terça-feira, 31 de julho de 2018

I'd rather be reading, Guinevere de la Mare



Uma pequena colecção de ensaios sobre os prazeres da leitura ilustrada com belíssimas fotografias e desenhos sobre a mesma ocupação. O contentamento de ler, como ler mais, como escolher os livros a ler, enfim, todos os pequenos magnos assuntos que encantam quem ama a leitura. 
O relato introdutório é de Guinevere dela Mare, escritora e editora norte-americana, fundadora do Silent Book Club. Mas este livro é ainda composto por ensaios de Maura Kelly, Ann Parchett e Gretchen Rubin. Todos sobre os prazeres de ler. Gostei, em particular, do relato introdutório (por contrariar a ideia de que todos os que gostam de ler o fazem desde tenra infância) e do contributo de Maura Kelly sobre a adaptação do movimento slow também aos livros. No entanto, há que dizer que neste livro as imagens valem tanto como as palavras. Com efeito, é primorosamente ilustrado com fotografias e desenhos alusivos à leitura e seus prazeres e é isso que o transforma numa pequena obra de arte. Encontrei o exemplar por acaso numa das lojas Bertrand e já não consegui separar-me dele ... 

terça-feira, 24 de julho de 2018

sábado, 21 de julho de 2018

Uma história do desejo feminino,Carol Dyhouse



          Lembro-me de ler os policiais de Agatha Christie e não perceber o apelo amoroso da figura clássica do médico holandês, anafado e rico, mas pouco dado a impulsos afectivos para com a personagem feminina que, no final, o arrecadava como marido. A chave para este mistério encontrei-a agora ao ler este livro da historiadora inglesa Carol Dyhouse. É um trabalho de investigação e reflexão exaustivamente documentado, que nos conduz desde o século XIX até aos nosso dias. Entre xeques árabes, médicos ricos, Mr Darcy (absolutamente incontornável), almirantes e aviadores, a autora traz-nos até aos vampiros da saga Crepúsculo e ao Sr. Grey, o tal das cinquenta sombras. Este livro oferece-nos, assim, uma leitura sobre os modelos de masculinidade que a literatura, cinema e música têm oferecido às mulheres consumidoras de produção cultural popular. Os modelos são variados, mas têm linhas comuns. Por exemplo, o homem aparentemente duro e arrogante, mas que na verdade, apenas estava à procura da mulher certa para mostrar o seu interior suave e doce. Mas também sempre o homem rico, que vai permitir à mulher eleita todo um novo estilo de vida, com o qual ela, com poucos recursos económicos e nenhuma autonomia, apenas poderia sonhar. O que é tanto mais extraordinário quando pensamos nas muitas mulheres que a partir do século XIX lutavam para verem reconhecidos os seus direitos, trabalhavam e aventuravam-se pelo mundo. E nem todas eram ricas ou contavam com um protector influente, diga-se.
 A pergunta que me coloco é se esta produção cultural correspondia realmente ao que as mulheres desejavam ou antes àquilo que lhes permitiam que desejassem. Enquanto lemos as palavras lúcidas de Dyhouse, percebemos como o "modelo de fantasia" foi sempre limitado: homens brancos, claro (mesmo os árabes - os asiáticos e os africanos estavam foram de questão para heróis românticos - ou eram, na verdade, ocidentais ou morriam antes da narrativa terminar), felicidade doméstica (casa e filhos) e pouco ou nenhum espaço para a autonomia. Claro que houve sempre quem escapasse a este modelo simples (por algum motivo Jane Austen passou à história da literatura) e quem o fizesse em estilhaços sem dó, nem piedade (como uma outra inglesa, Jackie Collins, com as suas heroínas cruas e prontas a jogar de igual para igual). Mas o panorama geral da oferta cultural popular sempre foi muito conformista. Por todas as questões que coloca este livro e desafiante. E deixa-nos a pensar sobre o seu objecto de investigação: fantasias inconsequentes para enganar o cinzento do quotidiano ou logros perigosos conducentes ao conformismo feminino, indispensável à continuidade do patriarcado? A meu ver, um livro que nos deixa a fazer perguntas é o melhor tipo de livro que existe. 
          

terça-feira, 17 de julho de 2018

O Primeiro Amor, Ivan Turguénev



       Dele dizia Tolstoi que era o melhor escritor russo de romances franceses. Ironias à parte Turguénev passou à história como um dos grandes nomes da literatura russa, ao lado de Dostoiveski, Chécov e do próprio Tolstoi. Autor integrado na escola realista este seu pequeno romance narra o drama de um jovem adolescente que, aos dezasseis anos, conhece pela primeira vez o amor. Será ainda uma homenagem ao romantismo ou fruto da dramática alma russa, mas esta é uma história tão infeliz que melhor será descrita como uma narração de desamor. Turguénev leva-nos à alma deste adolescente, primeiro animada pelo fulgor da paixão, rapidamente substituída pelo desânimo, ciúme e choque ao descobrir quem é o seu rival. A escrita é objectiva, concisa e eficaz, o que é credível porque o narrador conta o episódio onde se viu envolvido anos depois do mesmo ter ocorrido. Há ainda tristeza nas suas palavras mas sobretudo a compreensão de que o mundo dos adultos e o do amor, não são sempre justos. Obra onde a objectividade se cruza com os sentimentos de um modo admirável este é um pequeno livro que vale a pena conhecer. 

