Só
o título já é uma provocação. E nem o ar sério da Duquesa de NewCastle nascida
Margareth Lucas, impede a imaginação de disparar. O Convento do Prazer é uma peça de teatro publicada no século XVII,
num tempo em que as mulheres, e muito menos as aristocratas, não escreviam sem correr
o risco de cair no ridículo. Mas Cavendish escreveu e muito: peças de teatro,
ensaios filosóficos, obras científicas, o primeiro livro de ficção científica
conhecido na Europa (The blazing world)
e biografias.
O Convento é uma peça de teatro que
foca um tema exposto de forma tímida mas recorrente na literatura: a vida sem
homens ou, mais precisamente, sem a presença tutelar do marido. Numa época em
que grande parte dos casamentos assentava em decisões de negócios ou de
política (com excepção dos muito pobres, claro), a escrita de Cavendish parte
desta premissa: uma jovem herdeira, rica, inteligente e bonita
decide evitar os pretendentes que se preparam para lhe bater à porta. A rebelião contra o casamento não é um tema inteiramente original. Já Shakespeare o tinha tratado com a sua Catarina
de A Fera Amansada. A heroína de
Cavendish (Lady Happy) cria um convento para si e para as suas amigas, aí
vivendo recolhida em prazeres que não incluem a presença masculina. Que
deleites serão esses é matéria que ocupa os pretendentes (entre o despeitado e
o receoso) e aguça a curiosidade de quem acompanha a peça. Cavendish, à
semelhança de outras mulheres que escreveram no século XVII, assume uma postura
ambivalente, ora reclamando direitos para as mulheres e lamentando a sua
condição subalterna, ora admitindo a posição de natural inferioridade daquelas.
Na peça há uma denúncia veemente dos males do casamento. Mas, para um olhar
atento, é cristalino que os mesmos assentam – naquele tempo, como hoje – não no
consórcio, mas no consorte que se escolhe. A peça é também uma comédia de
enganos, leve e sem grandes pretensões, não pondo em causa a ordem social
estabelecida, pelo menos de forma evidente. E diga-se que isso não deve ter
sido apenas para agradar ao público (Cavendish foi uma autêntica celebridade no
seu tempo): a autora era ela própria casada e ao que consta muito feliz, pois
que Lord Cavendish era, ao que sabe, um homem de vistas largas e que muito
apreciava o talento da esposa. Duas qualidades importantes para qualquer marido.