Foi
uma das novidades do Festival de Banda Desenhada da Amadora. É uma versão aos
quadradinhos do clássico de Agatha Christie, Crime no Expresso do Oriente.
Uma
das minhas mais gratas recordações de adolescência são as
tardes passadas a ler os romances policiais de Agatha Christie. Tenho a
colecção completa da Vampiro Gigante. Dois livros em cada volume pelo preço de
500$00. Isto sim, era um grande negócio. Tanto mais que os policiais de
Christie não se esgotam numa primeira leitura ao contrário do que sucede com
outras obras dentro do mesmo género literário. Morte no Nilo, Morte entre
Ruínas, As quatro potências do mal e este Um crime no expresso do Oriente são
livros a que tenho voltado uma e outra vez apesar de já saber quem foi morto e
quem matou. Porquê reler, então? Porque estes livros são verdadeiros tratados sobre
a natureza humana. Claro que no dia-a-dia não estamos rodeados de potenciais
homicidas (pelo menos, espera-se isso), mas o que os livros desta escritora
mostram é como todos somos mais parecidos do que gostaríamos. Como partilhamos
emoções essenciais apesar das diferenças sociais e culturais. Como o ciúme pode
levar a que o mais cerebral dos homens cometa um crime que pareceria
impensável, como a mais fria das mulheres, na aparência, esconde sentimentos
calorosos e está disposta a arriscar tudo por quem ama. Como o passado não
desaparece antes ressurge no presente quando menos convém. E como o ódio pode
atravessar décadas permanecendo incólume à sucessão dos anos.
Um
crime no Expresso do Oriente narra a história de um homicídio durante uma
viagem de comboio de longo curso. O percurso já era mítico e o livro de Agatha
Christie emprestou-lhe popularidade acrescida. A obra é inspirada num caso
real e a ideia para algumas das personagens surgiu à escritora durante o
percurso que ela própria fez nesse comboio, ao encontro do seu segundo marido,
Max Mallowan.
Na
narrativa, apesar da elegância dos companheiros de viagem de Poirot,
todos acabam mergulhados num clima de suspeita, após o comboio onde viajam ser
palco de um crime violento que tem por vítima um criminoso sob quem impende a
certeza de ter cometido o mais vil dos delitos. Dos seus actos resultou a
destruição de uma família, viva nas recordações dos que a amaram. Mas nem por isso Hercule Poirot deixa de procurar o responsável pela sua morte. As celulazinhas cinzentas acabam por lhe fornecer a resposta e abrem-lhe a porta para um dilema ético.
Aquando
da publicação o policial mereceu elogios da crítica que realçou o modo a
escritora conseguiu tornar plausível uma situação inverosímil. Quando li o livro
pela primeira vez, foi esse também o aspecto que mais me surpreendeu. Mas hoje
tantos anos passados sobre essa leitura há pontos que me fazem voltar
a este livro e considerá-lo uma pequena grande obra de arte. Um deles é o modo como Christie compreendeu na perfeição que a
vingança, o desejo de pagar o mal com o mal, é muito profunda na natureza
humana. Um dos sinais da civilização é a passagem do sistema de vingança particular ou vindicta
privada para a justiça pública. Os membros da comunidade abdicam do direito de
retribuírem pelas suas próprias mãos o mal sofrido e entregam essa tarefa aos
Tribunais que são imparciais e isentos na apreciação do litígio. O livro de
Christie mostra-nos o que sucede quando os cidadãos não sentem que foi feita
justiça. É esta que vão procurar pelas suas próprias mãos? Ou será antes vingança? E será esta admissível perante o mais hediondo dos crimes? A tensão gerada e a reacção de Poirot são pontos muito interessantes e que Agatha Christie conseguiu explorar. Quem lê é levado a perguntar-se que atitude tomaria se estivesse no lugar do detective belga.
No mundo em que vivemos são recorrentes os discursos apelando às emoções mais básicas, explorando o sentimento de injustiça que
muitos cidadãos sentem. Com ou sem razão. Certo é que o discurso totalitário
vai ganhando terreno. Pode parecer estranho falar nisto no meio de umas linhas
sobre um policial. Mas, a meu ver, quem tiver em conta a motivação do
crime, expressa nas treze facadas sofridas pela vítima, vai perceber que este é
um policial cujo sentido extravasa o do puro entretenimento.
Um
outro aspecto do livro é que nos recorda a Síria como muito mais do que o palco de uma guerra. Aliás, os encantos do país são objecto de uma outra obra
de Agatha Christie precisamente com o título Na Síria, publicado entre nós pela Tinta-da-China. Nele não há
crimes, mas antes a memória e as experiências da escritora que aí acompanhou o
marido, arqueólogo. É o retrato de um país que hoje vive dias de destruição,
cuja longa história merece ser conhecida, enquanto se esperam melhores tempos.
Quanto
ao Crime no Expresso do Oriente que serviu de mote a este texto, apenas resta dizer que a versão em BD é altamente recomendável. Não
só pelo enredo, como pela beleza das ilustrações. Ah, e este é apenas o
primeiro número de uma colecção de histórias de Agatha Christie aos
quadradinhos. A próxima vai ter como estrela a Miss Marple. A não perder,
portanto!