segunda-feira, 31 de dezembro de 2018

Antes de acabar o ano ...


Para fechar o ano no blogue recordo aqui cinco livros que me marcaram especialmente nestes doze meses. Todos eles são referidos aqui no blogue, mas, em tempo de balanço, apeteceu-me fazer aqui esta pequena retrospectiva. The heart wants what the heart wants. E esta máxima tem pleno enquadramento no coração de uma leitora.  
O primeiro é de Nuno Rogeiro, um estudo/reportagem sobre os migrantes. Chama-se Menos que Humanos e comprei-o em promoção. É um livro muito bem escrito, objectivo e que nos faz compreender um pouco melhor os fenómenos migratórios que sempre sucederam mas estão agora de novo na actualidade. E também nos permite perceber que podíamos ser nós a fugir do nosso país e a enfrentar a fuga e os seus perigos e incertezas em busca de um mundo melhor.
Walk Through Walls é outra leitura inesquecível. Para além do talento para a escrita, a vida de Abramovich é cheia de acontecimentos, o que torna este livro tudo menos enfadonho. Foi uma leitura que me ocupou numa altura em que estive doente e também por isso adquiriu um significado especial.
Num momento em que tanto se fala da ascensão dos movimentos nacionalistas e de extrema direita vale ainda mais a pena referir as Memórias de uma Falsificadora, de Margarida Tengarrinha. Escrito de forma despretensiosa e clara, é um livro que desmente os que afirmam que em Portugal não existiu fascismo. O que é saber que as autoridades do país se sentem à vontade para matar cidadãos que nada de mal fizeram em plena luz do dia e no centro de Lisboa? O que pode chamar-se a gente que tortura, exila e maltrata homens e mulheres que apenas pretendiam viver em liberdade? Este livro devia ser de leitura obrigatória nas escolas do nosso país.
Outra obra que me marcou especialmente foi Hunger de Roxane Gay. Creio que não tem tradução em Portugal, o que é pena. Foca temas tão importantes como o abuso sexual e suas consequências a longo prazo para as vítimas (um tema que é pouco ou nada tratado entre nós), o peso e imagem corporal e o controlo social do corpo. É escrito na primeira pessoa de forma frontal e aberta.
Por último, O Quarteto de Alexandria de Lawrence Durrell. É certo que em rigor são quatro livros e não um (ainda que haja uma edição em português que os congrega a todos num só volume). Mas não posso deixar de o referir nesta lista. Pela impressão que me causou e pela certeza de que voltarei às suas páginas.
Agora sim, podemos fechar o ano aqui no blogue. 
Obrigada a quem por aqui passa e votos de um Excelente Ano de 2019, com muitas coisas boas, dentro e fora dos livros. 




