sábado, 18 de maio de 2019

Anne Dufourmantelle, La femme et le sacrifice- D'Antigone à la femme d'à côté



Antígona, Ifigénia, Joana d’Arc ou Julieta. Apenas alguns exemplos de mulheres que, na tradição ocidental, ofereceram as suas vidas ao sacrifício. Para salvar um país, um familiar, um amado.
A tradição cultural ocidental atribui às mulheres essa vocação para a abnegação e o sacrifício. Ao mesmo tempo faz corresponder a essa vocação o sentido de uma vida plena e digna. Sempre me interroguei sobre esta ligação das mulheres ao sacrifício, parecendo-me que tem subjacentes expectativas sociais e culturais e não tanta a real existência de tal vocação. Por isso, quando vi este livro pareceu-me um bom caminho para testar as minhas interrogações.  
Filósofa e psicanalista, Anne Dufourmantelle oferece-nos este trabalho extraordinário. É uma obra bem estruturada, onde é evidente a sólida formação académica da autora e a sua capacidade de exposição. 
      O livro pode ser lido com proveito e gosto quer por quem está familiarizado com a cultura clássica, quer por quem ainda não teve oportunidade de explorar esse campo. Isto porque, graças às suas capacidades pedagógicas, Dufourmantelle apresenta de forma clara as várias obras que utiliza para ilustrar as suas teses. Tem depois a capacidade de nos mostrar que estas figuras, como arquétipos ou pelo menos elementos culturais de referência, se projectam directa ou indirectamente nas nossas construções e respostas sociais. Mergulhamos em referências clássicas analisadas com profundidade numa aventura intelectual que qualquer leitor ou leitora não consegue recusar. Seguimos a escritora que vai dialogando connosco e que tem uma raciocínio límpido e um discurso depurado. Mostra-nos como figuras sacrificiais são privilegiadas na narrativa em detrimento de outras que escolheram o seu caminho pessoal (como Heloísa), recusando o sacrifício e conquistando a sua liberdade (pelo menos dentro das possibilidades oferecidas). E leva-nos a perceber como os mitos e construções clássicas estão presentes anos nossos dias.
 Com este livro compreendemos melhor o mundo e adquirimos instrumentos para nos entendermos também melhor.

quinta-feira, 16 de maio de 2019






Butcher Billy, artista gráfico e ilustrador brasileiro, teve esta ideia: transformar em capas de livros de terror algumas da músicas mais conhecidas do universo pop. O resultado é assustador e muito divertido.Podem ver o artigo original e várias outras capas de livros aqui

terça-feira, 14 de maio de 2019

Santo Agostinho, Confissões





“Senhor, fazei-me santo, mas não já!” é uma prece bem humorada atribuída a Santo Agostinho e que resume bem as contradições da sua vida. Para desgosto da mãe Mónica, Agostinho teve uma juventude turbulenta, de sensualidade e excessos (também filosóficos, pois aderiu à doutrina de Mani, em que se funda o maniqueísmo). As orações da mãe acabaram por surtir efeito. Aos 40 anos, após um febrão terrível, Agostinho emendou o curso da sua vida, que foi bem longa. Chegou a Bispo de Hipona e escreveu a sua biografia e testamento espiritual. As Confissões, agora republicadas, são um daqueles livros para ler e reler. Obra de fé, de aventura existencial e de pensamento. Nunca se esgota.A primeira vez que li algumas das suas partes foi por influência de um professor de filosofia. Já lá vão muitos anos, mas este é um livro que me apanho a reler de vez em quando, sempre com gosto e proveito.