sexta-feira, 29 de junho de 2018

A história de um sonho, Arthur Schnitzler



Há livros que nos deixam perplexos e O sonho foi um deles para mim. Já tinha ouvido falar do autor mas foi esta a primeira obra sua que li.
O livro conta a história de um casal da classe média sólida vienense no início do século XX. Vivem uma existência burguesa e confortável, alicerçada num afecto genuíno do qual nasceu já uma filha de seis anos. Mas a constância amorosa é difícil de manter. Se vai passando pelos dias sem nota, alguns sentem-na de pouco valor, alicerçada no hábito e não tanto no compromisso consciente. Se permanentemente jurada lança a dúvida. Se o amante olha para o lado e ainda assim me escolhe, não deixa de ser verdade que de mim desviou o olhar.
O casal que protagoniza o livro tem o hábito de partilhar pequenos segredos, atracções sentidas por estranhos, trocas de olhares, no presente ou no passado, de que o outro não se apercebeu. Mas que poderiam ter estilhaçado a vida conjugal. Tais confissões aguçam o ciúme, mas são vistas por ambos como uma reafirmação do afecto e de uma relação totalmente aberta, sem espaço para segredos. 
É neste cenário que o marido, médico, sai para fazer uma visita a um domicílio. Inesperadamente, acaba por ver-se envolvido no submundo vienense, entre o encontro com um velho amigo, uma prostituta e um conjunto de membros de relevo da sua cidade que, sob a capa do anonimato, levam a cabo orgias secretas. O bom médico sentiu-se fascinado com este mundo onde as regras são diferentes das que sempre conheceu. Mas rapidamente percebe que toda a tentação tem um risco e um preço.
O livro tem um ambiente onírico, intervalando entre a luminosidade da vivência conjugal e a sombra das experiências de clandestinidade. É uma obra pequena e que se lê rapidamente, deixando-nos a sensação de que não se revela de uma só vez. 
O sonho serviu de inspiração ao filme De olhos bem abertos de Stanley Kubrick. Pode ser interpretado de várias formas, claro. Para mim, nesta primeira leitura, é um conto cautelar. A personagem masculina regressa a casa feliz por encontrar a esposa a dormir. Fiquei com a clara percepção de que não voltaria a repetir as suas aventuras das noites anteriores e tão pouco iria revelar à esposa o que testemunhou. E foi isso que me lembrou o desenho de Almada Negreiros. O casal a dormir a sesta, com uma geografia física só possível na intimidade. Mas separados, cada um no seu mundo de sonhos. E essa dualidade não é coisa má, pois a fusão total, a revelação de tudo o que nos vai no espírito nem sempre dá bom resultado.  

sexta-feira, 22 de junho de 2018

No cinema ...



              Livros, guerra e amor. Resistência e coragem. Uma bela história à volta do gosto pela escrita e pela leitura. Não como factores de alienação ou de esquecimento da realidade, mas como forma de nos dar ânimo para a luta e a vida. 

quinta-feira, 21 de junho de 2018

Matsuo Bashô, O caminho estreito para o longínquo norte



         Publicado pela Fenda esta é o relato de uma viagem feita pelo seu Japão natal por Matsuo Bashô, poeta do período Edo (século XVII). Uma escrita límpida e a atenção ao detalhe fazem da leitura deste pequeno texto um encanto. As notas (que foram adoptadas da tradução castelhana feita por Octavio Paz) contextualizam as referências. Quando seguimos Bashô sentimo-nos transportados para longe, ao lado dele, parando em cada pousada, seguindo as subtis mudanças de paisagens, habitadas por natureza e espíritos, numa fusão entre passado e presente que só os grandes autores nos podem oferecer. Conheço pouco da literatura japonesa mas depois de ler este texto fiquei com vontade de prosseguir o encontro e até de regressar ao Japão, onde estive há alguns anos. 