sábado, 29 de dezembro de 2018

O Quarteto de Alexandria

Não tenho o hábito de fazer planos de leitura. Vou lendo de acordo com a minha vontade e disposição. Para mim a leitura é um prazer e por isso acredito que o melhor critério para ler é ir ao sabor do gosto. Isso não significa que não tenha ambições de leitura, isto é, aqueles livros que gostava de ler. Porque me chamaram à atenção ou porque sempre ouvi falar deles e também desejo conhecê-los e formar uma opinião. Com frequência, o momento de os ler chega com naturalidade. Foi assim com muito do que li e reli de Marguerite Yourcenar ou de Gabriel Garcia Marquez. E com as obras mais conhecidas de Dostoiveski. Outras vezes, tenho, não direi forçado, mas preparado o encontro entre mim e o livro. Foi o caso de Guerra e Paz, de Leon Tolstoi.
No início deste ano formulei o propósito de ler O quarteto de Alexandria de Lawrence Durrell. Muita gente fala deste livro como tendo sido marcante e por isso decidi abalançar-me a esta tetralogia com cenário no Egipto.
Li, pois, com os intervalos que a vontade ditou Justine, Baltazar, Mountolive e Cléa, distribuindo as suas páginas pelas diversas localizações geográficas onde o ano me levou. Em casa ou no outro lado do mundo. No silêncio do meu quarto e na confusão das áreas internacionais de aeroportos, na tranquilidade dos espaços que conheço desde sempre e como lenitivo para a ansiedade que me acomete em cada viagem de avião.
Em todas estas horas e locais fui transportada para uma cidade no sul do Egipto em vésperas da II Guerra Mundial. E que Lawrence tenha conseguido esse milagre abstracção desta leitora e seu transporte no tempo e no espaço já diz muito dele como escritor. 
 O Quarteto é uma daquelas obras que não se apreende de uma só vez. Penso que voltarei a lê-lo (pelos menos, os três primeiros volumes), mas não sei quando.
Os nomes dos quatro livros são os de quatro das personagens cuja história é narrada. Todos se encontram em Alexandria uma cidade cosmopolita, onde Lawrence cria uma vasta galeria de figuras, cada uma das quais candidata a ser protagonista do seu próprio volume narrativo. A meu ver, neste livro, como na vida todos são protagonistas e isso é o que de mais admirável vejo na capacidade de escrita de Lawrence.
Os três primeiros volumes narram os mesmos factos sob prisma de cada personagem. Isto é, os relatos são contemporâneos entre si. O extraordinário é que à medida que vamos lendo cada livro são apresentados factos que dão novo sentido a episódios que já conhecíamos. O que parecia uma história de amor é, na verdade, uma espécie de embuste que cobre uma outra realidade que por sua vez também só se torna compreensível  quando lemos o que sobre ela pensam outras personagens.
Para mim, o volume mais interessante foi Mountolive. Por um lado, foi nele que percebi cabalmente a ligação entre Justine e Nessim. A personagem feminina surge no primeiro volume delineada como uma mulher sensual e adúltera. Mas quando percebi a natureza da ligação dela ao marido, fiquei a pensar que naquela situação, o corpo era secundário, um instrumento perante uma ligação muito mais forte, que é a dos ideais. As suas ligações a Darley e a Pursewarden pareceram-me meramente instrumentais. Por outro lado, aquele volume traduz o fim de uma ilusão para Mountolive. Pareceu-me extraordinária a forma como o escritor conseguiu, num só capítulo, misturar esse facto (pessoal) com a destruição de uma visão idílica da cidade, mostrando o lado mais sujo e vicioso dela. Essa tensão já estava presente nos outros volumes e aliás, perpassa toda a obra. Mas para mim, foi na aventura de Mountolive que ganhou contornos mais vivos.
Justine, Baltazar, Mountolive e Clea. Mas também Darley, Melissa, Pursewarden, Leila, Liza, Pombal e outros ainda que conseguimos imaginar, mas não definir em termos absolutos. Lawrence oferece-nos uma galeria de personagens que são simultaneamente virtuosos e pecadores, histórias de amor que escondem uma intriga política, interesseiros que são afinal idealistas, adúlteros de corpo mas talvez não de espírito. Tradições pagãs que se revelam ao lado de convicções religiosas fortes. Alegrias redentoras e desgostos que seguem com as personagens que não deixam por isso de viver e lutar. Como nos sucede na vida.
A cidade parece claustrofóbica quando seguimos a pena de Lawrence, sobretudo nos três primeiros volumes onde está quase sempre a acontecer alguma coisa. Imagino-a sempre em tons de preto e branco. Excepto no último volume, onde a sinto delinead em tons de azul e branco, esbatida ao longe. 

Uma pequena tristeza, uma cabala, um segredo que se revela apenas a alguns e que continua a ser desconhecido daqueles a quem mais interessaria. Os três primeiros livros parecem um teatro de sombras e só quando as personagens cavalgam pelo deserto que circunda a cidade parece ser-lhes possível (a elas e nós) respirar livremente. O último volume decorre já durante a II Guerra Mundial. E nele pela primeira vez, respira-se alguma felicidade. Mas também ela não é destinada a durar. Ou talvez venha a ser num outro tempo e espaço.
Na leitura de O Quarteto não encontrei uma história definitiva. O quarto volume corrobora isso mesmo. Justine e o seu marido, a criança (que perpassa toda a história e cuja existência encerra um mistėrio), Darley e Cléa, Pombal e outros ainda seguem ao nosso lado. Em Paris, nas ruas de Alexandria ou algures na Suiça. O que Durrell constrói é um imenso tabuleiro de xadrez. E quem o lê é convidado a jogar. O jogo é difícil, mas apaixonante.

