à leitura. É uma lição de que na vida tudo é passageiro e de como não controlamos verdadeiramente nada. Pelo menos, nada do que de importante, mesmo que sejam as coisas em que pensamos que alicerçamos a nossa vida. Penso muitas vezes nisto, a facilidade com que o mundo de hoje nos permite comer no inverno fruta de Verão, viajar milhares de quilómetros em poucas horas, casar, descasar, mudar de emprego, deixar o país, faz com que tenhamos uma falsa sensação de controlo sobre as nossas vidas. Mas ela desaparece de imediato quando lidamos com a morte ou, menos dramaticamente, com a vontade soberana dos outros. Nesse sentido, o livro recorda bem a fragilidade da condição humana que tentamos esconder amuralhados na vida que construímos. Num momento a escritora era uma mulher casada, grávida e com uma vida estável. No momento seguinte, perdeu o filho (que viveu apenas escassos minutos), divorciou-se e perdeu o conforto económico. Como Príamo, fica só, com as recordações da vida que construiu. Uma vida sobre a qual também foi tendo dúvidas, mas onde procurou (o que é também um ponto que merece reflexão) encontrar uma estrutura para ser aceite, uma busca de conformidade social, que não lhe era, como acaba por reconhecer, tão natural como desejava.
“As coisas acontecem por um motivo” é um chavão dos nossos tempos. É mentira, claro. E se pensarmos bem nisso, é preciso ser muito arrogante para achar que a vida (essa coisa fluída que passa por nós e por onde nós passamos), o destino, ou que quer que seja se vai preocupar com todos e cada um de nós, reservando-nos lições de vida e recompensas for our eyes only. Somo s crianças nessa matéria, de facto. E como crianças somos cruéis quando procuramos consolar alguém do inconsolável, dizendo-lhe que tudo tem uma razão de ser e coisas melhores a esperam.
Um dos pontos tocantes do livro é quando Ariel Lévy refere o modo como todos (incluindo ela) procuram uma explicação para o que lhe acontece, uma causa. A causa é uma bóia de salvação num mar de incertezas. Se ela existir fica explicado o que a escritora fez e não devia ter feito, para não ser confrontada com um determinado resultado funesto. Mas, a verdade, é que nem sempre as coisas boas ou más que sucedem têm uma explicação. Acontecem, simplesmente. Outro momento emotivo, é quando fala de como as pessoas procuravam confortá-la das suas perdas, afirmando que iria ter outro filho. Todavia, como ela bem diz e se compreende, ela não quer outro filho, quer aquele. O que era seu e lhe morreu nos braços depois de poucos minutos de vida. 
Ao contrário do que possam estar a pensar, este não é um livro triste. A autora surge como uma pessoa curiosa, entusiasmada com a vida e com o mundo, tendo oportunidade de experimentar os dois, quer no domínio das relações pessoais, quer no plano profissional. É um livro sobre alguém que compreende o dom imenso que é viver, com todas as dificuldades daí decorrentes. E também com os limites, obstáculos e barreiras.
A definição de cada um de nós é pensada na relação com os outros. Somos filhos, pais, tios, maridos, namoradas, colegas de trabalho, chefes. Corredores de fundo ou leitores. Mas a pergunta que o livro nos faz é bem outra: se perdermos tudo, o que nos sobra? 

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