Sou contra toda
e qualquer forma de snobismo literário. Sempre tive dúvidas sobre cânones e,
embora lhes reconheça relevo indicativo sobretudo nos anos de formação, acho
que quem lê se deve emancipar de fórmulas e explorar o fabuloso mundo dos
livros. O que se escreveu em tempos idos nas mais variadas latitudes e o que se
escreve agora em todos os cantos do mundo. Há algo de muito satisfatório em descobrir as nossas emoções plasmadas num poema escrito algures na China e de reconfortante em lermos um romance escrito na América do Sul, mas que nos cai como um vestido feito à medida, por exemplo. Por isso, gostei particularmente de
ler este testemunho que encontrei no The Guardian. Os livros devem ser
território de liberdade e não um lugar de vergonha.
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segunda-feira, 18 de março de 2019
sexta-feira, 8 de março de 2019
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| This is what a feminist looks like - Benedict Cumberbatch |
Se
pegarmos num dicionário veremos que o feminismo é uma corrente de pensamento
que defende a igualdade de direitos e deveres para todas as pessoas
independentemente do género. De ser feminista não resulta, ao contrário da
crença que vejo disseminada em certos sectores, ser contra os homens, não
gostar de homens (designadamente na perspectiva amorosa e erótica) ou querer
ser um homem. Também não existe qualquer oposição de base ou contradição entre
ser feminista e ser feminina. Claro que não posso dizer que perceba muito bem
esse trocadilho. O que é estranho, pois, sem falsas modéstias, posso dizer que
por regra percebo facilmente metáforas, analogias e todas as demais figuras de
estilo. Mas fico por perceber o que querem dizer as que dizem “não sou
feminista, sou feminina”. Ah, e para ser feminista não é preciso ser mulher (o que explica a fotografia do Cumberbatch).
Como para ser contra o racismo não é preciso ser parte de uma minoria étnica. Ou
para ser a favor do casamento entre pessoas do mesmo sexo não é necessário
desejar efectivamente casar com uma pessoa do mesmo sexo. Isto porque a
capacidade de reconhecer os demais seres humanos como pessoas como nós advém de
algo diverso: a empatia. Isto é, a capacidade de nos pormos na pele dos outros. Uma das formas de desenvolver esta qualidade humana é
através da leitura. Foi isso que sucedeu a partir do século XVIII na Europa,
com a inerente ligação ao desenvolvimento dos direitos humanos. O The Guardian
publica um artigo sobre as obras feministas que podem ajudar a perceber a causa
nas suas múltiplas dimensões. Foram lidas por Carl Sedeström um académico sueco
em busca de um modo de mostrar a sua solidariedade para com as mulheres. Podia ter lido Jane Austen ou as irmãs Brontë. Mas escolheu no essencial autoras contemporâneas. Alguns dos títulos são
sobejamente conhecidos. É o caso de O segundo sexo de Simone de Beauvoir. De
outros, incluindo Hunger de Roxanne Gay, já escrevi aqui. Vale a pena conhecer a lista, para concordar ou discordar.
Sobretudo para pensar. Hoje e todos os dias.
quinta-feira, 14 de fevereiro de 2019
A pantera, Rainer Maria Rilke
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| Imagem obtida aqui |
Para
mim, a melhor coisa do mundo é a liberdade (e tarte de chocolate). Por isso, este poema de Rilke
sempre me angustiou. Conheci-o através de um dos meus filmes favoritos, Uma outra mulher. A acção centra-se nas escolhas
de vida de uma professora de filosofia que sempre se guiou pelo pragmatismo e
pela razão. Não é uma comédia mas tem um final esperançoso, o que já não é nada
mau. Numa das cenas centrais ela relê um dos seus poemas mais amados, A pantera
de Rilke, colocando-se no lugar do felino para concluir “you must change your
life”.
Haverá pior coisa do que não ser livre?
Encerrado atrás de grades, reais ou metafóricas, olhando para o espaço que
devia ser o nosso, do outro lado da jaula. Detesto jardins zoológicos por causa
disso mesmo. Ontem vi as fotografias da muita rara pantera negra. Em liberdade.
O seu olhar não esmoreceu, o seu vulto continua andante e flexível e as imagens
que a sua pupila capta não lhe morrem no coração. Reconciliei-me com o poema. Há
panteras livres, como todas deviam ser. Como todos deveríamos ser.
