terça-feira, 29 de maio de 2018

Sim, é ele, o E.T.



       Não é que me vá tornar numa leitora compulsiva de livros infantis (acho). Mas este livro é irresistível. Afinal, como tantas pessoas da minha geração, chorei com a despedida dos dois amigos quando o ET finalmente iniciou a viagem de regresso para a sua casa. À distância de tantos anos acho o filme maravilhoso - o poder da amizade, a aceitação da diferença e o altruísmo de ultrapassarmos a nossa tristeza para ajudarmos os nossos amigos a irem ao encontro do que para si é melhor. Mesmo que isso nos custe, no caso, por nunca mais se irem ver. Uma história de Hollywood que vale sempre a pena recordar. O livro é fiel à história original e tem ilustrações que recordam todos os personagens que fizeram parte do filme. Mais uma vez, para miúdos e graúdos... 

segunda-feira, 28 de maio de 2018

Contos de encantar, e.e. cummings


     Nobody, not even the rain as such small hands. Este foi o primeiro verso de Cummings que conheci pela mão de Woody Allen no filme Ana e as suas irmãs, então e sempre um dos meus favoritos. Apenas um dos muitos poemas maravilhosos deste autor, de que I carry your heart with me é outro exemplo. Só isso já chegava, mas cummings foi muito mais do que poeta. Ensaísta, pintor e escritor de prosa. Não foi, segundo li agora, grande pai. Mas para se redimir e cativar os netos escreveu estes quatro contos de encantar que agora nos chegam. Pode dizer-se muita coisa sobre estes exercícios de imaginação, onde casas e pássaros são amigos, elefantes e borboletas se visitam e crianças vêm ao mundo para os adultos não se esquecerem de perguntar porquê (uma coisa importante de que os automatismos técnico-tácticos da vida às vezes nos fazem esquecer). Para os especialistas em literatura ficarão as incumbências interpretativas. Para mim, fica o encanto de ler histórias cheias de imaginação sobre o bonito que é quebrar a solidão, própria e alheia. A tradução é de Hélia Correia (que escreveu, por exemplo, Lillias Fraser) e os desenhos de Rachel Caiana. Este livro tão bonito é perfeito para leitores miúdos e graúdos, talvez especialmente para os últimos, a quem um bocadinho mais de sonho pode vir a calhar para criar um mundo melhor. 

sexta-feira, 18 de maio de 2018

Slave to Fashion, Safia Minney





     É fácil pensar que nenhum de nós pode fazer nada de relevante pela vida dos nossos semelhantes, sobretudo daqueles que estão longe. Mas isso é mentira. Este livro incide sobre um ponto essencial para todos nós cidadãos e cidadãs da sociedade da abundância: o consumo ético. O que é isso? É, por exemplo, perceber que se compramos um t-shirt por um preço módico, alguém está a pagar o seu preço real por nós. Esse alguém é muitas vezes um trabalhador ou trabalhadora do Terceiro Mundo que não tem direito a salário mínimo, subsídio de férias ou subsídio de Natal, que não tem horário de trabalho e exerce a sua actividade profissional em condições desumanas. Este livro foca esse fenómeno de que todos temos mais ou menos consciência. Não se fica pelo diagnóstico da situação, indicando formas como todos nós podemos agir. Desde logo, procurando resposta para a pergunta “quem fez as nossas roupas?”, não embarcando no consumo desenfreado, mas antes perguntando-nos como podem determinadas marcas ter produtos tão baratos. Também há uma lista de aplicações que podem ser colocadas no telemóvel e sites para explorar. Há sempre alguma coisa que podemos fazer, desde que estejamos realmente disponíveis para sofrermos o leve incómodo a que toda a acção obriga.
    O livro em si mesmo está bem escrito e com edição cuidada, mostrando a diferença que a introdução de preocupações de justiça na economia pode trazer na vida de cada um.