sexta-feira, 28 de dezembro de 2018

A propósito do Natal, um regresso a Yourcenar




Na véspera de Natal dei por mim a reler um texto de Marguerite Yourcenar sobre esta época. Em Glosa de Natal (incluído em O tempo, esse grande escultor), Yourcenar escreve sobre a comercialização desta época em detrimento do enalterar dos valores que lhe estão realmente subjacentes: “(…) Trata-se de um nascimento, de um nascimento como todos deveriam ser, o de uma criança esperada, como amor e respeito, trazendo em si a esperança de um mundo melhor. Trata-se dos pobres: uma velha balada francesa canta Maria e José procurando timidamente em Belém uma hospedaria para as suas posses, sempre desprezados em favor de clientes mais ricos e reluzentes e por fim insultados por um patrão que “detesta a pobralhada”. (…) É a festa dos animais que participam no mistério sagrado desta noite, maravilhoso símbolo de que São Francisco e alguns outros santos sentiram a importância, mas que os cristãos comuns desprezam, não procurando neles inspiração”.
Perante o contraste entre estas palavras e o tempo que vivemos poderia ter-me sentido triste. Em vez disso, comecei a recordar a importância de Marguerite Yourcenar na minha vida, o que contribuiu decisivamente para a melhoria do meu estado de espírito.
Esta Marguerite surgiu na minha vida ao mesmo tempo que uma outra, a Duras. Para mim, onde esta última era emoção, carne, lágrimas e sangue, Yourcenar era intelecto, razão, lógica, precisão e certeza. As duas continuam a ser minhas companheiras, pois fazem parte do núcleo de autores que todos os anos revisito. Mas Yourcenar é especial. Nascida em Bruxelas no início do século XX, Marguerite cresceu ao lado do pai (a mãe faleceu pouco depois do parto) e teve nele um interlocutor privilegiado. Foi ele que lhe deu a conhecer os clássicos gregos, Shakespeare e obras de francesas, que a escritora considerou estruturais na sua vida (como as de Racine) e que ambos liam em voz alta. Foi o seu pai quem pagou a primeira edição de um livro seu e foi também ele que a apoiou no seu gosto pelas viagens e por conhecer o mundo.   
 Depois de ler A obra ao Negro e As Memórias de Adriano pela primeira vez, abalancei-me na leitura da biografia que Josyanne Savigneau dedicou a Yourcenar. Foi ali que descobri a paixão pelas peças de Lalique. Yourcenar comprou uma com o primeiro dinheiro que recebeu decorrente da sua actividade como escritora. Por mim, estando as peças de Lalique hoje bem mais caras, resta-me ir contemplá-las periodicamente ao Museu de Arte Antiga da Fundação Calouste Gulbenkian, admirando-lhes a leveza e delicadeza de elaboração. Tenho pouco objectos de desejo. Mas confesso que um pendente feito Lalique é algo que figura nessa lista. Foi também com Yourcenar que senti crescer em mim a vontade de conhecer o mundo, em particular a Grécia. Foi com ela que descobri Kavafis e Virgínia Woolf. Foi também nas suas páginas que encontrei um dos meus heróis de sempre, Zenão, o protagonista de A obra ao negro. O que é a escuridão senão a luz sobre a qual ainda não ousámos debruçar-nos?
As principais obras de Yourcenar são A obra ao negro e As memórias de Adriano (sobre as quais já escrevi aqui no blogue, após uma releitura). Mas há outras que merecem ser lidas. Desde logo, Os Contos Orientais. Yourcenar foi uma viajante apaixonada e recolheu inspiração para estes contos nas suas viagens à Ásia. E também uma obra que li uma vez apenas e nunca esqueci, Alexis ou o Tratado do vão combate. “É quando abandonamos os princípios que convém não esquecer os escrúpulos” é uma das frases de eleição que guia a minha vida e que procuro honrar. Depois, há os seus volumes autobiográficos, em particular O quê, a Eternidade e Os Arquivos do Norte. Mas também as colectâneas de crónicas e estudos que foi escrevendo. Para além de O tempo esse grande escultor, Uma volta pela prisão (relato de viagens, sendo o título uma frase de Zenão) é uma das obras a que sempre volto. Ou os trabalhos de juventude, como Golpe de Misericórdia ou Denário de Sonho. E a enorme (em extensão e conteúdo) entrevista que concedeu a Mathieu Galey, De Olhos Abertos (também já referida aqui no blogue).
Há autores que são importantes num momento da nossa vida e depois deixam de o ser. Sucedeu-me isso com Tolstoi. Há outros de cuja escrita gostamos mas que não apreciamos como pessoas. É o caso da autora de As Brumas de Avalon, considerando o que se descobriu sobre ela após a sua morte. 
Marguerite Yourcenar não me dá esses desgostos. Não lhe são conhecidos segredos obscuros. Nas suas páginas encontro a riqueza de sempre. Na sua vida vejo alguém com qualidades e defeitos, que cumpriu o seu projecto de vida, mas não se escondeu nele, mantendo-se curiosa e actuante no mundo.  Volto sempre a ela, pois, com renovado encanto e alívio. 

