quarta-feira, 29 de agosto de 2018

Gail Honeyman, Eleanor Oliphant is completely fine



    Eleanor Oliphant é uma mulher na casa dos trinta anos. Vive só e apesar de trabalhar de forma regular numa empresa há vários anos não tem qualquer relação pessoal relevante. O seu comportamento, marcado por algumas idiossincrasias (a mais divertida das quais é a sua objectividade de apreciação de terceiros) e as cicatrizes que tem no rosto contribuem fortemente para esse isolamento. Eleanor esconde um passado de grande sofrimento que gradualmente vai sendo revelado. Mas não é isso que faz deste livro uma narrativa comovente. O que torna este livro uma leitura maravilhosa é o modo como a protagonista se liberta desse passado. Duas pessoas que encontra e que conseguem ver para além das aparências são a chave para o início desse processo. Através desses encontros Eleanor descobre-se como alguém que tem valor e é digna de estima. E são essas novas emoções que a conduzem a dias melhores. O livro está escrito de forma poética e apesar do sofrimento que desde o início da narrativa se adivinha na vida da protagonista, tem momentos divertidos. No final, é de facto uma leitura inspiradora e comovente. A diferença que um encontro pode fazer na vida de cada um de nós é algo que todos sabemos, mas de que às vezes nos esquecemos. É dessa matéria que se alimenta este livro. 

terça-feira, 28 de agosto de 2018

Manuela Gonzaga, Meu único, grande amor: casei-me!



       Lembro-me de ser miúda e ir com a minha mãe ao cabeleireiro. Enquanto ela arranjava o cabelo (uma expressão que sempre me pareceu enigmática) entretinha-me a ler o que por lá encontrava. Para além das clássicas revistas sociais o cabeleireiro era o único sítio onde podia ler as fotonovelas. O estilo até podia estar na moda, mas não em casa dos meus pais. Por isso, mergulhava com curiosidade e avidez naquelas histórias de amor e ódio que terminavam sempre de forma feliz - os mal-entendidos eram ultrapassados, os casais adivinhados no início do enredo confirmavam-se e os homens maus e as mulheres perversas eram castigados. Longe de serem datadas no tempo essas obras continuam a manter um público fiel. Basta recordar Uma história do desejo feminino de que falei aqui no blogue recentemente. 
       É nesse mundo que Manuela Gonzaga se inspira para o livro meu único, grande amor: casei-me! A narrativa está adaptada ao Portugal contemporâneo, com escritores de romances light, gente que aparece nas revistas e editores intelectuais que se rendem ao vil metal. É uma história divertida que se lê em poucas horas, embrulhando crítica social em comédia com umas pinceladas de amor (ingrediente sem o qual não há romance de polichinelo que se aguente). É também a demonstração de que um livro pode ser leve sem que isso signifique forçosamente que é de má qualidade. A verdade é que, dentro do género, gostei deste livro. A acção está bem construída, os diálogos eficazes e engraçados, as personagens são sólidas e realistas e não há quem não goste de um final feliz. Ou seja, é um livro que cumpre o prometido e, ainda que recorra a lugares comuns, não insulta a inteligência de quem o lê. 
      Já tinha curiosidade em ler alguma coisa de Manuela Gonzaga e esse foi o principal motivo que me levou a comprar esta obra. Não me desiludiu como escritora e espero poder ler outros livros seus. 

segunda-feira, 20 de agosto de 2018

Nuno Rogeiro, Menos que Humanos



     O tema não é estival, mas eu não acredito que o estado do mundo se compadece com a "silly season". Este trabalho de Nuno Rogeiro é uma enorme e bem fundamentada reportagem sobre as migrações. Em particular, sobre o problema das redes de tráfico de seres humanos, cuja actuação gera lucros de milhões de euros. E faz muitos milhares de vítimas. Entre fontes e documentos oficiais Nuno Rogeiro constrói um retrato objectivo e circunstanciado. Um ponto de partida para tomármos o pulso a um problema que, não sendo novo, mantém-se actual. E não vai desaparecer. As migrações não dão azo a respostas fáceis. Mas são uma questão que não podemos ignorar. 