De
tanto olhar as grades o seu olhar
esmoreceu
e nada mais aferra.
Como
se houvesse só grades na terra:
grades,
apenas grades para olhar.
A
onda andante e flexível do seu vulto
em
círculos concêntricos decresce,
dança
de força em torno de um ponto oculto
no
qual um grande impulso arrefece.
De
vez em quando o fecho da pupila
abre-se em silêncio. Uma imagem, então,
na
tensa paz dos músculos instila-se
para
morrer no coração.
quarta-feira, 19 de dezembro de 2018
Os livros por ler, esse tesouro
A
minha actividade favorita no mundo inteiro é ler. Tem sido desde os quatro anos
de idade, altura em que aprendi a ler e nunca mais parei. Mais ainda do que
viajar (o transporte em si, sobretudo se for de avião, gera-me algum receio)
ler é o modo como mais gosto de ocupar o tempo e as livrarias a única loja de
que saio sempre com alguma coisa. Por esse motivo, e mesmo conseguindo ler vários
livros em simultâneo, tenho sempre imensa coisa para ler. Já adoptei diversas
técnicas. Por exemplo, ando sempre com livros (nem que seja dos
pequenos, edição de bolso, na mala) e deixei de ler os livros que não me
cativam até ao fim. Mas, apesar disso, sei que o número de livros para ler será
sempre infinitamente superior aos que consigo e poderei ler, mesmo que tenha
uma vida longa, como gostaria.
De
vez em quando surge a crítica ao número de livros comprados “mas tens tanta
coisa para ler, para quê mais um?...” Bom, aqui está um artigo que fará as
delícias dos que já ouviram esse reparo (e são muitos). Num artigo publicado na
Brain Pickings Maria Popova (podem ler aqui) fala sobre o que Nassim Nicholas Taleb chama “a
anti-biblioteca”.
O que a compõe? Todos os livros que não lemos. Taleb utiliza o exemplo de Umberto Eco para nos mostrar como a nossa biblioteca pessoal deve incluir tantos livros não lidos quantos aqueles que a nossa situação financeira nos permitir. É um exercício de modéstia (recordar o que não sabemos e não apenas o que já aprendemos) e de aspiração (sempre na esperança de conseguirmos ler mais e mais). Pela minha parte fiquei descansada quanto às minhas práticas de Tsundoko exemplificadas pela fotografia que ilustra este artigo, tirada na minha biblioteca de livros por ler. Afinal, se estou no mesmo grupo que atletas intelectuais da dimensão de Eco e Taleb estou seguramente bem acompanhada.
O que a compõe? Todos os livros que não lemos. Taleb utiliza o exemplo de Umberto Eco para nos mostrar como a nossa biblioteca pessoal deve incluir tantos livros não lidos quantos aqueles que a nossa situação financeira nos permitir. É um exercício de modéstia (recordar o que não sabemos e não apenas o que já aprendemos) e de aspiração (sempre na esperança de conseguirmos ler mais e mais). Pela minha parte fiquei descansada quanto às minhas práticas de Tsundoko exemplificadas pela fotografia que ilustra este artigo, tirada na minha biblioteca de livros por ler. Afinal, se estou no mesmo grupo que atletas intelectuais da dimensão de Eco e Taleb estou seguramente bem acompanhada.
sexta-feira, 16 de novembro de 2018
sexta-feira, 9 de novembro de 2018
quinta-feira, 19 de abril de 2018
sexta-feira, 13 de abril de 2018
Charlie Burg - Bookstore Girl
Mão amiga, como diria Eça, fez-me chegar esta canção. E fez-me desejar ainda mais ser a rapariga da livraria.
quarta-feira, 20 de setembro de 2017
Bibliotecas do mundo
A biblioteca do Convento
de Mafra no passado fim-de-semana, pela objectiva do meu amigo Luís Ramos. Outras bibliotecas dignas de nota neste artigo da
Buzzfeed. Para descobrir e quem sabe um dia ir até lá passear entre as suas estantes.
segunda-feira, 19 de dezembro de 2016
Do filósofo em cada um de nós
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| Sócrates |
Filosofar
é aprender a morrer. A frase é atribuída a Cícero e, uma coisa é certa, não fez
grande serviço à causa filosófica. “Juntem-se a nós e aprendam a morrer” está
longe de ser um anúncio apelativo. Além de que, com todo o respeito que Cícero
merece, não é a descrição mais exacta do que seja a filosofia. “Juntem-se a nós
e aprendam a viver”. Não só chama mais gente, como é muito mais verdadeiro.
