sábado, 21 de julho de 2018

Uma história do desejo feminino,Carol Dyhouse



          Lembro-me de ler os policiais de Agatha Christie e não perceber o apelo amoroso da figura clássica do médico holandês, anafado e rico, mas pouco dado a impulsos afectivos para com a personagem feminina que, no final, o arrecadava como marido. A chave para este mistério encontrei-a agora ao ler este livro da historiadora inglesa Carol Dyhouse. É um trabalho de investigação e reflexão exaustivamente documentado, que nos conduz desde o século XIX até aos nosso dias. Entre xeques árabes, médicos ricos, Mr Darcy (absolutamente incontornável), almirantes e aviadores, a autora traz-nos até aos vampiros da saga Crepúsculo e ao Sr. Grey, o tal das cinquenta sombras. Este livro oferece-nos, assim, uma leitura sobre os modelos de masculinidade que a literatura, cinema e música têm oferecido às mulheres consumidoras de produção cultural popular. Os modelos são variados, mas têm linhas comuns. Por exemplo, o homem aparentemente duro e arrogante, mas que na verdade, apenas estava à procura da mulher certa para mostrar o seu interior suave e doce. Mas também sempre o homem rico, que vai permitir à mulher eleita todo um novo estilo de vida, com o qual ela, com poucos recursos económicos e nenhuma autonomia, apenas poderia sonhar. O que é tanto mais extraordinário quando pensamos nas muitas mulheres que a partir do século XIX lutavam para verem reconhecidos os seus direitos, trabalhavam e aventuravam-se pelo mundo. E nem todas eram ricas ou contavam com um protector influente, diga-se.
 A pergunta que me coloco é se esta produção cultural correspondia realmente ao que as mulheres desejavam ou antes àquilo que lhes permitiam que desejassem. Enquanto lemos as palavras lúcidas de Dyhouse, percebemos como o "modelo de fantasia" foi sempre limitado: homens brancos, claro (mesmo os árabes - os asiáticos e os africanos estavam foram de questão para heróis românticos - ou eram, na verdade, ocidentais ou morriam antes da narrativa terminar), felicidade doméstica (casa e filhos) e pouco ou nenhum espaço para a autonomia. Claro que houve sempre quem escapasse a este modelo simples (por algum motivo Jane Austen passou à história da literatura) e quem o fizesse em estilhaços sem dó, nem piedade (como uma outra inglesa, Jackie Collins, com as suas heroínas cruas e prontas a jogar de igual para igual). Mas o panorama geral da oferta cultural popular sempre foi muito conformista. Por todas as questões que coloca este livro e desafiante. E deixa-nos a pensar sobre o seu objecto de investigação: fantasias inconsequentes para enganar o cinzento do quotidiano ou logros perigosos conducentes ao conformismo feminino, indispensável à continuidade do patriarcado? A meu ver, um livro que nos deixa a fazer perguntas é o melhor tipo de livro que existe. 
          

Sem comentários:

Enviar um comentário