segunda-feira, 18 de junho de 2018

Os enigmas do amor, Virgílio Saúl Serra de Carvalho



Há quem diga que o amor não existe, que é uma ilusão, um erro ou um artifício da biologia. Mas isso é-nos desmentido pela experiência da vida. Todos sentimos já a alma inundada de ternura ou o espírito e corpo em ebulição por encontros que a vida nos traz. O amor existe, sem dúvida. E melhor do que defini-lo e procurar dissecá-lo em abstracto é encontrá-lo no nosso quotidiano. É essa oportunidade que estes poemas de Virgílio Saúl Serra de Carvalho nos oferecem. Leio-os e descubro em cada um deles um instantâneo fotográfico, testemunho do amor que alguém encontrou ou pensava ter encontrado. Ou quis acreditar que tinha encontrado, como na vida, às vezes, também ansiamos por nos deixar enganar.
É no amor que se encontram tantas vezes emoções que nos assustam, como o ciúme, o despeito ou o medo de o ver substituído pela indiferença. São esses retratos que encontramos pintados nos versos de poemas como A amante intriguista, A covardia do amor ou O dia em que o amor disse adeus. Mas é também é do amor que emergem as emoções que nos fazem viver, o carinho, o desejo e a saudade. São elas que visitam poemas como O amor incondicional, Pai, porque te foste embora ou Amor de mãe.
Os Enigmas do Amor recordam-nos a complexidade da alma humana, os encontros e desencontros da vida, bem como os sentimentos que vão e vêm. E também aqueles que se revelam, afinal, perenes, indiferentes à passagem do tempo ou às mudanças de paisagem. Por isso, ao lado do amor romântico vivido ou sonhado, estes poemas conduzem-nos a outros amores, não só por pessoas (progenitores, filhos), mas também por ideais, por um país, por uma religião. São tantos e tão diferentes os amores que dão sentido a uma vida ... 
Em dado passo deste livro Virgílio Saúl Serra de Carvalho escreve “Amar é uma palavra fácil/ Mas difícil de viver”. É dessas dificuldades, mas também das bem-aventuranças que as acompanham, que este livro nos fala, numa linguagem simples e clara, onde todos nos podemos rever.

terça-feira, 5 de junho de 2018

O Buda e o Budismo no Ocidente e na Cultura Portuguesa, Paulo Borges e Duarte Braga


Nos nossos dias há um interesse renovado pela espiritualidade oriental, em particular pelo budismo. Muitos factores podem contribuir para o apelo do oriente. O desencanto pelos modelos religiosos tradicionais do ocidente ou a possibilidade de procurar, num ambiente de liberdade e de mais fácil acesso ao conhecimento, aquilo de que efectivamente nos sentimos mais próximos. Cada um terá os seus motivos, uns mais profundos e outros porventura mais superficiais. Este livro, organizado por Paulo Borges e Duarte Braga, responde ao interesse dos primeiros. Os autores juntaram textos de vários investigadores portugueses, percorrendo um conjunto de temas com especial enfoque nos reflexos do budismo na vida cultural portuguesa. Através deles explicam como surgiu o budismo no nosso pais e a influência que teve em criadores como Eça de Queirós, Antero de Quental ou Vergílio Ferreira. Qualquer pessoa com curiosidade intelectual retira prazer desta leitura. Eu, por exemplo, gostei particularmente das páginas dedicadas António Andrade, padre jesuíta que no séc. XVII foi o primeiro ocidental a entrar no reino do Tibete. Gostei de ler a forma como procurou ligações entre a realidade que se lhe apresentava pela primeira vez e a cultura portuguesa, arriscando pontes de contacto entre as religiões algo audaciosas. Ou talvez não, se nos recordarmos do que Nicolas Notovitch escreveu no seu relato (não sei se há versão portuguesa em inglês o título é The Unknown life of Jesus). Notovitch fez uma longa viagem ao Tibete tendo afirmado no regresso ter visto provas de que Jesus Cristo ali teria estado durante cerca de 15 anos (entre o fim da adolescência e a entrada da idade adulta). Claro que foi recebido com desconfiança (para dizer o mínimo), mas isso não o impediu de defender com veemência a sua tese, até explicando que foi em contacto com os monges tibetanos que Jesus aprendeu técnicas meditativas que lhe permitiram suportar a crucificação. Voltando ao trabalho dos autores portugueses outro estudo interessante é o dedicado ao livro A cidade e as serras lido à luz da doutrina budista.
Por mim, gosto sempre de livros que me dão novas perspectivas pelo que este achado é um daqueles que guardo para continuar a explorar, lendo e relendo os vários textos que o compõem.

segunda-feira, 4 de junho de 2018

Manifesto, Mary Beard




   
Mary Beard é uma das mais reputadas classicistas da actualidade. Para além disso, é uma observadora atenta da realidade, com obra publicada também nessa área. Confesso que fiquei surpreendida ao ver este seu mais recente livro editado em Portugal. Mas foi uma boa surpresa para contrabalançar os dias em que entro em livrarias em me parece que está a ser editado vezes sem conta o mesmo livro, pela pena de autores diversos e com capas diferentes. Um Manifesto conduz-nos desde a Antiguidade Clássica até à actualidade e nele se pensa sobre o modo como as mulheres no poder se vêem e são vistas. Apesar de me parecer mais pensado para o espaço público anglo-saxónico (o que não surpreende, claro) do que ao português é uma leitura altamente recomendável. Pelas ligações à antiguidade e também pelo modo como mostra que os reflexos da mesma nos acompanham até aos dias de hoje.