segunda-feira, 14 de maio de 2018

Racismo no país dos brancos costumes, Joana Gorjão Henriques



       Já aqui disse, a propósito do post que escrevi sobre o livro de Natália Correia, que um dos aspectos que mais me surpreendeu nessa obra foi a aparente convicção da sua autora de que Portugal não era um país racista. Não só era, como continua a ser. E se fossem necessárias provas temos este conjunto de entrevistas feitas por Joana Gorjão Henriques agora tornadas livro que abrem a porta a esse país escondido. São várias as temáticas escolhidas (a procura de emprego, a escolha de uma casa para arrendar e o contacto com serviços públicos, como os da Justiça e os SEF) mas a nota é sempre a mesma: desigualdade. Tal como o sexismo não deve incomodar apenas quem dele sofre, o racismo também não é um problema apenas das minorias étnicas. Estas são questões estruturantes que interessam a todos, pois é nelas que se desenha a sociedade em que queremos viver. A mim, não me apetece mesmo nada viver numa sociedade racista, apesar de ser branca. O livro não me trouxe propriamente uma novidade. Olhando à nossa volta qual a percentagem de população negra que vai para as universidades, que trabalha em escritórios ou em funções públicas diferenciadas ou que vemos a ir ao cinema, teatro ou outras manifestações culturais? A minha experiência diz-me que é uma percentagem baixa. E é aqui que este livro pode ser um ponto de partida interessante, para todos pensarmos em soluções para dar a volta a esta abjecta situação. 

quinta-feira, 10 de maio de 2018

Maria Teresa Horta






                                                                                                     In Poesis.

segunda-feira, 7 de maio de 2018

Hunger, Roxanne Gay






“Postas as coisas de outra maneira tenho pensado muito no que é sentir-se confortável no seu corpo e que luxo isso deve ser. Haverá alguém que se sinta confortável no seu corpo? As revistas de moda levam-me à conclusão de que essa é uma experiência rara, de facto. O modo como as minhas amigas falam dos seus corpos também. Todas as mulheres que eu conheço estão em dieta perpétua. (….)
Quando tinha 20 anos li O mito da beleza de Naomi Wolf, publicado em Portugal pela Difusão Cultural. Posso dizer que foi uma das leituras que mudou a minha vida. Wolf punha em relevo o modo como a sociedade impõe às raparigas um conceito de beleza único e a forma como a produção cultural operava uma correspondência quase perfeita entre esse ideal e uma vida aventurosa. As coisas (boas ou más) acontecem às mulheres por elas serem belas. As feias ou simplesmente medianas não têm com que se preocupar senão com o tédio absoluto. É nesse contexto que a escrita de autoras como Jane Austen surge como revolucionária. As heroínas da autora inglesa são com frequência raparigas comuns quanto ao seu aspecto físico, sem que isso lhes retire o direito a terem a sua própria história. 
Como adolescente vivi convencida de que era uma rapariga feia. Nunca fui gorda, não tive praticamente borbulhas, mas usava óculos e tinha um longo cabelo escorrido castanho escuro. Também não tinha grande gosto para escolher o guarda-roupa, sobretudo quando o comparava com as camisolas simples e em cores vibrantes que grande parte das minhas colegas usava, adquiridas em lojas de marcas que hoje são comuns, mas na altura eram um sinal de luxo. O livro da Wolf que li pouco depois de entrar na universidade permitiu-me iniciar o processo de libertação. Os anos e as experiências de vida foram fazendo o resto. Ao ponto de há uns anos atrás ter deixado de boca aberta uma amigas ao dizer-lhes que não teria qualquer problema em estar na mesma sala com as raparigas da Victoria's Secret. Tenho a certeza de que serão muito simpáticas e têm coisas interessantes para contar. Duas características de que sempre gosto nas pessoas que encontro socialmente. 
A autobiografia de Roxanne Gay (de onde extraí e traduzi a citação com que iniciei este post) é um livro intenso, delicado e forte que nos põe a pensar e não deixa ninguém indiferente. Gay é uma professora e escritora norte-americana, descendente de haitianos. Sofreu um ataque sexual no início da sua adolescência e é esse o ponto de viragem no que até aí tinha sido uma vida feliz e confortável. Um acontecimento que manteve em segredo durante muitos anos, por vergonha do sucedido. Para além da gravidade de um ataque dessa natureza (e aconselho a este propósito a leitura de um outro trabalho de Naomi Wolf, Vagina, entre nós trazida à estampa pela Nova Delphi, que deixa bem evidente o porquê da violação ter sido e ser ainda usada como arma de guerra) no caso de Gay há ainda uma outra circunstância agravante: um dos perpetradores do ataque era o rapaz com quem na altura tinha uma relação próxima, com quem partilhava brincadeiras e intimidades no bosque nas imediações de casa.
