Celebrámos
há poucos dias mais um aniversário da Revolução dos Cravos. Foi tempo de
recordar as horas anteriores à tomada do poder pelo MFA e a alegria das pessoas
que foram para as ruas horas depois de ter sido anunciada a revolução. Mas a
luta pela liberdade não começou aí, tinha-se iniciado anos antes, com a coragem
de homens e mulheres abnegados. Existe, por vezes, uma tentativa de dar a
entender que num país de brandos costumes também o antigo regime era mais suave
que outras ditaduras. Não tenho grandes dúvidas de que Portugal seja um país de
brandos costumes. Não tenho qualquer dúvida de que aqueles que ansiaram pela
liberdade e por ela combateram antes do 25 de Abril sofreram duramente. Este
livro de Margarida Tengarrinha é a vários títulos importante. Desde logo, é um
testemunho dessa luta, trazendo-nos a memória dos riscos e durezas da
clandestinidade vivida na primeira pessoa pela autora. Mas é também um
documento histórico. Nele se fala da PIDE, das prisões políticas, da tortura e
da morte. Nele se lê sobre grandes e pequenos sacrifícios pessoais. As palavras
são simples e não se recorre a figuras de estilo para embelezar o texto. Talvez porque aquilo que se conta não pode ser embelezado. Fala-se de homicídios no
meio da rua em plena Alcântara, morte por tortura do sono, pais e mães à porta
de prisão, à espera para ver filhos e filhas cujo único crime era desejarem
liberdade. Fala-se de exílio. De filhos que não puderam acompanhar a parte
final da vida dos pais. De mulheres que não puderam assistir ao enterro dos
seus companheiros. O livro é ainda importante porque contraria a imagem de
passividade das mulheres portuguesas da época. Sim, houve quem fosse para a
clandestinidade apenas para acompanhar o marido. Mas também houve quem o
fizesse por querer participar num projecto político. Passam por este livro
nomes conhecidos, como o de Álvaro Cunhal. Mas a autora recorda também homens e mulheres anónimos que se
arriscaram e de quem muitas vezes não temos sequer a memória de um nome. Também
a eles e a elas devemos a liberdade de que usufruímos hoje.A autora recorda ainda os tempos que passou na URSS e na Roménia, enquanto exilada política. Essa parte da sua narrativa, aliás breve, não é tão interessante. Quanto a ela talvez valesse a pena um segundo livro de memórias, agora que José Milhazes já abriu caminho com o seu As minhas aventuras no país dos sovietes.
Nestas memórias, publicadas pelas Edições Colibri, Margarida
Tengarrinha relata-nos a história do nosso país. Pela quantidade de portugueses e portuguesas que sai à rua no 25 de
Abril temos o dia 24 bem presente na memória. Mas os anos passam e as
recordações esfumam-se. Por isso, creio que este livro deveria ser de leitura
obrigatória nas escolas do nosso país. In memoriam.