domingo, 12 de agosto de 2018

Sayaka Murata, Convenience Store Woman



     Leio poucos autores japoneses, com grande pena minha. Este livro de Sayaka Murata veio adensar a vontade de aprofundar a leitura dos autores nipónicos. Sayaka Murata é uma das mais destacadas vozes da literatura asiática contemporânea. Neste livro, que li na versão inglesa, conta a história de Keiko, uma mulher japonesa de trinta e seis anos que não consegue integrar-se na sociedade nipónica actual. Por um lado, não é casada e não lhe são conhecidos relacionamentos amorosos. Por outro, tem uma actividade profissional tida por irrelevante, uma vez que é empregada de uma loja de conveniência há 18 anos. Para este fracasso não há explicação aparente. A protagonista cresceu com junto de uma família que sempre a amou e procurou proteger e educar. Keiko suprimiu a sua personalidade desde muito pequena, por ter percebido que a mesma não lhe permitia ter as reacções tidas por "normais" para aqueles que a rodeavam. Como forma de se proteger absorve as reacções "normalizadas" e procura passar o mais despercebida possível. É uma personagem sem sonhos e sem desejos de espécie alguma que encontra  a sua plenitude na loja de conveniência onde trabalha. Porém, esta vida pouco impressionante, mas que a satisfaz, vai ser posta em causa pelos poucos convívios sociais em que Keiko participa, impondo-lhe a necessidade de introduzir mudanças. Este é um dos primeiros pontos interessantes do  livro. As mudanças são procuradas, não por Keiko sentir qualquer vontade de mudar, mas antes por entender que a máscara de normalidade que enverga já não satisfaz quem a rodeia, precisa de encontrar um novo disfarce. Outro aspecto muito curioso do livro é o relato minucioso que a autora faz do quotidiano de uma loja de conveniência, mostrando as complexidades insuspeitas do seu funcionamento. O terceiro ponto que atrai no livro é o modo como são ilustradas as formas de pressão social, imunes à fragilidade de Keiko e à reserva natural que a apreciação da situação de terceiros deve merecer. Nessa descrição de crueldade mascarada de preocupação social está uma das chaves mestres da obra.
   Keiko conhece Shiraha, um homem que se sente excluído da sociedade. Ao contrário de Keiko, Shiraha sente-se ultrajado por não conseguir integrar a "normalidade", atribuindo essa injustiça aos mecanismos sociais que entende serem os mesmos que vigoraram na Idade da Pedra. Os dois entram numa relação estranha que, a meu ver, não pode ser entendida como uma relação amorosa ou sequer de amizade. Apesar de viverem juntos, a ligação que estabelecem é essencialmente uma espécie de contrato informal. Para Keiko é a oportunidade de forjar uma certa normalidade, criando nos que a rodeiam a ilusão de que tem um relacionamento amoroso. Para sua surpresa, compreende que não é relevante ter uma relação boa ou feliz. A sociedade (ou os que a representam na sua vida) dá-se por satisfeita com a existência de um homem na sua vida, qualquer que seja a qualidade deste. Ou seja, mesmo uma relação infeliz é melhor do que nenhuma relação. Para Shiraha é uma forma de se esconder e ter alguém que o alimenta, ainda que parcamente.
    Escrito de uma forma simples e directa este livro coloca várias questões. O que é a normalidade? Será que a sociedade contemporânea, apesar da sua aparente modernidade e respeito pelas opções de cada um, efectivamente dá aos seus membros a liberdade de viverem a sua vida do modo que desejam? Ou pelo contrário estamos constrangidos por modelos sociais? Pode a solidão ser de facto uma escolha ou um talento inato de um ser humano?
   Perguntas que o livro nos coloca apesar da grande distância que separa a realidade portuguesa da japonesa.  O final do livro não me surpreendeu em absoluto. Na escolha de Keiko podemos, de algum modo, encontrar uma metáfora das decisões que muitos de nós tomamos de forma mais ou menos consciente. E nisso não há mal algum: a decisão de Keiko, podendo parecer estranha para muitos de nós, é a que ela faz em liberdade. E a que a faz feliz.
    Pelo que sei o livro não está traduzido em português, mas quem sabe se não fará parte das novidades editoriais de Setembro? 
   
  

sábado, 4 de agosto de 2018




                                                            in O Meu Coração é Árabe, Adalberto Alves, pág. 143