sexta-feira, 30 de novembro de 2018

Habitar o vazio, Wang Wei





    
  Esqueçam o frio lá fora, as compras de Natal, as filas no supermercado ou as multidões no centro comercial. Este é um pequeno livro que nos leva para longe dessas coisas triviais. 
Wang Wei foi poeta na China do século XVIII. Filho de um alto funcionário da corte e de uma mãe budista a sua vida parece ter sido um confronto entre duas realidades muito distintas. Por um lado, a sua própria carreira na administração, por outro o apelo a uma forma de vida diversa  próxima da natureza como modo de atingir a sua verdadeira essência. Entre actos da vida mundana Wang Wei passou um período nas montanhas. Os poemas que agora nos chegam são por certo fruto desse tempo. Distamos séculos deste poeta e pela parte que me toca estou longe desse contacto com natureza. E, todavia, ao ler estes poemas consigo ouvir o som da água junto dos seixos brancos e sentir o silêncio a perpassar as copas das árvores. E vejo-me, ainda que por breves instantes aqui:

        Todos os dias saímos para colher lótus
        A ilhota é comprida, regressamos já ao crepúsculo
        Manejamos a vara com cuidado para não salpicar
        Os vestidos vermelhos dos lótus.

A tradução e notas desta edição da Licorne são de Manuel Silva-Terra.

quarta-feira, 28 de novembro de 2018

As Barbas do Profeta, Eduardo Mendonza



Aos que escrevem é habitual perguntar pelos livros mais marcantes das suas vidas. O escritor espanhol Eduardo Mendonza depois de matutar na pergunta concluiu que a sua primeira grande influência foram as histórias do Antigo Testamento que ouvia na escola quando era miúdo. Este livro é o produto dessa conclusão. São histórias que todos conhecemos, ou das aulas de religião e moral ou das tardes de cinema de fim-de-semana, pois muitas mereceram adaptações cinematográficas. 
Sansão e Dalila, Noé, a Torre de Babel, Salomão, Jonas, David e Golias são algumas das figuras recordadas. A escrita é simples e directa, uma revisitação do passado em que Mendonza aqui e ali nos indica de que forma essas velhas histórias estão presentes na produção cultural posterior. Alguns casos são evidentes (como sucede com as diferentes representações pictóricas da Torre de Babel), outros geradores de maior surpresa (como a ligação entre Sansão e o King Kong). Em suma, um livro rigoroso na sua escrita, ainda que sem pretensões de profundidade, que é uma bela forma de recordar algumas histórias com as quais crescemos e um pretexto para ler ou reler o Antigo Testamento.



sexta-feira, 23 de novembro de 2018

Bel Canto, Ann Patchett



Apesar da popularidade de que goza no seu país de origem (EUA) Ann Patchett é pouco conhecida entre nós. Bel Canto é uma das suas mais celebradas obras agora passada ao cinema e que está em exibição em Portugal. O livro há muito que foi editado no nosso país e surge agora numa nova edição. Livro e filme são muito próximos, ainda que este último apresente uma leitura mais simplista dos acontecimentos e desenlace.
            A acção decorre num país sul-americano marcado pela pobreza e injustiça social. Um grupo de rebeldes irrompe numa recepção particular pretendendo sequestrar o presidente do país. Mas este acabou por não comparecer, pelo que os rebeldes se vêm sem saída, presos numa casa com os seus reféns. Entre eles, uma conhecida cantora de ópera norte-americana, cuja voz encanta todos os presentes. À medida que os dias vão passando as barreiras entre os reféns e os sequestradores vão se esbatendo. A maior parte destes são jovens adolescentes pobres, que não sabem ler e que não têm qualquer preparação para o acto em que estão a participar. Pode dizer-se que o livro ilustra a síndrome de Estocolmo ou pode dizer- que a passagem dos dias faz com que os lugares comuns (refém rico e desinteressado e rebelde sanguinário) se esbatam. Mas a gradual proximidade vivida por todos, com atracções e afinidades a revelarem-se como é habitual no ser humano, não deixa o espectador esquecer que aquele episódio tem de ter um desenlace. E só o espectador irrealista pode esperar que haja espaço para um final feliz. Ainda assim, confesso que tendo lido o livro há vários anos tinha a secreta esperança de que o final pudesse ser um pouquinho diferente.
            Mas o filme, como o livro, é implacável na mensagem que deixa a quem o vê: a inutilidade de visões maniqueístas, o vazio dos media e o desespero dos que não têm voz. E a perenidade do amor.
           O filme em si mesmo não pareceu excepcional, apesar da excelente interpretação de Julianne Moore na pele de cantora de ópera. Acima de tudo parece-me que é um bom pretexto para ler ou reler o livro e conhecer ou revisitar Rusalka uma das mais belas óperas que conheço. 

