segunda-feira, 8 de abril de 2019

Paulo Coelho, A espia

Primeiro ponto: simpatizo com Paulo Coelho. Parece-me genuíno na sua forma de estar e apreciei especialmente o seu desprendimento em relação aos direitos de autor que o leva a não ter nada contra as muitas edições piratas dos seus livros. É através delas que muita gente tem acesso às suas obras que, de outro modo, seriam demasiado caras para as suas bolsas. É verdade que Paulo Coelho vende muito. Mas há outros que vendem tanto como ele e não se mostram tão generosos.
Segundo ponto: gostei francamente de O alquimista. Tinha dezoito anos quando o li e nunca esqueci a importância de descobrirmos e vivermos a nossa lenda pessoal. O conceito pode parecer esotérico mas é bem terreno. Porque o mundo está sempre a tentar afastar-nos do nosso caminho e vestir-nos com os objectivos e sonhos (quantas vezes de consumo) do que parece bem e deve ser.
Terceiro ponto: com excepção de O alquimista não gostei de mais nenhum livro do Paulo Coelho. Não cheguei ao fim de Diário de um Mago ou de As Valquírias e detestei O Adultério. Este, pior do que ser um mau livro, é um livro mau que podia ter sido muito bom. Uma tristeza maior, pois.
Quarto ponto: A espia. Ouvi falar bem deste livro e decidi arriscar, mais uma vez. O que dizer? Trata-se de um esboço biográfico de Mata-Hari, uma mulher que ganhou fama como dançarina e cortesã. Também lhe atribuíram trabalhos de espionagem e contra-espionagem. Foram eles que a levaram à morte por fuzilamento. O livro de Paulo Coelho é cauteloso na fórmula narrativa. É parco em descrições quanto ao mundo exterior e limitado quanto aos diálogos. Opta pela fórmula, sempre mais simples, da epístola. Mata-Hari, enquanto aguarda pelo resultado de recurso, escreve uma longa carta destinada ao seu advogado e à filha, explicando a sua vida. O advogado escreve também uma carta procurando reconciliar-se com o seu fracasso. 
     Paulo Coelho procura reabilitar a memória de uma mulher que acabou por ser punida, na perspectiva dele, por ter ousado ser diferente. Apresenta-nos a sua vida e luta para se tornar independente, com a necessidade de se inventar perante uma sociedade em que, apesar do fascínio e popularidade de que gozou, nunca foi aceite ou sequer compreendida. Faz um paralelo interessante entre Mata-Hari e Dreyfus, o oficial judeu injustamente acusado de traição e que acabou por ser defendido publicamente por Emílio Zola com o célebre J’accuse. Apesar de também existirem fortes suspeitas de que Mata-Hari foi injustamente acusada, ninguém correu em sua defesa. Em suma este é um livro escrito de modo simples e leve sobre uma situação de vida extremamente pesada. A meu ver, vale pela tentativa de resgatar, humanizar e problematizar uma vida que passou à História coberta por um manto de desconhecimento e injustiça. E pode abrir a porta a leituras mais profundas sobre essa realidade que não é rara, nem está afastada do mundo contemporâneo.

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