Uma
destas noites fui jantar com uma grande amiga e a sua sobrinha. Estávamos a falar sobre livros e o que ler e a sobrinha da minha amiga manifestou
entusiasmo pela leitura de A morte de
Ivan Ilitch e o desejo de ler mais Tólstoi. Vamos esclarecer: eu acho
muito, muito bem que se leia Tolstoi. Aliás, eu acho esplêndido que se leia
qualquer coisa e tudo. Se há uma área da minha vida em que dou cartas em
matéria de democracia é na leitura. Leiam o que quiserem, quando quiserem e
como quiserem. Mas, para surpresa das minhas interlocutoras, não partilho do
entusiasmo generalizado pelo velho russo. E preocupa-me que o cânone continue
direccionado para os grandes homens brancos e a sua mundividência. Tolstoi foi
uma das minhas grandes paixões. Recém-chegada à Universidade e a braços com a
minha dificuldade em conciliar a razão com os sentidos, quem melhor do que ele
para me conduzir? Quem melhor do que um homem carnal que aspirava o ascetismo
para me guiar aos mais elevados patamares da intelectualidade. Provavelmente, e
sem desprimor, haveria melhores escolhas. Mas o feliz privilegiado foi o nosso
Leão. Devorei as suas biografias, a Ana
Karenina, A morte de Ivan Ilitch, a Ressurreição. Claudiquei com a Sonata a
Kreutzer. Confesso que o meu feminismo me fez soar uma campainha de alarme. Tenho
horror a ciumentos, na vida real ou na ficção. Mas, ao final, acabamos por nos
reconciliar. Quando fui a Moscovo anos mais tarde, levava na agenda uma visita
à sua casa na cidade. E, a verdade, é que passeando pela capital russa estava sempre à espera de encontrar uma das personagens de Leão ou, quem sabe, o mestre em carne e osso.
Mas então, o que se passou?
Passaram-se vinte anos, muitos outros
livros e escritores e uma nova mundividência. E foi com toda esta bagagem que
entrei em Guerra e Paz e voltei a entrar em Ana
Karenina. E sai. Lamentavelmente, para mim, o nosso Leão não sobreviveu ao
teste do tempo. E isso resultou do facto de ter decidido aproveitar as suas
obras de ficção para de forma evidente aviltar as mulheres.
Veja-se
Ana Karenina. Já é estranho que uma
mulher culta, inteligente e sofisticada abandone toda sua vida, bem
confortável, diga-se, em prol de uma paixão pelo Conde Vronski. Certo que ele
ficava bem de farda, mas será isso suficiente? E não podia Ana Karenina ter
tido um caso – ou umas tarde divertidas – com Vronski sem comprometer a sua
vida? É coerente com a personagem o abandono de tudo – incluindo o filho amado
– pelo capitão? A meu ver, não é. Mas Tolstoi queria sobretudo alertar os
homens casados para o perigo de serem traídos (como em A sonata a kreutzer) e ao mesmo tempo deixar claro às mulheres qual
a consequência que o adultério lhes traria (afastamento social, miséria moral e
morte). Claro que Tolstoi tinha grande experiência em adultério, como a sua
mulher, Sofia, tristemente sabia. Mas, de modo algo estranho, em vez de se
flagelar a ele (ainda que por interposta personagem) decidiu castigar Ana
Karenina pelo crime de viver abertamente aquilo em que ele era useiro e vezeiro
a esconder. Não de modo muito eficaz, diga-se. Há relatos das fúrias da esposa quando, ao passear pela propriedade rural, identificava o nariz do marido no rostos dos filhos de várias camponesas.
E
Guerra e Paz? Tenho a vantagem de, ao
contrário de muita gente que gaba este calhamaço, efectivamente tê-lo lido. Detalhado
fresco histórico, sem dúvida. A vida dos salões em contraste com a dureza dos
campos militares e das batalhas. Os heróis e os cobardes. Os que partem para
sempre, com o sofrimento inerente aos projectos que nunca tomam forma. Tudo
isto em centenas de páginas escritas primorosamente (e by the way, copiadas à mão pela esposa, a mesma de que Tolstoi
reclamava de forma incessante). Nunca li o original russo, mas mesmo na
tradução portuguesa, é uma obra que impressiona. E depois chegamos às páginas
finais. Natasha e Maria são as personagens femininas principais. Cada uma com a
sua personalidade. Ambas unidas numa estranha (porque inesperada à luz da sua
evolução ficcional) subserviência total aos homens com quem casaram. Deixaram
de ser seres humanos para passarem a ser fêmeas parideiras fracas e incapazes
de entender o mundo de outra forma que não como o local onde a vontade dos
respectivos maridos é exercida. Uma fraude literária, na minha perspectiva.
Do que li deste escritos russo sobram essencialmente dois
livros, A ressurreição e A morte de Ivan Ilitch. O primeiro é o
testamento moral e político de Tolstoi. Se é certo que a obra tem essa
vertente, ao menos desta vez o escritor não atraiçoou a evolução dos seus
personagens em nome dos ideais do cristianismo que professava, uma corrente que
ganhou o nome de tolstoianismo. O segundo é um pequeno livro que narra a
história de um homem a braços com a morte e a prestar a si mesmo contas com o
que fez da vida. Este
pequeno livro é a prova imbatível do virtuosismo de forma e densidade de
alma de Tolstoi.
Não estou a dizer que não se deve
ler o Tolstoi. Mas sim que, mesmo quem não é académico ou especialista no tema,
deve sentir a liberdade de apreciar e criticar as suas obras. Uma das ditaduras do nosso tempo é o dever de admirar aquilo que todos admiram. Discordar não é pecado, nem crime. E pensar por nós próprios é um grande prazer, para mais a custo zero.


