segunda-feira, 9 de julho de 2018

Mary Shelley






Não me acontecia desde os tempos da faculdade: moi même e o filme sozinhos num cinema algures em Lisboa. Mas foi assim num fim de tarde não muito longínquo. Era dia de estreia de Mary Shelley e ao mesmo tempo Portugal ainda estava no Mundial. A conjugação e factores e o fim de tarde favoreceram-me. Ali fiquei eu no escurinho do cinema. Não com drops de anis, como canta Rita Lee, e muito longe do final feliz de que ela fala (podem ouvir a génese das minhas paráfrases aqui). 
O filme conta a história da criadora de Frankenstein. Confesso que não li o livro e nem sequer estava na minha lista de leituras. Mas depois de ver o filme saltou para lá quase de imediato. Mary era filha de Mary Wolstonecraft, livre pensadora e autora da obra clássica Reivindicação dos Direitos das Mulheres, falecida poucos dias depois do nascimento da filha. Mary cresceu com uma paixão por livros e histórias de fantasmas. A sua vontade de ser livre e fazer as suas próprias escolhas cresceu quando conheceu o poeta inglês Shelley, pelo qual se apaixonou. A atracção foi recíproca, mas não isenta dificuldades. Algumas criadas pelo mundo exterior e outras decorrentes de características pessoais e de vicissitudes com que o casal se deparou (como a morte da primeira filha, ainda bebé).
Frankenstein foi escrito na sequência de um repto de Lord Byron, com que o casal se relacionava. Mas foi muito mais do que uma distracção ou até de uma obra de ficção científica com intuitos meramente lúdicos. Mary, como se vê no filme, colocou muito de si na narrativa. O sofrimento, abandono e revolta que sentia foram corporizadas na sua personagem, o que não deixou o público inglês da época indiferente. Mas, mais do que uma história sobre uma escritora o filme é sobretudo a história de ser humano, uma mulher, que quis ser livre e viver de acordo com as suas escolhas. Algo de que a sociedade sempre teve medo, claro. E Mary, como tantos e tantas antes e depois dela, pagou o respectivo preço. 

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