segunda-feira, 29 de outubro de 2018

Para lá do cânone (I)


    
Uma destas noites fui jantar com uma grande amiga e a sua sobrinha. Estávamos a falar sobre livros e o que ler e a sobrinha da minha amiga manifestou entusiasmo pela leitura de A morte de Ivan Ilitch e o desejo de ler mais Tólstoi. Vamos esclarecer: eu acho muito, muito bem que se leia Tolstoi. Aliás, eu acho esplêndido que se leia qualquer coisa e tudo. Se há uma área da minha vida em que dou cartas em matéria de democracia é na leitura. Leiam o que quiserem, quando quiserem e como quiserem. Mas, para surpresa das minhas interlocutoras, não partilho do entusiasmo generalizado pelo velho russo. E preocupa-me que o cânone continue direccionado para os grandes homens brancos e a sua mundividência. Tolstoi foi uma das minhas grandes paixões. Recém-chegada à Universidade e a braços com a minha dificuldade em conciliar a razão com os sentidos, quem melhor do que ele para me conduzir? Quem melhor do que um homem carnal que aspirava o ascetismo para me guiar aos mais elevados patamares da intelectualidade. Provavelmente, e sem desprimor, haveria melhores escolhas. Mas o feliz privilegiado foi o nosso Leão. Devorei as suas biografias, a Ana Karenina, A morte de Ivan Ilitch, a Ressurreição. Claudiquei com a Sonata a Kreutzer. Confesso que o meu feminismo me fez soar uma campainha de alarme. Tenho horror a ciumentos, na vida real ou na ficção. Mas, ao final, acabamos por nos reconciliar. Quando fui a Moscovo anos mais tarde, levava na agenda uma visita à sua casa na cidade. E, a verdade, é que passeando pela capital russa estava sempre à espera de encontrar uma das personagens de Leão ou, quem sabe, o mestre em carne e osso. 

       Mas então, o que se passou?
      Passaram-se vinte anos, muitos outros livros e escritores e uma nova mundividência. E foi com toda esta bagagem que entrei em Guerra e Paz e voltei a entrar em Ana Karenina. E sai. Lamentavelmente, para mim, o nosso Leão não sobreviveu ao teste do tempo. E isso resultou do facto de ter decidido aproveitar as suas obras de ficção para de forma evidente aviltar as mulheres.
Veja-se Ana Karenina. Já é estranho que uma mulher culta, inteligente e sofisticada abandone toda sua vida, bem confortável, diga-se, em prol de uma paixão pelo Conde Vronski. Certo que ele ficava bem de farda, mas será isso suficiente? E não podia Ana Karenina ter tido um caso – ou umas tarde divertidas – com Vronski sem comprometer a sua vida? É coerente com a personagem o abandono de tudo – incluindo o filho amado – pelo capitão? A meu ver, não é. Mas Tolstoi queria sobretudo alertar os homens casados para o perigo de serem traídos (como em A sonata a kreutzer) e ao mesmo tempo deixar claro às mulheres qual a consequência que o adultério lhes traria (afastamento social, miséria moral e morte). Claro que Tolstoi tinha grande experiência em adultério, como a sua mulher, Sofia, tristemente sabia. Mas, de modo algo estranho, em vez de se flagelar a ele (ainda que por interposta personagem) decidiu castigar Ana Karenina pelo crime de viver abertamente aquilo em que ele era useiro e vezeiro a esconder. Não de modo muito eficaz, diga-se. Há relatos das fúrias da esposa quando, ao passear pela propriedade rural, identificava o nariz do marido no rostos dos filhos de várias camponesas.         
E Guerra e Paz? Tenho a vantagem de, ao contrário de muita gente que gaba este calhamaço, efectivamente tê-lo lido. Detalhado fresco histórico, sem dúvida. A vida dos salões em contraste com a dureza dos campos militares e das batalhas. Os heróis e os cobardes. Os que partem para sempre, com o sofrimento inerente aos projectos que nunca tomam forma. Tudo isto em centenas de páginas escritas primorosamente (e by the way, copiadas à mão pela esposa, a mesma de que Tolstoi reclamava de forma incessante). Nunca li o original russo, mas mesmo na tradução portuguesa, é uma obra que impressiona. E depois chegamos às páginas finais. Natasha e Maria são as personagens femininas principais. Cada uma com a sua personalidade. Ambas unidas numa estranha (porque inesperada à luz da sua evolução ficcional) subserviência total aos homens com quem casaram. Deixaram de ser seres humanos para passarem a ser fêmeas parideiras fracas e incapazes de entender o mundo de outra forma que não como o local onde a vontade dos respectivos maridos é exercida. Uma fraude literária, na minha perspectiva.
 Do que li deste escritos russo sobram essencialmente dois livros, A ressurreição e A morte de Ivan Ilitch. O primeiro é o testamento moral e político de Tolstoi. Se é certo que a obra tem essa vertente, ao menos desta vez o escritor não atraiçoou a evolução dos seus personagens em nome dos ideais do cristianismo que professava, uma corrente que ganhou o nome de tolstoianismo. O segundo é um pequeno livro que narra a história de um homem a braços com a morte e a prestar a si mesmo contas com o que fez da vida. Este pequeno livro é a prova imbatível do virtuosismo de forma e densidade de alma de Tolstoi. 
      Não estou a dizer que não se deve ler o Tolstoi. Mas sim que, mesmo quem não é académico ou especialista no tema, deve sentir a liberdade de apreciar e criticar as suas obras. Uma das ditaduras do nosso tempo é o dever de admirar aquilo que todos admiram. Discordar não é pecado, nem crime. E pensar por nós próprios é um grande prazer, para mais a custo zero. 