sábado, 22 de dezembro de 2018

Boas Festas









        Uma música de Natal a que cheguei através de um livro. Nas sua memórias Elisabeth Vigée Le Brun fala sobre o encanto que foi ouvir o coro na Basílica de São Pedro em Roma no dia de Natal a cantar esta peça de Gregório Allegri. Como se pode ler na nota de rodapé da tradutora era um prazer exclusivo a vários níveis. A peça só era tocada no Natal e apenas naquela igreja de Roma. A partitura de Allegri era secreta e ninguém sabia como tocar a música. Até ao dia em que na audiência estava um jovem de catorze anos que a conseguiu perceber e reproduzi-la em casa. Daí, para o mundo. O nome do jovem rebelde? Wolfang Amadeus Mozart. 

    Feliz Natal a todos! Que renasçamos com coragem e garra para construir um mundo melhor. 

quinta-feira, 20 de dezembro de 2018

O burro de ouro, Apuleio


   



     Diz-se que depois dos gregos não há nada de novo debaixo dos céus. De vez em quando sou tentada a concordar. Vivemos um tempo em que a capacidade dos animais sentirem está a transformar o modo como os vemos. Há quem critique esta tendência classificando-a como um antropomorfismo deslocado e há mesmo quem afirme que é um sinal de decadência da nossa civilização. Sinceramente, não percebo este último argumento. Mas sei que a atribuição de emoções e mesmo pensamentos aos animais não é coisa nova no mundo dos livros. Em miúda, fartei-me de chorar com um conto de Miguel Torga sobre um cão agonizante (na colectânea Os Bichos, se não me falha a memória) e vibrei com As memórias de um burro da Condessa de Ségur. Já mais recentemente diverti-me com as aventuras de Bob, o gato cor-de-laranja que encontrou o seu humano nas ruas de Londres e o resgatou da solidão.
O Burro de Ouro é também uma leitura de criança. Li pela primeira vez este livro quando tinha 12 ou 13 anos numa edição de bolso que trouxe de um hipermercado (no tempo em que começaram a vender livros para escândalo dos bens pensantes). Na altura adorei as aventuras de Lúcio, um jovem imprudente que uma feiticeira transforma em burro. É nesta forma que vai passeando pela Grécia, vivendo aventuras e conhecendo novos donos muito diferentes no carácter e na forma como o tratam. Sempre à procura do antídoto para o feitiço que lhe foi lançado.
A nova edição do livro entretanto lançada é mais cuidada e completa. O encanto da narrativa mantém-se. O que Apuleio conseguiu (não sei se propositadamente ou não) foi um exercício de empatia para com os animais, neste caso, os burros. Desconheço se os animais pensam (embora já tenha visto estudos que demonstram que os porcos, por exemplo, têm a mesma capacidade intelectual do que os cães). Mas se pensam ou não, não é mais importante. O que importa é que sentem. Como Lúcio, o protagonista desta história clássica, testemunha em primeira mão. 
        

quarta-feira, 19 de dezembro de 2018

Os livros por ler, esse tesouro




A minha actividade favorita no mundo inteiro é ler. Tem sido desde os quatro anos de idade, altura em que aprendi a ler e nunca mais parei. Mais ainda do que viajar (o transporte em si, sobretudo se for de avião, gera-me algum receio) ler é o modo como mais gosto de ocupar o tempo e as livrarias a única loja de que saio sempre com alguma coisa. Por esse motivo, e mesmo conseguindo ler vários livros em simultâneo, tenho sempre imensa coisa para ler. Já adoptei diversas técnicas. Por exemplo, ando sempre com livros (nem que seja dos pequenos, edição de bolso, na mala) e deixei de ler os livros que não me cativam até ao fim. Mas, apesar disso, sei que o número de livros para ler será sempre infinitamente superior aos que consigo e poderei ler, mesmo que tenha uma vida longa, como gostaria.
De vez em quando surge a crítica ao número de livros comprados “mas tens tanta coisa para ler, para quê mais um?...” Bom, aqui está um artigo que fará as delícias dos que já ouviram esse reparo (e são muitos). Num artigo publicado na Brain Pickings Maria Popova (podem ler aqui) fala sobre o que Nassim Nicholas Taleb chama “a anti-biblioteca”. 
O que a compõe? Todos os livros que não lemos. Taleb utiliza o exemplo de Umberto Eco para nos mostrar como a nossa biblioteca pessoal deve incluir tantos livros não lidos quantos aqueles que a nossa situação financeira nos permitir. É um exercício de modéstia (recordar o que não sabemos e não apenas o que já aprendemos) e de aspiração (sempre na esperança de conseguirmos ler mais e mais). Pela minha parte fiquei descansada quanto às minhas práticas de Tsundoko exemplificadas pela fotografia que ilustra este artigo, tirada na minha biblioteca de livros por ler. Afinal, se estou no mesmo grupo que atletas intelectuais da dimensão de Eco e Taleb estou seguramente bem acompanhada.

