segunda-feira, 30 de abril de 2018

Memórias de Uma Falsificadora, Margarida Tengarrinha

Celebrámos há poucos dias mais um aniversário da Revolução dos Cravos. Foi tempo de recordar as horas anteriores à tomada do poder pelo MFA e a alegria das pessoas que foram para as ruas horas depois de ter sido anunciada a revolução. Mas a luta pela liberdade não começou aí, tinha-se iniciado anos antes, com a coragem de homens e mulheres abnegados. Existe, por vezes, uma tentativa de dar a entender que num país de brandos costumes também o antigo regime era mais suave que outras ditaduras. Não tenho grandes dúvidas de que Portugal seja um país de brandos costumes. Não tenho qualquer dúvida de que aqueles que ansiaram pela liberdade e por ela combateram antes do 25 de Abril sofreram duramente. Este livro de Margarida Tengarrinha é a vários títulos importante. Desde logo, é um testemunho dessa luta, trazendo-nos a memória dos riscos e durezas da clandestinidade vivida na primeira pessoa pela autora. Mas é também um documento histórico. Nele se fala da PIDE, das prisões políticas, da tortura e da morte. Nele se lê sobre grandes e pequenos sacrifícios pessoais. As palavras são simples e não se recorre a figuras de estilo para embelezar o texto. Talvez porque aquilo que se conta não pode ser embelezado. Fala-se de homicídios no meio da rua em plena Alcântara, morte por tortura do sono, pais e mães à porta de prisão, à espera para ver filhos e filhas cujo único crime era desejarem liberdade. Fala-se de exílio. De filhos que não puderam acompanhar a parte final da vida dos pais. De mulheres que não puderam assistir ao enterro dos seus companheiros. O livro é ainda importante porque contraria a imagem de passividade das mulheres portuguesas da época. Sim, houve quem fosse para a clandestinidade apenas para acompanhar o marido. Mas também houve quem o fizesse por querer participar num projecto político. Passam por este livro nomes conhecidos, como o de Álvaro Cunhal. Mas a autora recorda também homens e mulheres anónimos que se arriscaram e de quem muitas vezes não temos sequer a memória de um nome. Também a eles e a elas devemos a liberdade de que usufruímos hoje.A autora recorda ainda os tempos que passou na URSS e na Roménia, enquanto exilada política. Essa parte da sua narrativa, aliás breve, não é tão interessante. Quanto a ela talvez valesse a pena um segundo livro de memórias, agora que José Milhazes já abriu caminho com o seu As minhas aventuras no país dos sovietes
Nestas memórias, publicadas pelas Edições Colibri, Margarida Tengarrinha relata-nos a história do nosso país. Pela quantidade de portugueses e portuguesas que sai à rua no 25 de Abril temos o dia 24 bem presente na memória. Mas os anos passam e as recordações esfumam-se. Por isso, creio que este livro deveria ser de leitura obrigatória nas escolas do nosso país. In memoriam.



terça-feira, 17 de abril de 2018

Ala Feminina, Vanessa Ribeiro Rodrigues

Das idas a estabelecimentos prisionais guardo o som do portão a fechar-se atrás de mim. Sempre senti este momento como um abdicar temporário do meu direito de ir e vir. E uma manifestação de confiança em quem me recebia ainda que por breves horas: sem razão para ali me reter quando eu quisesse abrir-me-ia a porta para ir embora. Das saídas, consoante os estabelecimento prisionais e as estações do ano, lembro a chuva a cair-me no rosto enquanto me dirigia para o carro, abrindo caminho entre a lama, o regresso ao bulício da cidade ou o sol a atingir-me em cheio no rosto. Das visitas ao interior dos estabelecimentos guardo uma sensação de estranheza. Por pessoas estarem privadas do direito de decidirem os mais pequenos e banais detalhes da vida quotidiana, por o seu espaço físico estar reduzido a um corredor de celas e a um pátio. Por a reclusão significar a criação de um quotidiano novo tão diferente certamente do que cada um tinha quando estava em liberdade.
Ala Feminina é um murro no estômago. É dado com delicadeza, porque a autora escreve com tanta objectividade como poesia, convocando escritores amados e livros que nos são queridos para suavizar o golpe. Mas nessa opção está também a capacidade de escolher cirurgicamente em que ponto da alma nos vai atingir. Como sociedade, pensamos muito pouco nos que cometem crimes. Há uma certa tendência para ver os condenados como sendo “eles” e os demais, “nós”, como cidadãos e cidadãs impolutos. Quantas não são as testemunhas e arguidos que lá vão dizendo em seu benefício “eu nunca entrei num Tribunal”, “até hoje nunca me vi nestas coisas” e outras frases do género? Claramente demonstrando que quem ainda a fazer vida nos Tribunais não pode ser boa gente. E se quem por lá anda não pode ser grande coisa, que dizer de quem de lá sai condenado?
No entanto, o crime é uma instituição bem democrática, como sabem aqueles que acompanham de perto audiências de julgamento, com gente de todas as classes sociais, orientações sexuais e cores a ser julgada. Mas o preconceito, como todos os preconceitos, deixa marcas. Se só “eles” cometem crimes “eles” têm de ser punidos. E punidos significa para muita gente estranha ao que possam ser teorias dos fins das penas, castigados. De forma exemplar, de preferência.
“Eles”, contudo, fazem-nos esta maldade: não são assim tão diferentes de nós na generalidade dos casos. E é isso que o livro de Vanessa Ribeiro Rodrigues mostra: têm família, amigos, amores, sonhos, às vezes minguados porque até nisso a vida foi madrasta. Os relatos recolhidos em Portugal e no Brasil fazem-nos pensar sobre o que são verdadeiramente políticas de reinserção social e o que devemos exigir como cidadãos e cidadãs. E remetem-nos lá bem para dentro da nossa condição humana. O que sentiríamos ao visitar uma mãe num estabelecimento prisional? Ou um filho? E como seria estar presa? De que sentiria mais falta? No meu caso, sei bem o que me pesaria: não poder comer pastéis de nata na minha pastelaria favorita, falar com os meus amores, ver o mar, passear em livrarias. Mas cada um tem o seu itinerário pessoal. As pessoas que Vanessa Ribeiro Rodrigues entrevistou têm o delas, adiado muitas vezes por longos anos. Sendo um livro emotivo, este não é um livro lamechas. Não é um livro sobre crimes. É um livro sobre pessoas que um dia cometeram crimes. Mas que continuam a ser pessoas. Reconhecê-las como tal, como parte do “nós” em que se esteia a sociedade, é a primeira premissa de aplicação de uma pena e a orientação em que se forja a sua reinserção social. Todos o sabemos, mas é sempre bom recordar.

