terça-feira, 17 de abril de 2018

Ala Feminina, Vanessa Ribeiro Rodrigues

Das idas a estabelecimentos prisionais guardo o som do portão a fechar-se atrás de mim. Sempre senti este momento como um abdicar temporário do meu direito de ir e vir. E uma manifestação de confiança em quem me recebia ainda que por breves horas: sem razão para ali me reter quando eu quisesse abrir-me-ia a porta para ir embora. Das saídas, consoante os estabelecimento prisionais e as estações do ano, lembro a chuva a cair-me no rosto enquanto me dirigia para o carro, abrindo caminho entre a lama, o regresso ao bulício da cidade ou o sol a atingir-me em cheio no rosto. Das visitas ao interior dos estabelecimentos guardo uma sensação de estranheza. Por pessoas estarem privadas do direito de decidirem os mais pequenos e banais detalhes da vida quotidiana, por o seu espaço físico estar reduzido a um corredor de celas e a um pátio. Por a reclusão significar a criação de um quotidiano novo tão diferente certamente do que cada um tinha quando estava em liberdade.
Ala Feminina é um murro no estômago. É dado com delicadeza, porque a autora escreve com tanta objectividade como poesia, convocando escritores amados e livros que nos são queridos para suavizar o golpe. Mas nessa opção está também a capacidade de escolher cirurgicamente em que ponto da alma nos vai atingir. Como sociedade, pensamos muito pouco nos que cometem crimes. Há uma certa tendência para ver os condenados como sendo “eles” e os demais, “nós”, como cidadãos e cidadãs impolutos. Quantas não são as testemunhas e arguidos que lá vão dizendo em seu benefício “eu nunca entrei num Tribunal”, “até hoje nunca me vi nestas coisas” e outras frases do género? Claramente demonstrando que quem ainda a fazer vida nos Tribunais não pode ser boa gente. E se quem por lá anda não pode ser grande coisa, que dizer de quem de lá sai condenado?
No entanto, o crime é uma instituição bem democrática, como sabem aqueles que acompanham de perto audiências de julgamento, com gente de todas as classes sociais, orientações sexuais e cores a ser julgada. Mas o preconceito, como todos os preconceitos, deixa marcas. Se só “eles” cometem crimes “eles” têm de ser punidos. E punidos significa para muita gente estranha ao que possam ser teorias dos fins das penas, castigados. De forma exemplar, de preferência.
“Eles”, contudo, fazem-nos esta maldade: não são assim tão diferentes de nós na generalidade dos casos. E é isso que o livro de Vanessa Ribeiro Rodrigues mostra: têm família, amigos, amores, sonhos, às vezes minguados porque até nisso a vida foi madrasta. Os relatos recolhidos em Portugal e no Brasil fazem-nos pensar sobre o que são verdadeiramente políticas de reinserção social e o que devemos exigir como cidadãos e cidadãs. E remetem-nos lá bem para dentro da nossa condição humana. O que sentiríamos ao visitar uma mãe num estabelecimento prisional? Ou um filho? E como seria estar presa? De que sentiria mais falta? No meu caso, sei bem o que me pesaria: não poder comer pastéis de nata na minha pastelaria favorita, falar com os meus amores, ver o mar, passear em livrarias. Mas cada um tem o seu itinerário pessoal. As pessoas que Vanessa Ribeiro Rodrigues entrevistou têm o delas, adiado muitas vezes por longos anos. Sendo um livro emotivo, este não é um livro lamechas. Não é um livro sobre crimes. É um livro sobre pessoas que um dia cometeram crimes. Mas que continuam a ser pessoas. Reconhecê-las como tal, como parte do “nós” em que se esteia a sociedade, é a primeira premissa de aplicação de uma pena e a orientação em que se forja a sua reinserção social. Todos o sabemos, mas é sempre bom recordar.

(Texto também publicado na revista digital Justiça com A)

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