terça-feira, 18 de dezembro de 2018

Lynn Hunt, Inventing Human Rights - A History




   Este livro é um feliz exemplo de um trabalho simultaneamente instrutivo e de leitura agradável. Lynn Hunt, historiadora norte-americana e professora de História em diversas universidade, como a da Califórnia, debruça-se sobre o relevo da evolução sócio-cultural no emergir dos direitos humanos tal como hoje os conhecemos, solidificados na Declaração de Direitos Humanos de 1948. Neste quadro, escreve sobre o relevo do romance epistolar surgido no século XVII como meio de superação de barreiras sociais e de desenvolvimento da empatia, porta de entrada da preocupação com os demais. Para quem ama livros é entusiasmante descobrir como as obras do romancista inglês Richardson (Pamela e Clarissa) e Julie de Rousseau abriram a porta a um movimento imparável que nos trouxe aos nosso dias. Se dúvidas existirem sobre a importância da leitura na construção da cidadania este livro é a demonstração de que a ligação entre as duas é inequívoca. 
     A Autora debruça-se sobre a história dos Estados Unidos da América e da França, analisando as vitórias e também as lacunas de documentos como a Declaração de Independência do primeira e da Revolução Francesa. O efeito em catadupa da declaração dos direitos humanos é um dos aspectos mais interessantes da obra. A construção daqueles tem uma lógica própria e implacável. A autora explica de que modo os direitos humanos foram sendo alargados a outros grupos (como os negros e as mulheres) porque a mais elementar coerência do sistema o exigia. E também das resistências que esse alargamento foi provocando, quer no âmbito teórico, quer na prática. 
     A edição em inglês tem uma escrita fluída e cheia de conteúdo, só acessível a quem concilia conhecimentos sólidos e grande capacidade de expressão. Há uma edição em português, da Companhia das Letras.  Num momento como o que vivemos em termos mundiais, esta obra é um marco na reflexão sobre os direitos humanos e um estímulo para continuar um trabalho que está longe de estar terminado. 
   