Para muitas pessoas a filosofia é
aquela disciplina que alguns tiveram no liceu, onde um bando de pessoas já
mortas tentava explicar o sentido da vida e do mundo. Depois, feito o exame,
cada um segue o seu percurso e os filósofos desaparecem do nosso horizonte. A
verdade é que existe um preconceito segundo o qual filosofar é tarefa reservada
a uns quantos iniciados, que usam uma linguagem hermética e que se ocupam de
questões complexas e que têm pouca utilidade no quotidiano. Os últimos anos têm
mostrado que não se podia estar mais longe da verdade. Há toda uma formada de
“novos” filósofos que se recusam a desempenhar o papel de sábios encerrados
numa torre de marfim. Ao contrário, apostam na divulgação do seu trabalho junto
do grande público e trazem para esse espaço obras que muitos acreditaram terem
sido engolidas pelas areias do tempo. Alain de Botton, com obras como Status Ansiedade e O consolo da filosofia, é um exemplo desse trabalho que vem sendo
feito. Outro nome de relevo é o do filósofo australiano Peter Singer. Singer é
reconhecido como um defensor dos direitos dos animais e pensador de questões
éticas contemporâneos. Um dos seus trabalhos mais interessantes é A Vida que podemos salvar. Trata-se de
um estudo sobre o modo como cada cidadão do mundo dito desenvolvido pode
contribuir para erradicar a pobreza em particular no continente africano. Não
se trata de um trabalho sobre a caridadezinha, mas antes de uma reflexão
profunda e muito bem documentada sobre o impacto das escolhas que podemos fazer
para alterar este mundo, contra o qual tantas vezes rezingamos e nos
revoltamos.
Ao lado dos novos filósofos, temos
ainda os clássicos, que se podem revisitar sem medos, agora que o fantasma dos
exames e provas gerais de acesso está longe. A vida é muito mais do que a
vidinha e as coisas de que temos forçosamente de nos ocupar enquanto por cá
andamos. Há, seguramente, um propósito maior para cada um de nós. E descobri-lo
é o primeiro passo para o concretizar. Quem melhor do que Aristóteles com a sua
Ética a Nicómaco ou Erasmo de
Roterdão com a sua Utopia para nos compelir
a sair da caverna? Afinal, como disse Sócrates, apenas uma vida examinada
merece ser vivida. E, como aparentemente, só se vive uma vez, quanto mais
depressa começarmos, mais proveito dela tiraremos.
sexta-feira, 9 de dezembro de 2016
quinta-feira, 24 de novembro de 2016
segunda-feira, 14 de novembro de 2016
Adonis em Lisboa
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| Pequeno Auditório CCB |
Sexta-feira,
11 de Novembro de 2016, Adonis esteve no Pequeno Auditório do CCB para falar
sobre a sua poesia e o que mais lhe ia na alma. Na semana em que Donald Trump
ganhou as eleições nos EUA, o seu nome não foi dito. O mesmo não se pode dizer
da história e política externa do seu país. Adonis, pseudónimo Ali Ahmad Said,
acompanhado entre outros, de Nuno Júdice (que traduziu para português os poemas
que compõe a antologia Arco-Íris do
Instante), falou sobre a poesia árabe e o efeito do islamismo na mesma.
Revelou também a origem do seu pseudónimo, encontrado ainda no início da
adolescência. Mas a conversa foi muito mais longe. Falou-se sobre o momento que o
mundo vive, com especial incidência no drama de países árabes, como é o caso da
Síria (de onde é natural o poeta). Sobre o silêncio dos intelectuais europeus que a
tudo assistem sem uma palavra (este mutismo, à escala global, é também denunciado por Noam Chomsky no seu recente Quem governa o Mundo?). E também sobre a falta de liberdade do mundo
actual. Adonis disse-se optimista para o futuro, mas não a curto prazo. Aliás,
foram amargas as suas palavras (embora realistas) quanto ao imenso poder dos
EUA um país que, crê, nunca teve qualquer preocupação com ideias de liberdade.