quinta-feira, 22 de novembro de 2018

Junko Takahashi, O Método Japonês para Viver 100 anos



Guilty plesures literários? Os meus são seguramente os livros de auto-ajuda e psicologia positiva. São leituras leves e que muitas vezes nos dão pistas para melhorar a nossa vida. Na verdade, estamos tão assoberbados pelos problemas do dia-a-dia que muitas vezes não paramos para pensar no modo como vivemos: o que comemos, como ocupamos o tempo e quem está ao nosso lado. E tantas vezes, comemos mal, dedicamos pouco tempo àquilo e àqueles que verdadeiramente interessam, cumprimos o dever e esquecemos o prazer e temos ao nosso lado pessoas que não nos fazem bem. No mercado destes livros, como em todos os outros, tudo depende da qualidade da obra. Não tenho grande receptividade para livros "esotéricos", mas aprecio livros práticos. Não quer dizer que vá fazer tudo o que lá está indicado, mas confesso que já segui com proveito algumas ideias. Este livro recolhe receitas de centenários japoneses. Entra actividade física moderada e uma rede de amigos que se mantém ao longo dos tempos, retenho com particular entusiasmo a receita de longevidade que inclui vinho tinto e chocolate negro. Dê por onde der, sai-se sempre a ganhar...

segunda-feira, 19 de novembro de 2018

Porque gostamos de cães, comemos porcos e vestimos vacas, Melanie Joy




Há cerca de dois anos deixei de comer carne. Foi uma decisão aparentemente repentina, mas que se mantém inabalável. Carne, peixe, lacticínios e mel são coisas que deixei de comer. Falta-me largar os ovos, o que, creio, irá acontecer em breve. Na base da minha decisão está o reconhecimento dos animais não racionais como seres sencientes e a verificação do modo como a indústria agro-pecuária os trata.
 Sir Paul Maccartney disse um dia que se os matadouros tivessem paredes de vidro todos seríamos vegetarianos. E creio que tem razão. Como os matadouros por regra estão situados longe das cidades, fora dos olhares humanos enganados por expressões como “vacas felizes” e “frangos do campo” resta procurar a verdade. Ou melhor, deixar que ela nos entre pelos olhos adentro. E não é preciso grande esforço de investigação.
O livro de Melanie Joy é simples na escrita e claro na informação. Passa em revista as bases da crença de que é natural e mesmo necessário aos ser humano comer carne, esclarece o modo como os animais são tratados, quer nas explorações pecuárias (e a palavra “exploração” não é desajustada àquela realidade), quer nos matadouros e revela dados interessantes sobre as capacidades daqueles. Por exemplo, dos porcos (tão ou mais inteligentes do que os cães), das galinhas e das vacas. O livro aborda ainda um tema que seria interessante ver desenvolvido: o das consequências para os trabalhadores daquela indústria de estarem expostos e exercerem violência sobre animais que, com toda a evidência, sentem mal-estar por aquilo a que são expostos. Não por acaso, os trabalhos e matadouros são por regra levados a cabo por emigrantes, com frequência ilegais, que não têm capacidade de escolha. A autora escreve sobre a realidade norte-americana. Mas creio que uma reportagem sobre o tema em Portugal nos levaria a concluir não existirem muitos trabalhadores de matadouro felizes com o seu dia de trabalho. Joy fala ainda sobre o modo como cada um de nós pode agir face a esta realidade. A redução de consumo de produtos animais é já uma ajuda, mas há outras vias.
Muitas pessoas dizem-me que preferem não pensar no modo como a carne lhes chega ao prato. Por mim, tenho um gosto pela verdade. Acho que vale sempre a pena afastar o espesso véu da ignorância que a sociedade pretende fazer correr à nossa volta e ver o que temos realmente à nossa frente. Este livro é um bom ponto de partida.