segunda-feira, 17 de dezembro de 2018

Robert Louis Stevenson, Apologia do ócio e ... um inesperado elogio do casamento




Robert Louis Stevenson tornou-se conhecido sobretudo por obras como O Médico e o Monstro e a Ilha do Tesouro, com frequência editadas a pensar no público juvenil. Mas este escritor norte-americano novecentista tem muito mais por revelar. Este livro é um exemplo perfeito disso mesmo. Contempla dois ensaios – Apologia do Ócio (que lhe dá o nome) e Conversa e Conversadores.
Foi o primeiro que me levou a tirar o livro da estante em que estava desde que me foi oferecido no Natal passado. Um das coisas que tenho andado a ler é o conjunto de ensaios de André Barata E se parássemos de sobreviver – Pequeno Livro para pensar e agir contra a ditadura do tempo (editado pela Sistema Solar) e uma coisa levou à outra, digamos assim. Apologia do Ócio é uma desconstrução do grande deus da sociedade moderna – o trabalho. Não há dúvidas para a grande maioria das pessoas trabalhar é a única opção, sob pena de ter de recorrer à caridade para subsistir, à míngua de fortuna pessoal. Também é incontestável que tendo de trabalhar é preferível fazê-lo em algo de que gostamos e onde nos sentimos minimamente realizados. O que Stevenson questiona é o modo como tantas pessoas do seu tempo ( e do nosso, posso acrescentar) embora possam ser profissionais competente perderam a capacidade de se dedicar a qualquer outra actividade “só porque sim”, o gosto, a curiosidade pelos outros e pelas coisas da vida. No fundo, o modo como o trabalho ocupa e esgota cada pedaço dessa pessoa.
“O chamado ócio, que não consiste em não fazer nada mas sim em fazer muitas coisas não reconhecidas pelas formulações dogmáticas da classe dominante, tem tanto direito a afirmar a sua posição como o próprio trabalho” (pág. 11). Stevenson defense ser o ócio um elemento determinante da arte da vida e escreve “O excesso de actividade na escola ou no colégio, na igreja ou no mercado, é sintoma de uma vitalidade deficiente; enquanto a capacidade para ócio implica um apetite ecuménico e uma vigorada identidade pessoal” (pág.21).
Estas palavras sobre a ocupação permanente são de uma actualidade desconcertante. Quanto de nós chegam a casa exauridos de um dia de trabalho exigente, onde nos vimos constrangidos a dar mais horas ao serviço do que aquelas inicialmente contratadas? Mais ainda o tempo do trabalho instala-se para além da presença física. Os telemóveis e os e-mails, são dois dos mecanismos da prisão construída, não conhecendo fins de semana, férias ou feriados. E as crianças? Já me surpreende a quantidade de trabalhos de casa que as mesmas têm. A meu ver, trata-se de um mecanismo de adestramento destinado a prepará-las para aceitarem com naturalidade que o trabalho se prolonga para além do convencionado “horário de trabalho”. Mas há ainda as inúmeras actividades extra-curriculares que espremem cada hora do seu dia. As palavras de Stevenson entroncam nas do filósofo português André Barata: “O sentido de crescimento que se impôs para as vidas adultas nada tem que ver com o amadurecimento, ou com o tornar-se pessoa (1961) de que falava o grande psicólogo humanista Carl Rogers. É, em vez disso, um sentido de mera acumulação, sem nada de transformação, nada de genuíno crescimento (…)” (pág. 100).
O segundo ensaio de Stevenson é sobre a arte de conversação. Uma das coisas que me impressionou nas memórias de Vigée Le Brun que li há pouco foi tempo dedicado à conversa nos seus serões. Em parte, porque tenho pensado como essa arte está a desaparecer. As pessoas, de um modo geral, ouvem pouco. Tenho verificado em conversas em que tenho participado que longe de escutarem o outro procuraram nas palavras deste o eco de si mesmas. Por outro lado, os temas escolhidos são com frequência de uma pobreza franciscana. Stevenson deve ter pensado o mesmo, o que não deixa de ser consolador. O seu ensaio contém instruções precisar para conversar e encontrar conversadores. Rejeita os salões artificiais e é daí que nasce o elogio por si feito ao casamento que não é mais, diz ele, que uma longa conversa.
Para quem não conhecia (como é o meu caso) Stevenson como ensaísta uma surpresa que o autor reserva é a sua defesa dos direitos das mulheres e posição que devem ocupar em sociedade pública e privada. O casamento, escreve, deve ter por fim que “(…) as duas pessoas adaptam e modificam cada vez mais as suas noções para que se complementem as do outro e, com a passagem do tempo, sem que soem trombetas, acabam juntas, de braço dado, a caminho de novos mundos de pensamento” (pág. 84).
Em resumo, estes dois pequenos ensaios são estimulantes e mantêm-se actuais, sendo um bom motivo de conversa, dentro e fora da sociedade conjugal.

