terça-feira, 30 de julho de 2019

Martha C. Nussbaum, Sem fins lucrativos - Porque precisa a democracia das humanidades



Sem fins lucrativos é uma reflexão da filósofa norte-americana Martha Nussbaum sobre o papel das artes e humanidades na educação. Que cidadãos e cidadãs queremos? Autómatos preparados para ocuparem um lugar no circuito de produção ou seres humanos dotados de sensibilidade, imaginação e sentido crítico? Se pretendemos este último tipo de cidadania defende Nussbaum que não podemos atingi-la sem um sistema de educação onde haja lugar para as artes, a filosofia, a história e as demais ciências humanas. É sobre o desaparecimento destas matérias dos currículos académicos e suas consequências que a filósofa reflecte, propondo alternativas. O livro saiu em 2011 na versão original e é uma leitura relevante não apenas para progenitores e educadores, mas para todos os membros da sociedade. A educação deve ser colocada no centro do debate sócio-político e este livro mostra isso mesmo de forma categórica.

sexta-feira, 26 de julho de 2019

Françoise D'Eaubonne: Féminin et Philosophie: une allergie historique



A filósofa francesa Françoise d’Eaubonne procura uma explicação para o modo como as mulheres foram pensadas pela filosofia ocidental, bem como para desaparecimento do nome das mulheres filósofas até ao século XX. Da Antiguidade Clássica, por exemplo, apenas nos chegou Hipátia de Alexandria, ainda assim mais recordada como mártir do cristianismo do que pela sua produção intelectual. No entanto, segundo a autora deste livro estão contabilizadas mais de cinquenta mulheres que se dedicaram aos estudos filosóficos durante aquele período histórico. Que é feito delas e porque se evaporaram?
A aproximação aos temas é feita com recurso a subsídios de antropologia, história, religião e psicanálise. O resultado é uma leitura que rasga o véu de alguns mistérios, aponta caminhos e nos deixa a pensar. Não há resposta definitiva para as perguntas colocadas, mas o ensaio de resposta apresentado é bem estruturado e deixa-nos com vontade de continuar à procura.

segunda-feira, 22 de julho de 2019

Alexander Lee, The Ugly Renaissance: sex, greed, violence and depravity in an age of beauty

“In short, dreams must be dreamed. A new Renaissance is long overdue.”
É com este repto que termina o livro de Alexandre Lee, The ugly renaissance que, paradoxalmente, procura recordar o lado menos bonito desse período histórico. Mas, se num primeiro momento, há a tentação de nos lançarmos entusiasticamente no desejo de uma nova Renascença, tenho que dizer que talvez o renascimento que tenho em mente não seja exactamente igual ao sonhado por Lee. Mas já lá vamos.
The Ugly Renaissance é, em primeiro lugar, um livro de História que tem por objecto o Renascimento italiano.
Está dividido em três partes. A primeira é centrada no papel do artista e tem em Miguel Ângelo a figura principal. A segunda foca-se no papel do patrono de artes, explorando as suas motivações e interesses. É aí que conhecemos Cosimo Médeci, Galeazzo Maria Sforza e Sigismundo Pandolfo Maletesta, entre outros. Ficamos a conhecer as suas origens e traços de personalidade que não são imediatamente visíveis nas obras de arte que custearam. Em particular Sigismundo é alguém que nos leva a concluir que há pessoas com as quais é melhor manter uma distância existencial de várias centenas de anos. A última parte do livro de Lee analisa o Renascimento italiano nas suas relações com o resto do mundo. Explora a noção de alteridade fornecida por judeus, muçulmanos e africanos.
Este é um trabalho muito bem documentado e que cumpre o prometido. A pobreza extrema em que vivia parte substancial da população das cidades em que emergiu o Renascimento, a injustiça social e a discrepância entre as leis e os costumes (por exemplo, no plano da situação das mulheres e da vida dos homossexuais) são tratados de forma detalhada. Recordamos também a crueldade extrema dos que tinham o poder, fosse ele de origem terrena ou clerical, bem como a ausência de sistema de justiça independente. São também abordados os preconceitos raciais, religiosos e sexuais. Trata-se de leitura interessante, sendo o livro escrito de forma escorreita e com muita informação. Surgem nomes conhecidos (como Dante e Bocácio), mas também pistas para novas descobertas (como Bartolomeu Facio, por exemplo). Na minha perspectiva, foi uma leitura que valeu a pena. Ainda assim, há pontos que me merecem reparo.
Em primeiro lugar, a inexistência de qualquer referência às mulheres artistas e de letras que viveram e fizeram o Renascimento. Por exemplo, Túlia de Aragão (filósofa nascida em 1510 e falecida em 1556, que viveu em Florença e publicou Della infinitá di amore) e as pintoras Artemisia Gentilisihi (1593-1656) ou Sofonisba Anguissola (1532-1625). Esta última, aliás, privou com Miguel Ângelo que reconheceu desde sempre o seu talento. Esta ausência num livro de publicação recente é algo incompreensível. Tanto mais que Lee dedica várias páginas à condição feminina e que o trabalho por si empreendido pretende dar uma visão global do Renascimento italiano.
Um segundo ponto de crítica foram as conclusões a que o autor chega na parte final do seu trabalho e que são, a meu ver, algo simplistas. É verdade que nos nossos dias existem problemas graves de natureza social, política e cultural. Mas comparar o cenário actual ao que se vivia no século XVI na península itálica é, no mínimo, pouco rigoroso. Desde logo, porque o âmbito da investigação de Lee começa por ser traçado no Renascimento Italiano (e assim se mantém por todo o livro, sem uma palavra sobre as obras de arte de outros pontos europeus) para terminar com o que parece ser uma tirada geral sobre o estado do mundo. Ora, a verdade é que se compararmos a situação do cidadão europeu hoje com a de um italiano do século XVI a diferença é abissal. Em termos de direitos humanos, acesso a educação, saúde, habitação, sistema de justiça e nível de vida, a comparação, de tão abissal, é risível. Mais ainda, se alargarmos a comparação ao mundo, e mesmo aceitando a fórmula genérica do autor de que “o escândalo, sofrimento e corrupção” continuam a existir é sabido que o nível geral da vida dos seres humanos é hoje muito melhor do que no século XVI. Isto, apesar do muito que há ainda a fazer em termos de justiça global. Tenho dúvidas quanto a projectos utópicos. Mas também não me parece que a solução perante a verificação dos problemas sociais seja, tão só, enchermos o mundo de mais monumentos, num novo Renascimento. Creio que o melhor que podemos deixar às gerações vindouras é lutar contra as injustiças sociais gritantes e não meter a cabeça na areia, fazendo de conta que o escândalo, corrupção e injustiça não existem ou que são um mal necessário.
Por último, compreendendo embora o entusiasmo do autor com o Renascimento, há que recordar que não foi o único período em que os seres humanos se transcenderam através da artes. Antes e depois desse tempo, em todos os pontos do mundo há belíssimas demonstrações do nosso génio individual e colectivo.