segunda-feira, 22 de outubro de 2018

Leïla Slimani



O fim-de-semana acabou por ser algo negro em termos literários. Isto porque na sexta-feira comecei a ler Canção Doce, o segundo romance da autora franco- marroquina Leïla Slimani. De leitura compulsiva (terminei-o na madrugada de sábado) narra a história de um crime. Uma ama mata duas crianças pequenas que tem a seu cargo sem que haja uma explicação para esse acto hediondo. Numa das entrevistas que deu, a escritora recorda que o papel do romancista não é explicar mas contar a história. É verdade, cabe a quem lê interpretar e encontrar um sentido à narração ou reconciliar-se com a ideia de que há coisas na vida para as quais aquele não existe.
A história de Louise, a ama, é uma história de solidão, de ausência de referências afectivas por pobres que sejam. É a história de uma mulher que trabalha, esforça-se, procura cuidar e pouco ou nada recebe em troca. Através dela, Slimani mostra-nos de forma discreta, mas incisiva, a vida nos subúrbios, o viver a esticar um ordenado pequeno, o ser tomada como certa por patrões que, embora queiram ser impecáveis, desejam ter uma vida mais fácil. E, já se sabe, o caminho mais fácil para facilitar uma vida, passa quase sempre por fazer acrescer cargo adicional à de outra pessoa. Louise poderia ser descrita como um monstro, tentação que tantas vezes nos assola quando lemos a descrição de um crime hediondo. Imaginamos que quem praticou aquele crime, não é, não pode ser um ser humano “normal”, igual a nós. Mas como este romance nos mostra, as coisas não são sempre assim. A narrativa começa com a morte das duas crianças. Depois avançamos na história do casal e dos seus dois filhos e também na de Louise, bem como no relato do que foi o seu encontro. A escrita é segura, detalhada, transporta-nos para o lar confortável que Louise criou para os seus patrões e oferece-nos um contraste brutal com o que são as suas condições de vida (material e afectiva) fora daquele núcleo familiar que não é seu.  
A mesma escrita serve o primeiro romance de Slimani No jardim do ogre, que comprei ontem de manhã, incapaz de resistir ao desejo de continuar a acompanhar este universo tão negro, mas tão humano. Adéle é uma mulher bela, que trabalha num jornal em Paris, vivendo num apartamento elegante com o marido (médico) e o pequeno filho de ambos. A sua existência confortável e elegante poderia parecer perfeita a muitos. Mas não é. Por um lado, porque vive um casamento totalmente desprovido de intimidade. Por outro, porque não encontra na maternidade qualquer tipo de satisfação ou alegria. Mas acima de tudo, porque Adéle sofre de uma compulsão sexual. E este traço é muito importante. Adéle não pode ser confundida com a figura de uma mulher que gosta de sexo ou de aventuras extraconjugais. Pelo contrário, desde o início da narrativa percebemos que tem com a actividade sexual uma relação de sofrimento, vivendo situações de forma aditiva, com o objectivo de preencher um vazio existencial. Mais uma vez, as causas deste sofrimento não são claramente narradas. Mas estão lá. Como Louise, Adéle sente-se irremediavelmente só, sufocada na vida que lhe coube viver. Como Louise, os que com ela convivem diariamente não conseguem ver quem se esconde sob a aparência de pessoa “normal”. Como Louise, deixa-se arrastar por um impulso de destruição, não dos outros, como a ama de Canção Doce, mas de si própria. A leitura de No jardim do ogre é tão ou mais perturbadora do que a de Canção Doce. Pela crueza das cenas de sexo, pelo zelo auto-punitivo da protagonista, pela ausência de momentos de luz, ainda que ténue. Adéle é comparada por alguns a Madame Bovary. Não concordo. É verdade que as duas personagens estão presas em vidas que não desejam e de que não conseguem libertar-se (por motivos distintos). Mas onde Bovary é movida pela imaginação, Adéle é consumida pelo desespero. Bovary é desiludida pelos homens em quem deposita confiança. Adéle não tem nenhuma expectativa e, com uma ou outra excepção, nem guarda qualquer recordação dos homens com quem esteve e cuja identidade em nada lhe interessa.
Leïla Slimani tornou-se com estes dois livros, em particular Canção Doce (que recebeu o Prémio Gongourt) um nome grande das letras francesas. Em Portugal os seus livros são publicados pela Alfaguara. Não são obras leves (embora paradoxalmente sejam de leitura rápida). Mas, por mim, valem o tempo de leitura pois, recorrendo embora a figuras extremas, põem o dedo em feridas bem comuns na sociedade contemporânea.