Há
livros que nos deixam perplexos e O sonho foi um deles para
mim. Já tinha ouvido falar do autor mas foi esta a primeira obra sua que li.
O
livro conta a história de um casal da classe média sólida vienense no início do
século XX. Vivem uma existência burguesa e confortável, alicerçada num afecto
genuíno do qual nasceu já uma filha de seis anos. Mas a constância amorosa é
difícil de manter. Se vai passando pelos dias sem nota, alguns sentem-na de pouco valor, alicerçada no hábito e não tanto no compromisso consciente. Se permanentemente jurada lança a dúvida. Se o
amante olha para o lado e ainda assim me escolhe, não deixa de ser verdade que
de mim desviou o olhar.
O
casal que protagoniza o livro tem o hábito de partilhar pequenos segredos, atracções sentidas por estranhos, trocas de olhares, no presente ou no passado, de que
o outro não se apercebeu. Mas que poderiam ter estilhaçado a vida conjugal. Tais confissões aguçam o ciúme, mas são vistas por ambos como uma reafirmação do afecto e de uma relação totalmente aberta, sem espaço para segredos.
É
neste cenário que o marido, médico, sai para fazer uma visita a um domicílio.
Inesperadamente, acaba por ver-se envolvido no submundo vienense, entre o
encontro com um velho amigo, uma prostituta e um conjunto de membros de relevo
da sua cidade que, sob a capa do anonimato, levam a cabo orgias secretas. O bom médico sentiu-se fascinado com este mundo onde as regras são diferentes das que sempre conheceu. Mas rapidamente percebe que toda a tentação tem um risco e um preço.
O
livro tem um ambiente onírico, intervalando entre a luminosidade da vivência
conjugal e a sombra das experiências de clandestinidade. É uma obra pequena e que se lê rapidamente, deixando-nos a sensação de que não se revela de uma só vez.
O sonho serviu de inspiração ao filme De olhos bem abertos de Stanley Kubrick. Pode
ser interpretado de várias formas, claro. Para mim, nesta primeira leitura, é um conto cautelar. A
personagem masculina regressa a casa feliz por encontrar a esposa a dormir. Fiquei com a clara percepção de que não voltaria a repetir as suas aventuras das noites anteriores e tão pouco iria revelar à esposa o que testemunhou. E foi isso que me lembrou o desenho de Almada Negreiros. O casal a
dormir a sesta, com uma geografia física só possível na intimidade. Mas separados, cada um no seu mundo de sonhos. E
essa dualidade não é coisa má, pois a fusão total, a revelação de tudo o que nos vai
no espírito nem sempre dá bom resultado.





