segunda-feira, 7 de maio de 2018

Hunger, Roxanne Gay






“Postas as coisas de outra maneira tenho pensado muito no que é sentir-se confortável no seu corpo e que luxo isso deve ser. Haverá alguém que se sinta confortável no seu corpo? As revistas de moda levam-me à conclusão de que essa é uma experiência rara, de facto. O modo como as minhas amigas falam dos seus corpos também. Todas as mulheres que eu conheço estão em dieta perpétua. (….)
Quando tinha 20 anos li O mito da beleza de Naomi Wolf, publicado em Portugal pela Difusão Cultural. Posso dizer que foi uma das leituras que mudou a minha vida. Wolf punha em relevo o modo como a sociedade impõe às raparigas um conceito de beleza único e a forma como a produção cultural operava uma correspondência quase perfeita entre esse ideal e uma vida aventurosa. As coisas (boas ou más) acontecem às mulheres por elas serem belas. As feias ou simplesmente medianas não têm com que se preocupar senão com o tédio absoluto. É nesse contexto que a escrita de autoras como Jane Austen surge como revolucionária. As heroínas da autora inglesa são com frequência raparigas comuns quanto ao seu aspecto físico, sem que isso lhes retire o direito a terem a sua própria história. 
Como adolescente vivi convencida de que era uma rapariga feia. Nunca fui gorda, não tive praticamente borbulhas, mas usava óculos e tinha um longo cabelo escorrido castanho escuro. Também não tinha grande gosto para escolher o guarda-roupa, sobretudo quando o comparava com as camisolas simples e em cores vibrantes que grande parte das minhas colegas usava, adquiridas em lojas de marcas que hoje são comuns, mas na altura eram um sinal de luxo. O livro da Wolf que li pouco depois de entrar na universidade permitiu-me iniciar o processo de libertação. Os anos e as experiências de vida foram fazendo o resto. Ao ponto de há uns anos atrás ter deixado de boca aberta uma amigas ao dizer-lhes que não teria qualquer problema em estar na mesma sala com as raparigas da Victoria's Secret. Tenho a certeza de que serão muito simpáticas e têm coisas interessantes para contar. Duas características de que sempre gosto nas pessoas que encontro socialmente. 
A autobiografia de Roxanne Gay (de onde extraí e traduzi a citação com que iniciei este post) é um livro intenso, delicado e forte que nos põe a pensar e não deixa ninguém indiferente. Gay é uma professora e escritora norte-americana, descendente de haitianos. Sofreu um ataque sexual no início da sua adolescência e é esse o ponto de viragem no que até aí tinha sido uma vida feliz e confortável. Um acontecimento que manteve em segredo durante muitos anos, por vergonha do sucedido. Para além da gravidade de um ataque dessa natureza (e aconselho a este propósito a leitura de um outro trabalho de Naomi Wolf, Vagina, entre nós trazida à estampa pela Nova Delphi, que deixa bem evidente o porquê da violação ter sido e ser ainda usada como arma de guerra) no caso de Gay há ainda uma outra circunstância agravante: um dos perpetradores do ataque era o rapaz com quem na altura tinha uma relação próxima, com quem partilhava brincadeiras e intimidades no bosque nas imediações de casa.
A partir daqui começa a tentativa de Roxane Gay se tornar invisível, o que faz através da comida. Torna-se uma rapariga gorda e depois uma mulher muito gorda. São impressionantes e de leitura difícil (pelo sofrimento nelas plasmado) as páginas em que descreve o seu aumento cíclico de peso, o seu desinteresse pelo corpo, o modo como se envolveu em relações abusivas a vários títulos e como se procurou esconder nas profundezas da América. Foi na escrita (apesar de ser evidente e a própria reconhecer o amor da sua família e a existência de amigos) que encontrou salvação.  São especialmente comoventes as passagens em que finalmente os seus progenitores descobrem a violência de que foi vítima. E as páginas em que percebemos que continua a escrutinar através da internet o percurso do rapaz que a atraiçoou e que continua a sua vida, como se nada tivesse acontecido. Tanto mais injusto quanto a sua vítima continua a pensar no assunto todos os dias, apesar de terem passado décadas. 
Roxane Gay relata-nos como é viver sendo gorda. Os olhares, a dificuldade em encontrar roupa bonita, os receios quando vai falar em público, os comentários que recebe, designadamente via internet (como sempre e para não variar os mais cruéis e cobardes). O livro é tocante enquanto livro de memórias, mas é muito mais do que isso. Poderia dizer que este livro nos põe a pensar sobre o modo como olhamos para os gordos e os catalogamos. Sem dúvida que pode ter esse corolário. Mas qualquer pessoa que pegue nesta autobiografia já deve ter passado essa fase, acho. O livro traz-nos uma reflexão sobre o modo como olhamos para nós próprias (não excluindo os homens também cada vez mais afectado pelas questão da imagem). Porque não podemos comer uma bola de Berlim com creme sem nos sentirmos culpadas? Porque nunca estamos satisfeitas com o nosso corpo (com o peso e o cabelo, por exemplo)? Recordo-me de há uns anos estar a jantar com três amigas, todas elas magras, mas todas elas muito preocupadas e desejando emagrecer "dois ou três quilitos". A sério, pensei, porquê? Confesso que na altura não lhes disse nada. Mas senti-me incomodada com aquela conversa. Outras dúvidas que me ocorrem ao correr da pena (ou das teclas, neste caso): porque insistimos em comentar a roupa dos outros? O corpo dos outros? Porque compramos peças de que gostamos e depois ficam no armário, por falta de “coragem” para as vestirmos? São boas perguntas que resultam, não apenas da minha experiência, mas do que observo nos que me rodeiam. 
Podemos ter a tentação de pensar no livro de Roxane Gay como sendo sobre gordura ou mesmo obesidade. Também é, claro. É uma autobiografia e nessa medida a experiência da autora é a base de trabalho. Mas pode ser alargada, creio. Este é um livro sobre os nossos corpos. Sobre a sua força e a sua fragilidade. Sobre descobrir (como a autora está a fazer, pelos vistos), quem somos para além do nosso corpo. Sobre quebrar o espelho social, com a sua moldura tão rígida, e sermos quem somos. Com o nosso corpo. Este é sob muitos aspectos um livro revolucionário, pois apesar de todas as mudanças sociais, o corpo (o de todos nós) continua a ser escrutinado, avaliado e policiado e é muitas vezes a medida daquilo que valemos (até para nós mesmos).  
O livro foi traduzido e editado no Brasil e seria uma excelente notícia que também o fosse em Portugal.

1 comentário:

  1. gostei tanto desta recensão. devo regressar a Wolf, depois disto.

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