A começar pelo modo como aquela nação nasceu, destruindo a civilização que
encontraram no continente americano. Adonis não rejeitou a sua responsabilidade
em apontar caminhos alternativos ao mundo que vivemos. Esse caminho parece-me
bem difícil de trilhar, pois pressupõe que a Europa se recupere enquanto
realidade política e cultural, assumindo o seu papel na luta pelos direitos
humanos. Sabemos como isso está a correr. Para além da conversa (que soube a
pouco, face à inteligência, simpatia e amplitude de pensamento de Adonis)
interessa a obra do poeta. Ainda estou no início dessa descoberta, mas
ficaram-me os olhos nesta verdade “Não podes ser lanterna se não levares a
noite às costas.” E assim é, de facto.
quinta-feira, 10 de novembro de 2016
À volta dos livros
Por que lemos?
A pergunta tem tantas respostas, quantos os leitores. E, provavelmente, o mesmo leitor não responde de modo idêntico todos os dias.
Para mim, ler é uma conversa desafiante. Eu, o livro e, por via deste, o autor ou autora. Não gosto de ler o que já sei. Aprendi a fazer este exercício: pelo menos uma vez por mês escolher um livro improvável. Pelo seu autor, pelo tema, pelo tipo de literatura. Por regra, as minhas escolhas literárias conduzem ao romance, clássico ou contemporâneo e ao ensaio, polvilhados aqui e ali com alguma poesia em língua portuguesa.
Por isso, o desafio que me lanço de vez em quando é sair desses caminhos. Após anos de interregno juntei-me há três meses a uma nova comunidade de leitores. Também por essa via as escolhas literárias ganharam um novo contributo. Mas isso não impediu que prosseguisse com o meu método próprio de alargar horizontes (ou, pelo menos, tentar). Ler um livro de BD, género literário que não faz parte das minhas escolhas óbvias, uma obra de divulgação científica, um autor totalmente desconhecido nacional ou estrangeiro. Neste último caso, de preferência de uma latitude longínqua. Procuro seguir o meu instinto, mas também beneficio de sugestões de amigos. Na foto estão algumas das leituras “desafiantes” deste ano. Cada uma equivale a uma conversa com alguém muito diferente de mim e em cujo percurso não senti o eco dos meus passos prévios. Um pequeno novo mundo. Tenho de ser franca, nem todas foram apostas inteiramente conseguidas, mas não há nenhuma de que me arrependa. Quanto mais não seja (como sucedeu com a colectânea de poesia coreana traduzida que comprei) ajudaram-me a perceber os limites da minha mundividência.
quinta-feira, 8 de setembro de 2016
quinta-feira, 12 de maio de 2016
Nova revista literária
Confesso não ser grande leitora de revistas sobre livros e literatura. Compro-as e muitas vezes acabam por ficar num canto da sala à espera de vez. Mas esta revista agora lançada (a fotografia é do primeiro número) não é demasiado grande. Traz uma entrevista interessante com Ana Pato (que, confesso, nem conhecia) e um artigo sobre o neo-realismo português que gostei de ler.
quinta-feira, 16 de julho de 2015
Ryzard Kapuscinski
Comprei Travels with Herodotus em
Budapeste há uns anos. Nunca viajo sem um livro mas o certo é que o que levava
na altura não me entusiasmou particularmente. Kapuscinski é polaco e não
húngaro. Fora esse detalhe, foi o livro certo na hora certa e no local certo.
Nele são relatadas as viagens mais emblemática de Kapucinski pelos quatro
cantos do mundo tendo como inspiração a obra de Heródoto que conheceu na
universidade. Mais tarde apercebi-me de que por vezes o jornalista cedia à
tentação de poemizar as notícias, não se atendo à realidade dos factos nua e
crua. O último número da Ler traz uma entrevista com o seu biógrafo (Artur Domoslawski) às voltas
com problemas judiciais por não ter, pela sua parte, emprestado alguma fantasia à
vida familiar de Kapucinski. De uma maneira ou de outra estas viagens com
Heródoto são uma óptima leitura sobretudo para quem gosta de viajar. Para além
do encanto dos relatos está cheio de pormenores práticos relativos a coisas
essenciais mas que muitas vezes só nos ocorrem quando esbarramos
nelas no local.
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