sexta-feira, 13 de julho de 2018

A praia de Chesil




     Sempre achei que há uma grande leveza no uso da palavra amor. Como se pudéssemos amar muito, muita gente, vezes infindáveis. Mas se formos rigorosos, concluímos que o amor é um sentimento usado parcimoniosamente, sob pena de se confundir com entusiasmos e apetites que, por louváveis e prazerosos que sejam, não se misturam com ele. Há pessoas que “amam esparguete” e outras “amam viajar”. Também há quem afirme que "ama de paixão aquele par de sapatos". Há quem “se ame a si mesmo” e quem “ame a humanidade”. Normalmente nestas duas últimas categorias estão os que não amam nada, nem ninguém. Mas esse é um tema para outro dia.
        O grande problema neste uso da palavra amor com a generosidade com que escorre uma garrafa de vinho numa noite de Verão, é que o primeiro, não devendo rimar com dor, surge por vezes embrulhado numa dose de sacrifício. Não é sempre fácil, solto ou leve. E nem sempre corresponde àquilo que idealizamos. Às vezes, pede de nós coisas que nem imaginávamos. E é precisamente aí, quando estamos na ponderação entre o nosso interesse e o que nos pede o amor, que damos por nós a pensar na leveza com que se usa aquela palavra. 
 Li vários livros de Ian Mcewan: A criança no tempo, O jardim de cimento, Cães Pretos, Amesterdão, Sábado. De todos o meu favorito é este último, ainda que também tenha gostado de uma obra posterior, Mel. E de Expiação também. Mas nunca li A praia de Chesil, embora tivesse uma ideia da temática. O filme não só é baseado neste livro, como tem o argumento escrito por Mcewan, o que certamente ajuda a que seja uma pérola a não perder. Isso e as interpretações dos dois actores principais, sensível e contida, a dela, intensa e volúvel, a dele.
         A acção decorre no início dos anos 60 do século XX. Os protagonistas são um casal apaixonado que contraria o gosto pela mudança para casar como manda o figurino e preparar-se para um início de vida instalado no que a família dela já construiu. Apesar do aparente desconforto que esta solução acarreta. Dentro do modelo pré-estabelecido está a lua-de-mel num hotel de uma praia inglesa, no caso Chesil. Tudo é artificial ali agravando a falta de intimidade do casal. A tensão vai-se avolumando sem que consigam transpô-la. As tentativas dela esbatem na impreparação dos dois.
         O que se passa a seguir pode ter várias explicações: a juventude e a ausência de preparação para fazer face a dificuldades da intimidade joga um papel importante. Mas a meu ver há ali muito mais. Há o orgulho, o egoísmo e a incapacidade de ver o outro por parte da personagem masculina. Há a leveza com que foi dita a palavra mágica (“amo-te”) sem contar com as dificuldades da vida. E há o rápido esboroar do que era um projecto de vida a dois. É muito curiosa a reacção do noivo não só acentuando a culpa da noiva pela incapacidade de consumação do casamento (o que, não só não é uma conclusão líquida, como é, no mínimo, de grande indelicadeza), como atirando-lhe à cara os votos proferidos que ele próprio não consegue honrar (“com o meu corpo te venero”).
         Os livros de Mcewan sempre me geraram desconforto, ao ponto de me interrogar sobre o motivo por que os fui lendo anos a fio. Há na sua escrita uma implacabilidade que sempre me deixou angustiada. E também aqui ela se verifica ainda que conduza a uma espécie de justiça poética. E não é isso o que de mais elevado podemos esperar da vida quando já desistimos do amor? Excepto quando o justiçado somos nós, pois que nem sempre a justiça convém ao que prevaricou.
         O filme é cheio de material de reflexão que só pode ganhar com o conhecimento do livro, creio. Por isso, vou adicioná-lo à minha virtualmente infindável lista de leitura.

quarta-feira, 11 de julho de 2018

Ontem descobri este poema maravilhoso





Quanto puderes (1913)

Mesmo que não possas fazer a vida como a queres,
isto ao menos tenta
quanto puderes: não a desbarates
nos muitos contactos do mundo,
na agitação e nas conversas.

Não a desbarates arrastando-a,
e mudando-­a e expondo-a
ao quotidiano absurdo
das relações e das companhias
até se tornar um estranho importuno.