sexta-feira, 16 de novembro de 2018

quinta-feira, 15 de novembro de 2018

A chegada das trevas, Catherine Nixey

A história é escrita pelos vencedores e só a muito esforço é possível ultrapassar a versão oficial e começar a ter vislumbres da verdade. Catherine Nixey é historiadora e jornalista. Nesta obra propõe-se divulgar factos menos conhecidos da ascensão do Cristianismo. O livro toma partido e faz mesmo uso da ironia para criticar alguns dos típicos mitos em que se alavanca a narrativa tradicional da história do cristianismo. Nixey percorre fontes clássicas (e nesse aspecto, pareceu-me ser rigorosa) para recordar a queda da civilização romana, as lutas entre cristãos e os que pretendiam manter o modo de vida anterior, as motivações de muitos dos que professaram o cristianismo e a crueldade de alguns dos seus actos. Diga-se que esta tese não é totalmente inovadora. Quando abandonamos as descrições que nos são dadas na catequese e começamos a ler sobre história e, em particular, a história do cristianismo, surgem logo perplexidades. Há anos atrás li As Memórias de Pôncio Pilatos de Anne Bernet (edições Lyon), uma obra que me fez repensar a figura deste procurador romano simplisticamente visto como um dos maus da fita.
Claro que a romantização do passado não se limita ao relato das circunstâncias que proporcionaram a ascensão do cristianismo. Basta pensar na figura de Hipátia de Alexandria. Filósofa, astrónoma e matemática da antiga cidade egípcia, Hipátia tem sido recordada pela sua beleza e morte trágica às mãos (de quem, adivinhem?) dos fanáticos cristãos. Sobre Hipátia o estudo homónimo de Maria Dzielska (publicado pela Relógio d’Água) dá-nos a dimensão do que se sabe sobre ela e também do que apenas se pode imaginar. Dzielka debruça-se sobre as circunstâncias da sua morte.

O tema é recuperado por Catherine Nixey, precisamente para pôr em causa a actuação dos cristãos (muito pouco piedosa para com os pagãos) e, em particular, do bispo da cidade, hoje São Cirilo. Aliás, o percurso de algumas figuras até a santidade não deixa de ser curioso. Basta pensar em Santo Agostinho, pecador impenitente durante grande parte da sua vida, Santa Irene ou mesmo São Paulo até passar pela estrada de Damasco.
Tudo isto para dizer que é bom podermos conhecer os outros lados da história e questionarmos a versão que sempre nos foi ensinada sobre certos acontecimentos. Eu, por exemplo, sempre tive a ideia de que tinham existido milhares de mártires cristãos, um pouco embalada pelo Quo Vadis de Henryk Sienkiewik. O livro do escritor polaco e o filme com o mesmo nome fazem parte do meu imaginário de infância. Por isso, foi com perplexidade que descobri que afinal não houve tantos mártires como eu pensava e que boa parte dos cristãos aspirava àquela condição, próxima do heróico.
O livro de Nixey não dispensa uma leitura crítica, claro. Tem a seu favor, como disse, estar muito bem documentado, com indicação de fontes. É de leitura compulsiva e dá-nos de facto uma visão nova de um momento (ou, melhor dito, uma sucessão de momentos) na História essencial para o mundo ocidental. Foi também o pretexto para recordar leituras anteriores e tentar por tudo em perspectiva. Neste Dia Mundial da Filosofia pareceu-me boa ideia falar aqui de alguns livros que, não sendo sobre essa matéria, são um elogio ao prazer de descobrir e pensar em liberdade. 

quarta-feira, 14 de novembro de 2018

Maria Teresa Horta (II)






                                                                                       in Estranhezas

segunda-feira, 12 de novembro de 2018

Crime no Expresso do Oriente em BD




Foi uma das novidades do Festival de Banda Desenhada da Amadora. É uma versão aos quadradinhos do clássico de Agatha Christie, Crime no Expresso do Oriente.

