Em
dias mais felizes Dunbar foi dono de um império de comunicação social, com
muito dinheiro e poucos escrúpulos. Mas esses tempos já lá vão. Quando o
conhecemos encontra-se internado pelas duas filhas mais velhas num lar de
idosos algures no campo inglês, a pretexto de que enlouqueceu. Com o mesmo
argumento as duas filhas preparam-se para o despojar do seu império de
comunicação social. Longe de apreciar a paisagem bucólica que o rodeia, Dunbar
anseia por fugir e retomar o poder, dando às duas filhas uma lição e
reconciliando-se com a irmã mais nova de ambas, com quem reconhece ter sido injusto. A
história deste milionário tem pontos de contacto com a do Rei Lear e não é por
acaso. Este livro é o contributo de St Aubyn para uma colecção de homenagem a
Shakespeare em que autores ingleses contemporâneos revistam e recriam as suas
peças.
Este foi o primeiro livro de St Aubyn
que li e não desmereceu em nada as opiniões elogiosas que tenho ouvido sobre as suas obras. A
sua escrita transmite a imensa força de espírito do protagonista apesar da
idade, da fragilidade física e da situação desesperante em que se encontra. As
partes do livro relativas às filhas de Dunbar são igualmente bem conseguidas.
Florence é alguém que ama o pai ainda que rejeite o seu modo de vida. Sente-se, porém, culpada por não ter encetado um esforço de reconciliação mais cedo. Como tantos de nós, deixou passar demasiado tempo. Durante grande parte do livro interroga-se se não terá passado tempo demais. As suas irmãs Abby e Megan têm natureza cruel e perversa. Para quem conhece um
pouco a natureza humana o retrato traçado é credível. A maldade
suprema não é uma ficção ou um exclusivo das peças do bardo inglês. Qualquer
que seja a sua origem, ela faz parte de nós e tem lugar na nossa sociedade, às
vezes onde menos suspeitamos. O final do livro é fiel ao sentido dado por
Shakespeare à sua peça, conseguindo, contudo manter-nos expectantes até à
última linha. O livro é uma bem conseguida homenagem ao bardo inglês: o amor filiar/parental, o peso do passado, a ambição, a amizade desinteressada, a ambição descontrolada e a ausência de escrúpulos passam pelos nossos olhos numa galeria de personagens que nada tem de anacrónico. São bem actuais. Como actual é a influência daqueles que controlam os media e que nem sempre sabem honrar a responsabilidade que têm nas mãos. Tudo temas que surgem nesta obra.
Gostei bastante deste livro e posso
dizer que fiquei curiosa para conhecer outros títulos desta colecção e para ler
outras obras de Edward St. Aubyn.