Konstatin Kaváfis

segunda-feira, 9 de julho de 2018

Mary Shelley






Não me acontecia desde os tempos da faculdade: moi même e o filme sozinhos num cinema algures em Lisboa. Mas foi assim num fim de tarde não muito longínquo. Era dia de estreia de Mary Shelley e ao mesmo tempo Portugal ainda estava no Mundial. A conjugação e factores e o fim de tarde favoreceram-me. Ali fiquei eu no escurinho do cinema. Não com drops de anis, como canta Rita Lee, e muito longe do final feliz de que ela fala (podem ouvir a génese das minhas paráfrases aqui). 
O filme conta a história da criadora de Frankenstein. Confesso que não li o livro e nem sequer estava na minha lista de leituras. Mas depois de ver o filme saltou para lá quase de imediato. Mary era filha de Mary Wolstonecraft, livre pensadora e autora da obra clássica Reivindicação dos Direitos das Mulheres, falecida poucos dias depois do nascimento da filha. Mary cresceu com uma paixão por livros e histórias de fantasmas. A sua vontade de ser livre e fazer as suas próprias escolhas cresceu quando conheceu o poeta inglês Shelley, pelo qual se apaixonou. A atracção foi recíproca, mas não isenta dificuldades. Algumas criadas pelo mundo exterior e outras decorrentes de características pessoais e de vicissitudes com que o casal se deparou (como a morte da primeira filha, ainda bebé).
Frankenstein foi escrito na sequência de um repto de Lord Byron, com que o casal se relacionava. Mas foi muito mais do que uma distracção ou até de uma obra de ficção científica com intuitos meramente lúdicos. Mary, como se vê no filme, colocou muito de si na narrativa. O sofrimento, abandono e revolta que sentia foram corporizadas na sua personagem, o que não deixou o público inglês da época indiferente. Mas, mais do que uma história sobre uma escritora o filme é sobretudo a história de ser humano, uma mulher, que quis ser livre e viver de acordo com as suas escolhas. Algo de que a sociedade sempre teve medo, claro. E Mary, como tantos e tantas antes e depois dela, pagou o respectivo preço. 

domingo, 8 de julho de 2018

Salvação, Ana Cristina Silva




           Um livro com duas história dentro. Salvação narra a história de um escritor a braços com a dor da morte da mulher amada. Para superar o sofrimento, e sobretudo para cumprir o desejo da mulher, volta à escrita. O seu protagonista é um médico judeu que foge de Portugal na sequência das perseguições da Inquisição. Para trás deixa a mulher - morta num auto de fé - e a filha que não tornará a ver. Lança-se no mundo e ruma a Amesterdão onde se instala e vai prosseguindo a vida. 
        O livro tem dois temas principais. Um é o luto, com que os dois protagonistas (escritor e sua criatura) se debatem. A estranheza de viver quando quem mais amámos não está no mundo. A procura de um sentido quando se perde uma referência que nos dava sentido ao mundo. O outro tema é o extremismo religioso presente em todas as religiões monoteístas: cristianismo, islamismo e judaísmo. Mesmo sob a capa da tolerância (que, no rigor, não é uma aceitação de que os outros possam estar certos, mas antes conceder-lhes o direito de laborarem em erro sossegados) o que está subjacente às três experiências religiosas evocados no livro é a certeza cega que conduz à rigidez e perseguição dos que não abraçam as suas ideias.
      O livro de Ana Cristina Silva está dividido em capítulos sucessivos, ora convocando o escritor enlutado, ora trazendo à liça a sua personagem, escrevendo uma carta final à filha de quem nada sabe há décadas, na esperança de que lhe chegue às mãos. A escrita é segura e clara, agarrando o leitor até ao final, ora na Lisboa dos nosso dias (com uma passagem por Istambul), ora na Amesterdão seiscentista. 
        Este livro conduziu-me à leitura de Éloge du polythéisme que trouxe há anos de Paris. O autor é o italiano Maurizio Bettini. Esta obra breve é escrita com a simplicidade daqueles que sabem muito e têm grande capacidade de exposição. Bettini analisa a raiz das religiões politeístas e a sua estrutura de abertura às demais crenças religiosas. Confronta esta perspectiva com a das religiões monoteístas assente na crença de que elas e só elas têm a verdade. A sua análise sobre a história da tolerância (incluindo raiz etimológica) é, a este propósito, elucidativa. 
       Vale sempre pena espreitar para lá do que nos mostram. O livro de Ana Cristina Silva, para além do mérito narrativo próprio, tem essa virtualidade de nos pôr a pensar sobre as muitas histórias que podemos encontrar na História.  


segunda-feira, 2 de julho de 2018

Isabel Castanheira, Una piccola storia d'amore



           A história é verdadeira e começa em Lisboa. É aí que Rafael Bordalo Pinheiro e Maria Visconti se conhecem. Ele é um artesão com mãos de anjo, caricaturista e crítico social corrosivo. Ela cantora e actriz de origem italiana que vem abrilhantar o Teatro da Trindade. Os dois conhecem-se e apaixonam-se. Um amor feliz a que apenas a morte da actriz põe fim. Mas também marcado pelo segredo uma vez que Bordalo Pinheiro era casado. É sobre este amor e sua influência na obra de Bordalo Pinheiro que se debruça esta obra emocionada mas rigorosa do ponto de vista histórico. É um livro breve em que à beleza da narração se junta o encanto das ilustrações e fotografias, onde se incluem fac-similes de cartas e reproduções de obras de Bordalo onde esta história de amor está presente de modo mais ou menos claro. Uma pequena jóia, que se lê rapidamente, mas não se apaga da memória.