quarta-feira, 14 de março de 2018

Todos os dias são meus, Ana Saragoça

O livro inicia-se com uma morte, mas não é um policial, apesar de no fim se descobrir o assassino. O crime é um pretexto para falar sobre algumas das dificuldades dos nossos tempos, que se vão revelando à medida que, em cada capítulo, uma a uma as personagens se vão revelando. No essencial, são os vizinhos da vítima. Poucos sabem algo sobre ela, mas no seu arrazoado testemunhal, vão nos revelando muito sobre si mesmos. Não que qualquer deles tinha uma visão crítica sobre o que relatam. Nada disso, nestas personagens não há espaço para a reflexão, sobre si mesmos ou sobre o contexto que os rodeia. De rajada, o seu discurso revela como comungam das dificuldades que todos os leitores e leitoras certamente conhecem e identificam facilmente: o anonimato da vida urbana, o desenraizamento, as relações que se estabelecem via internet, a busca de sensações sempre mais fortes e intensas. O verdadeiro tema do livro, para mim, é a solidão. Todas as personagens, incluindo a assassinada, estão sozinhas, umas com consciência disso, como o velho professor viúvo, outras sem quererem perceber isso mesmo, mas vivendo a situação, como o engenheiro pai dos gémeos que descobrem o cadáver. Passamos sobre estes retratos de solidão urbana que nos são atirados de rajada, em capítulo pequenos, com uma escrita desenvolta e aberta, interpelando-nos de modo directo. Porém, nós, como o interlocutor das personagens (um jornalista, um agente da polícia, a leitora?) não temos sequer tempo para responder, nem isso é esperado. Os depoimentos são despejados, como numa ânsia de se fazer conhecer e reconhecer. As personagens também não entram em confronto umas com as outras, estando confinadas a capítulos próprios.Comprei este livro um pouco por acaso. É uma primeira obra, um livro pequeno, escrito de forma directa, com discurso na primeira pessoa. Temos por vezes a sensação de que conhecemos as personagens. Não devemos agarrar-nos a tal ideia com demasiada força, pois se se há aqui uma moral da história é a de que no fundo não conhecemos ninguém, algo que sabemos, mas de que com frequência acabamos por esquecer.



1 comentário:

  1. Tenho boas opiniões sobre este livro. Iam emprestar-me, mas estou tenatada a comprar.
    Quero muito ler.
    Um beijinho

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