A partir daqui começa a tentativa de Roxane Gay se tornar invisível, o que faz através da comida. Torna-se uma rapariga gorda e depois uma mulher muito gorda. São impressionantes e de leitura difícil (pelo sofrimento nelas plasmado) as páginas em que descreve o seu aumento cíclico de peso, o seu desinteresse pelo corpo, o modo como se envolveu em relações abusivas a vários títulos e como se procurou esconder nas profundezas da América. Foi na escrita (apesar de ser evidente e a própria reconhecer o amor da sua família e a existência de amigos) que encontrou salvação.  São especialmente comoventes as passagens em que finalmente os seus progenitores descobrem a violência de que foi vítima. E as páginas em que percebemos que continua a escrutinar através da internet o percurso do rapaz que a atraiçoou e que continua a sua vida, como se nada tivesse acontecido. Tanto mais injusto quanto a sua vítima continua a pensar no assunto todos os dias, apesar de terem passado décadas. 
Roxane Gay relata-nos como é viver sendo gorda. Os olhares, a dificuldade em encontrar roupa bonita, os receios quando vai falar em público, os comentários que recebe, designadamente via internet (como sempre e para não variar os mais cruéis e cobardes). O livro é tocante enquanto livro de memórias, mas é muito mais do que isso. Poderia dizer que este livro nos põe a pensar sobre o modo como olhamos para os gordos e os catalogamos. Sem dúvida que pode ter esse corolário. Mas qualquer pessoa que pegue nesta autobiografia já deve ter passado essa fase, acho. O livro traz-nos uma reflexão sobre o modo como olhamos para nós próprias (não excluindo os homens também cada vez mais afectado pelas questão da imagem). Porque não podemos comer uma bola de Berlim com creme sem nos sentirmos culpadas? Porque nunca estamos satisfeitas com o nosso corpo (com o peso e o cabelo, por exemplo)? Recordo-me de há uns anos estar a jantar com três amigas, todas elas magras, mas todas elas muito preocupadas e desejando emagrecer "dois ou três quilitos". A sério, pensei, porquê? Confesso que na altura não lhes disse nada. Mas senti-me incomodada com aquela conversa. Outras dúvidas que me ocorrem ao correr da pena (ou das teclas, neste caso): porque insistimos em comentar a roupa dos outros? O corpo dos outros? Porque compramos peças de que gostamos e depois ficam no armário, por falta de “coragem” para as vestirmos? São boas perguntas que resultam, não apenas da minha experiência, mas do que observo nos que me rodeiam. 
Podemos ter a tentação de pensar no livro de Roxane Gay como sendo sobre gordura ou mesmo obesidade. Também é, claro. É uma autobiografia e nessa medida a experiência da autora é a base de trabalho. Mas pode ser alargada, creio. Este é um livro sobre os nossos corpos. Sobre a sua força e a sua fragilidade. Sobre descobrir (como a autora está a fazer, pelos vistos), quem somos para além do nosso corpo. Sobre quebrar o espelho social, com a sua moldura tão rígida, e sermos quem somos. Com o nosso corpo. Este é sob muitos aspectos um livro revolucionário, pois apesar de todas as mudanças sociais, o corpo (o de todos nós) continua a ser escrutinado, avaliado e policiado e é muitas vezes a medida daquilo que valemos (até para nós mesmos).  
O livro foi traduzido e editado no Brasil e seria uma excelente notícia que também o fosse em Portugal.

quarta-feira, 2 de maio de 2018

Lisbon Poetry Orchestra, Poetas Portugueses de Agora



    
         Diz-se que em cada português há um poeta e talvez assim seja. Mas como em tudo na vida há sempre uns que são mais poetas do que os outros. A Lisbon Poetry Orchestra reúne cerca de uma dezena de poetas portugueses contemporâneos. Cada um contribuiu para a criação deste livro que é composto também por música e desenho. São dois os CD. Num, os poemas são ditos por actores e outros profissionais da voz. No outro temos apenas a música. A ideia é que os leitores possam organizar sessões de poesia, declamando os poemas e fazendo as suas próprias interpretações das palavras oferecidas. O projecto é interactivo e as declamações podem ser partilhadas na página criada para esse efeito. Estou ainda a descobrir este livro e não faço ideia se vou gravar qualquer declamação – já li um ou outro em voz alta, porque o convite é mesmo irresistível. O público é muitas vezes “apenas” consumidor de cultura (livros, cinema, música). Este projecto tem a ousadia de acreditar que podemos mesmo ser todos, ao menos um bocadinho, poetas. O que é uma ideia bem bonita.