segunda-feira, 17 de setembro de 2018

Ao sol de Tânger, Christine Mangan

Obra de estreia da autora narra a história da amizade entre duas mulheres, Alice e Lucy. As duas conhecem-se na universidade partilhando o quarto e em breve descobrindo vários pontos em comum, alguns de cunho dramático. Contudo, desde o início a personalidade de Lucy surge como mais forte o que, aliado, a uma pulsão erótica que percorre a sua relação, acaba por ter resultados trágicos. Os mesmos determinam a separação temporária das duas mulheres. É sob o sol de Tânger que tornam a encontrar-se. O que as uniu e as separou volta ao de cima com grande facilidade e rapidamente se percebe que os resultados não vão ser bons.
            Como muitos autores em obras iniciais Christine Mangan distribui a narrativa pelas duas protagonistas, em capítulos que se vão sucedendo alternados, ainda que surjam diálogos pontuais. O livro foi comparado ao trabalho de Patricia Highsmith (é uma das referências que surge na capa da edição portuguesa) o que não surpreende. Na verdade, à medida que ia avançando na acção veio-me à cabeça a figura de Tom Ripley e a sua relação com o milionário Dickie Greenfield. As parecenças entre os dois enredos são bastante evidentes, ainda que a narrativa de Mangan seja claramente autónoma e original. Aliás, confesso que só pus o livro de lado quando o terminei. O ambiente sufocante de Tânger no Verão (a recordar certas descrições de Camus), a estranheza sentida por Alice num país tão diverso daquele em que cresceu, bem como a própria duplicidade de Lucy no modo como se vai movendo tornam a leitura desta obra empolgante. Ainda assim, considerando que me pareceu que só a rejeição determinou uma mudança nos planos de Lucy quanto à amiga, alguns aspectos da narrativa são pouco claros (por exemplo, qual o motivo porque se apresentou na cidade imediatamente com um nome falso). Por outro lado, o marido de Alice, John, surge um pouco caricatural, com defeitos evidentes aos olhos de um observador comum e que dificilmente passariam sem reparo à mulher com quem casou antes de dar esse passo. Porém, também não pode esquecer-se que embora inteligente e sensível Alice estava fragilizada por diversos acontecimentos da sua vida e com uma sensação de abandono, o que pode explicar o seu casamento. Este surge sobretudo como uma fuga ao mundo conhecido e não tanto como fruto de uma grande paixão ou mesmo um desvario pontual. Acima de tudo, o livro surge como um estudo sobre a insídia que penetra no coração do ser humano, focando ainda os limites da lucidez e a fragilidade dos que padecem de algum tipo de problema de saúde mental. Sobretudo se pensarmos eu a acção decorre na segunda metade do século XX. O aspecto mais marcante (e aflitivo) é o final do livro. No entanto, fiquei com a esperança de que talvez possa surgir uma sequela, no sentido inverso da imaginada por Highsmith. Até lá, aproveitando o calor sufocante que ainda se faz sentir entre nós, uma visita a Tânger pela pena de Mangan não desilude os que gostam de thrillers psicológicos.