sexta-feira, 14 de dezembro de 2018

Élisabeth Vigée Le Brun, Memórias - volume I - os anos de exílio em Itália



Em Outubro de 2011 visitei Milão com o objectivo de ver a retrospectiva de pintura de Artemisia Gentilishi. Foi nessa altura que descobri uma outra pintora desta feita do século XVIII, Elisabeth Vigée Le Brun. Tal como sucedeu com Artemisia surpreendeu-me o seu relativo anonimato nos tempos actuais tendo presente que qualquer das duas foi uma pintora conceituada, entre os melhores da sua época. Na altura encontrei as memórias de Le Brun em italiano e comprei-as. Porém, não é fácil ler na língua de Petrarca e Dante e o livro foi ficando na estante, saindo de vez em quando para ser folheado num ou noutro capítulo. Percebi que Madame Le Brun por força da Revolução Francesa de 1789 se viu forçada a abandonar a França iniciando um périplo pela Itália, Áustria, Inglaterra e Rússia, mas nunca me inteirei dos detalhes dessas viagens. Há umas semanas atrás vi uma edição em inglês destas memórias numa livraria na Baixa lisboeta. Mas, confesso, achei–a um bocado cara. Por esse motivo, não a trouxe. E ainda bem. Porque há duas semanas fui surpreendida com a edição em português da primeira parte dessas memórias.
A primeira parte do livro é composto por um conjunto de cartas dirigidas à Princesa Karukin com quem Vigée Lebrun travou conhecimento na Rússia. Nas cartas a pintora recorda a sua infância e juventude, a vida familiar e o despertar para a pintura. A morte da princesa pôs fim à correspondência entre as duas, mas, instada por amigos a pintora continua a passar a papel as suas recordações.
Estas memórias não têm um conteúdo marcadamente intimista. Le Brun fala dos pais, do marido e também da sua filha, mas o grosso da obra debruça-se sobre a felicidade que foi para si dedicar-se à pintura, as pessoas que conheceu e, uma vez em Itália, as maravilhas da região. São claramente memórias de uma pessoa privilegiada em termos sociais. 
Le Brun casou sobretudo para fugir ao ambiente familiar, após a morte do pai e subsequente segundo casamento da mãe. As linhas que dedica ao marido, pelo menos neste primeiro volume, são poucas e sobretudo relacionadas com o facto dele se apropriar constantemente do dinheiro que ela ganhava. Em relação à filha Julie a situação é diferente. É possível perceber a ternura e dedicação que existia de parte a parte e o orgulho de Le Brun nas capacidades de escrita e imaginação da criança. Aliás, a pintora retratou-as várias vezes juntas e a pequena acompanhou sempre a mãe nas suas viagens.
Le Brun e a filha Julie
A escrita de Le Brun é detalhada, minuciosa e emocionada. É evidente que a pintora apreciou as relações que teve entre os nobres e a própria família real francesa (pintou Maria Antonieta cuja delicadeza e graça gaba), sentindo-se magoada e revoltada com o fim que grande parte deles (que descreve como pessoas amáveis e cordiais, de grande generosidade e espírito) teve após a revolução. A sua descrição da vida das classes sociais elevadas em França é feita com um efeito de cápsula, uma vez que jamais a pintora estabelece qualquer comparação com as dificuldades da generalidade da população. Aliás, esse elemento humano está igualmente presente no relato da sua viagem pela península italiana. Recordando Roma, Parma, Nápoles e Florença Lebrun fala das pessoas que aí conheceu e com grande profusão de detalhes nos encantos estéticos da paisagem e construções italianas. Mas pouco, e quase sempre pondo a tónica no pitoresco, sobre a generalidade da população. Isso não retira em nada o prazer de ler estas memórias. Para além da fluidez da escrita e da riqueza de detalhes elas são também um documento histórico de grande valor. Este primeiro volume foi uma boa leitura. Termina com o anúncio da viagem da pintora e da sua filha para a Áustria. Resta-me, pois, aguardar a publicação do II volume.



terça-feira, 11 de dezembro de 2018

Márcia Ramos Ivens Ferraz, Sózinha no mato



              Como já aqui escrevi para mim os alfarrabistas são uma espécie de caverna de Ali Babá sem risco de encontros com os quarenta ladrões. Numa das minhas excursões de book hunting encontrei este livro de Márcia Ivens Ferraz. É o relato da viagem desta portuguesa que atravessou África sozinha, ao encontro do marido e aqui registou as suas impressões e receios. Com isto ganhou um prémio no XXV Concurso de Literatura Colonial (algo de cuja existência nem sabia até pegar no seu livro). O livro lê-se de uma assentada, sendo recheado de peripécias. E, embora um pouco datado, afasta-nos daquela imagem cinzenta das mulheres portuguesas no Antigo Regime. Uma boa surpresa. 