Uma das minhas mais gratas recordações de adolescência são as tardes passadas a ler os romances policiais de Agatha Christie. Tenho a colecção completa da Vampiro Gigante. Dois livros em cada volume pelo preço de 500$00. Isto sim, era um grande negócio. Tanto mais que os policiais de Christie não se esgotam numa primeira leitura ao contrário do que sucede com outras obras dentro do mesmo género literário. Morte no Nilo, Morte entre Ruínas, As quatro potências do mal e este Um crime no expresso do Oriente são livros a que tenho voltado uma e outra vez apesar de já saber quem foi morto e quem matou. Porquê reler, então? Porque estes livros são verdadeiros tratados sobre a natureza humana. Claro que no dia-a-dia não estamos rodeados de potenciais homicidas (pelo menos, espera-se isso), mas o que os livros desta escritora mostram é como todos somos mais parecidos do que gostaríamos. Como partilhamos emoções essenciais apesar das diferenças sociais e culturais. Como o ciúme pode levar a que o mais cerebral dos homens cometa um crime que pareceria impensável, como a mais fria das mulheres, na aparência, esconde sentimentos calorosos e está disposta a arriscar tudo por quem ama. Como o passado não desaparece antes ressurge no presente quando menos convém. E como o ódio pode atravessar décadas permanecendo incólume à sucessão dos anos.
Um crime no Expresso do Oriente narra a história de um homicídio durante uma viagem de comboio de longo curso. O percurso já era mítico e o livro de Agatha Christie emprestou-lhe popularidade acrescida. A obra é inspirada num caso real e a ideia para algumas das personagens surgiu à escritora durante o percurso que ela própria fez nesse comboio, ao encontro do seu segundo marido, Max Mallowan.
Na narrativa, apesar da elegância dos companheiros de viagem de Poirot, todos acabam mergulhados num clima de suspeita, após o comboio onde viajam ser palco de um crime violento que tem por vítima um criminoso sob quem impende a certeza de ter cometido o mais vil dos delitos. Dos seus actos resultou a destruição de uma família, viva nas recordações dos que a amaram. Mas nem por isso Hercule Poirot deixa de procurar o responsável pela sua morte. As celulazinhas cinzentas acabam por lhe fornecer a resposta e abrem-lhe a porta para um dilema ético. 
Aquando da publicação o policial mereceu elogios da crítica que realçou o modo a escritora conseguiu tornar plausível uma situação inverosímil. Quando li o livro pela primeira vez, foi esse também o aspecto que mais me surpreendeu. Mas hoje tantos anos passados sobre essa leitura há pontos que me fazem voltar a este livro e considerá-lo uma pequena grande obra de arte. Um deles é o modo como Christie compreendeu na perfeição que a vingança, o desejo de pagar o mal com o mal, é muito profunda na natureza humana. Um dos sinais da civilização é a passagem do sistema de vingança particular ou vindicta privada para a justiça pública. Os membros da comunidade abdicam do direito de retribuírem pelas suas próprias mãos o mal sofrido e entregam essa tarefa aos Tribunais que são imparciais e isentos na apreciação do litígio. O livro de Christie mostra-nos o que sucede quando os cidadãos não sentem que foi feita justiça. É esta que vão procurar pelas suas próprias mãos? Ou será antes vingança? E será esta admissível perante o mais hediondo dos crimes? A tensão gerada e a reacção de Poirot são pontos muito interessantes e que Agatha Christie conseguiu explorar. Quem lê é levado a perguntar-se que atitude tomaria se estivesse no lugar do detective belga. 
No mundo em que vivemos são recorrentes os discursos apelando às emoções mais básicas, explorando o sentimento de injustiça que muitos cidadãos sentem. Com ou sem razão. Certo é que o discurso totalitário vai ganhando terreno. Pode parecer estranho falar nisto no meio de umas linhas sobre um policial. Mas, a meu ver, quem tiver em conta a motivação do crime, expressa nas treze facadas sofridas pela vítima, vai perceber que este é um policial cujo sentido extravasa o do puro entretenimento.
Um outro aspecto do livro é que nos recorda a Síria como muito mais do que o palco de uma guerra. Aliás, os encantos do país são objecto de uma outra obra de Agatha Christie precisamente com o título Na Síria, publicado entre nós pela Tinta-da-China. Nele não há crimes, mas antes a memória e as experiências da escritora que aí acompanhou o marido, arqueólogo. É o retrato de um país que hoje vive dias de destruição, cuja longa história merece ser conhecida, enquanto se esperam melhores tempos.
Quanto ao Crime no Expresso do Oriente que serviu de mote a este texto, apenas resta dizer que  a versão em BD é altamente recomendável. Não só pelo enredo, como pela beleza das ilustrações. Ah, e este é apenas o primeiro número de uma colecção de histórias de Agatha Christie aos quadradinhos. A próxima vai ter como estrela a Miss Marple. A não perder, portanto!