(Texto também publicado na revista digital Justiça com A)

segunda-feira, 16 de abril de 2018

Tolkien - Uma biografia, Michael White

Quem passa por este blogue regularmente sabe o quanto gosto de ler biografias. A imaginação e capacidade de trabalho subjacentes a O senhor dos anéis sempre me encantaram. Por isso, há muito que queria conhecer a vida do seu criador, J.R.R.Tolkien. Este livro de Michael White é um trabalho completo e rigoroso que nos dá a conhecer o homem por de trás das aventuras dos hobbits e outras figuras maravilhosas que povoam a Terra Média. Passa pela sua infância infeliz, pela sua história de amor com Edith, pianista frustrada que com ele criou uma família, onde Tolkien se revelou um pai extremoso. Um dos aspectos mais cativantes no escritor inglês é o facto da sua genialidade (que me parece inegável) e sucesso alcançado com a escrita, não o terem mudado, na sua essência. A vida de Tolkien parece ter sido tranquila, passada entre a família que construiu e a carreira académica em Oxford. Era à noite que se dedicava à sua obra literária que teve em CS Lewis (seu colega na universidade e amigo, autor de As Crónicas de Narnia) um dos mais fervorosos entusiastas. 
            Nunca fui dada à literatura fantástica, pelo que Tolkien e CS Lewis não foram autores que tenha lido. Na adolescência, dediquei-me aos romances policiais e à literatura sul-americana, opção de que não me arrependo. Mas talvez agora, já há muito passados os 16 anos de que falavam os GNR, me venha a dedicar a estas leituras. Afinal, num mundo com tantas coisas tristes, um toque de fantasia pode ser, just what de doctor ordered.

sexta-feira, 13 de abril de 2018

Charlie Burg - Bookstore Girl







      Mão amiga, como diria Eça, fez-me chegar esta canção. E fez-me desejar ainda mais ser a rapariga da livraria.

sexta-feira, 6 de abril de 2018

Descobri que era europeia, Natália Correia


    Tinha grandes expectativas quanto a este livro e quando vi que tinha sido reeditado, não  hesitei: comprei-o e li-o de imediato. No essencial, é o relato na primeira pessoa da viagem que Natália Correia fez aos Estados Unidos da América, visitando, para além do mais, Nova Iorque e Washington. Natália regressaria duas outras vezes àquele país, mas o grande relato incide sobre a primeira viagem, ocorrida nos anos 50 do século passado. É evidente que Natália Correia se celebrizou pelas suas afirmações contundentes. Mas, ainda assim, fiquei surpresa com o tom do livro, talvez só possível pela sua juventude e alguma euforia. O relato é pormenorizado, embora, curiosamente, omita um facto de que nos apercebemos no final do livro: a visita foi feita na companhia do marido, com quem tinha casado recentemente e que era norte-americano. O facto é relevante porque ao longo de todo o livro a escritora fala de todos os sítios onde esteve e pessoas que conheceu, passando a ideia (pelo menos eu entendi assim) de que viajava sózinha, o que afinal, não era o caso. Para além disso, surpreenderam-me os comentários contundentes e mesmo arrogantes que faz, sobre tudo e todos. Em particular, sobre as mulheres, demonstrando até um inesperado machismo: como se vestem, como agem por não serem casadas ou como não sabem ser boas esposas, por exemplo. Por isso, apesar de reconhecer o olhar pormenorizado e atento, bem como a beleza da escrita da autora, confesso que esta leitura me deixou algo desiludida.