sexta-feira, 7 de dezembro de 2018

Somerset Maugham


 Hoje quero deixar uma homenagem a um dos meus escritores favoritos de sempre mas de que nunca aqui escrevi. Conheci-o através do meu professor de inglês que escolheu os seus contos para fazermos exercícios de tradução. As primeiras coisas que li dele estavam numa colectânea chamada Rain and other novels. Impressionou-me aquilo que o professor nos contou sobre Maugham em particular a sua frase quanto ao modo como desejava viver a sua vida “ser rico, viajar muito e escrever” (não sei se exactamente por esta ordem). O que é certo é que realizou o seu projecto de vida.
         Somerset Maugham era inglês e teve uma infância marcada pela infelicidade. Perdeu os pais em criança e foi viver com um tio mesquinho e sovina. Esse facto e um pequeno defeito físico marcaram-no para sempre. Mas não condicionaram os seus sonhos. Maugham estudou medicina e chegou a exercer nos bairros mais pobres de Londres. Foi aí que recolheu inspiração para o seu primeiro livro, inspirado nas duras condições de vida das mulheres que conheceu e a quem ajudou profissionalmente: Liza of Lambeth (em português, Lisa a pecadora). Este livro estava incluído na colecção que a minha mãe me encomendou no Círculo de Leitores de obras desse autor. Outros títulos: Casamento em Florença, O Véu Pintado e a Lua e Seis Vinténs (inspirado na vida do pintor francês Gauguin). Passei muitas horas a ler e reler estes livros. Mas duas outras obras de Maugham marcaram-me profundamente: Da Servidão Humana e O Fio da Navalha. A primeira narra incidentes directamente inspirados na vida do próprio autor. Maugham deixou a medicina e foi viver para Paris. Aí privou com muitos artistas (pintores, escritores, etc) e candidatos a essa condição que ficaram pelo caminho. O livro é um romance de iniciação e não pinta de cor-de-rosa as dificuldades da vida. O protagonista conhece um grande amor, a mais fria e cruel desilusão, a fome e o desalento. o seu regresso a Inglaterra e as escolhas que aí faz para a sua vida, são matéria de reflexão e ainda hoje me vêm à memória. Maugham escreveu como ninguém sobre tantosjovens que chegaram a Paris com sonhos artísticos que nunca se concretizaram. Alguns reconciliaram-se com esse facto e seguiram a sua vida. Outros pereceram, às vezes às mãos do álcool, outras vezes de frio ou de fome. 
      O Fio de Navalha acompanha a vida de um jovem aviador norte-americano traumatizado pela sua experiência na I Grande Guerra. Ao contrário do protagonista de Da servidão humana, Larry, a personagem principal de O fio da navalha escolhe afastar-se do quotidiano convencional, vivendo uma vida nómada, ditada pela sua vontade e por um sentido que só ele conhece, para frustração de muitos dos que o rodeiam. Os dois livros transcendem em muito os protagonistas, oferecendo-nos um fresco sobre a natureza humana com o qual muito se aprende. Maugham nunca se considerou um grande escritor (no que não foi contrariado por muitos críticos, diga-se). Via-se como um contador de histórias, um observador da realidade, a quem muitas pessoas revelam factos das suas vidas que a mais ninguém confiavam. Era neles que Maugham se inspirava para as muitas histórias que escreveu, muitas delas passadas para as telas de cinema em versões mais ou menos conseguidas. Viajante incansável essa sua faceta encontra-se em muitas das suas obras que nos levam aos quatro cantos do mundo. 
      Como disse, li-o sobretudo na adolescência. Mas ainda hoje de vez em quando voltou às páginas dos seus livros, sempre com proveito.
         

   

segunda-feira, 3 de dezembro de 2018

A arte do silêncio, Amber Hatch



     
       Silêncio e solidão são muitas vezes vistas como uma coisa negativa. Mas nem sempre é assim. Vivemos um mundo onde recebemos estímulos em catadupa: notícias, SMS, e-mails, notificações, estreias constantes de cinema, teatro, edições de livros and so on ... Mas quanto do que experimentamos fica realmente connosco? Quanto é amadurecido e transformado em matéria prima para nos alimentar? É sobre isto que nos escreve Amber Hatch. O livro é pequeno, escrito de forma simples e com exercícios interessantes para explorarmos. Muito do que diz não é novo, mas mantém-se actual. A mensagem é clara: procurar o silêncio no mundo à nossa volta e dentro de nós. E essa é uma tarefa difícil. Passos pequenos é a estratégia proposta pela Autora. 
     Por mim, tenho feito um esforço para reduzir a velocidade que os estímulos constantes imprimem à vida. Vou a menos espectáculos, aceito menos convites, procuro distinguir as solicitações que me acrescentam algo (desde logo, prazer) daquelas a que dizia sim de forma automática, sem pensar bem no assunto. E que acabava por lamentar. Os resultados têm sido animadores. O tempo parece durar mais, as relações eleitas ganham qualidade, estou mais atenta aos detalhes e com clareza de espírito. Não se trata de cultivar a misantropia. Trata-se de eleger aquilo e aqueles que verdadeiramente importam. E de conseguirmos, finalmente (!!!), começar a ouvir-nos a nós próprios. Por isso, qualquer livro que ajude a aprofundar este caminho parece-me uma excelente leitura.