quarta-feira, 7 de novembro de 2018

Maria Teresa Horta






                                                                                           

                                                                                           in Estranhezas

segunda-feira, 5 de novembro de 2018

A menina que queria salvar os livros, Klaus Hagerup e Lisa Aisato



O livro conta-nos a história de uma menina de 10 anos que adora ler. Através da sua amizade com a bibliotecária Sra Monsen descobre que os livros que não são requisitados têm o terrível destino de serem destruídos. O que fazer para os salvar e às pessoas que neles habitam?
Esta pequena história está maravilhosamente ilustrada. Além disso, qualquer leitor apaixonado se vai rever na pequena protagonista, ansiosa por resgatar tantos e tantos livros esquecidos nas prateleiras. É uma narrativa simples, com linguagem adequada ao público infantil (o que nem sempre sucede, pois já cheguei a ver uma história do Sherk para crianças onde se falava sobre cláusulas contratuais e rescisão). Mas se a linguagem é própria para o público alvo, os temas são densos e levam-nos a pensar. Sobre a memória, a destruição e a morte. É, pois, um excelente livro para crianças de todas as idades.

sexta-feira, 2 de novembro de 2018

Erotic Stories for Punjabi Widows, Balli Kaur Jaswal


Nikki, uma jovem anglo-indiana, procura o seu caminho na vida, longe das imposições familiares e sociais. Um pouco levada ao engano aceita dar aulas de escrita criativa a viúvas da comunidade indiana em Londres. Percebe na primeira aula que as suas alunas não sabem ler. Afinal, trata-se de um curso de alfabetização. Mas as viúvas têm outra ideia. Querem narrar histórias, eróticas, para adensar as dificuldades da professora, ela própria obrigada a pôr de lado os seus preconceitos.
Num primeiro momento, este livro pode parecer um romance leve, com um toque policial, daqueles que lemos e arrumamos na estante, sem pensar mais no assunto. Mas, pela qualidade da escrita e pelo momento histórico que vivemos, é muito mais do que isso.
O tema do livro é a liberdade, a coragem e direito de escolher. O respeito pelas diferentes formas de vida. E esse tema, considerando ameaças tão diversas como o recrudescimento das políticas ditatoriais, o desrespeito generalizado pelos outros, a fulanização do debate, escolhendo-se o ataque pessoal em detrimento da troca de argumentos, deve merecer toda a nossa atenção.
 O livro conduz-nos ao interior da comunidade indiana, a realidades como os casamentos arranjados e os chamados “crimes em nome da honra”, mas também ao passado e aspirações de cada uma das mulheres que integra o curso ministrado por Nikki. É narrado de forma clara e envolvente, dando-nos a conhecer os contos imaginados por cada uma das alunas. A narrativa alterna entre ele e o relato do quotidiano de cada uma daquelas mulheres. Do esforço que fazem para que a verdadeira matéria das suas aulas não seja conhecido na comunidade, em particular, de uma organização designada como Os Irmãos. Estes são um conjunto de jovens desempregados que ocupa o seu tempo vigiando a religiosidade e o comprometimento com as tradições dos membros da comunidade, em particular das mulheres. Ninguém lhes pediu que se dedicassem a tal tarefa. Foram eles que se auto-elegeram.
 A literatura, escrita ou oral, é um exercício de liberdade que nos vai dando coragem para agirmos no dia-a-dia. E é esse também o testemunho do livro. Gostei imenso de o ler e espero que venha a ter tradução portuguesa.