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segunda-feira, 8 de abril de 2019

Paulo Coelho, A espia

Primeiro ponto: simpatizo com Paulo Coelho. Parece-me genuíno na sua forma de estar e apreciei especialmente o seu desprendimento em relação aos direitos de autor que o leva a não ter nada contra as muitas edições piratas dos seus livros. É através delas que muita gente tem acesso às suas obras que, de outro modo, seriam demasiado caras para as suas bolsas. É verdade que Paulo Coelho vende muito. Mas há outros que vendem tanto como ele e não se mostram tão generosos.
Segundo ponto: gostei francamente de O alquimista. Tinha dezoito anos quando o li e nunca esqueci a importância de descobrirmos e vivermos a nossa lenda pessoal. O conceito pode parecer esotérico mas é bem terreno. Porque o mundo está sempre a tentar afastar-nos do nosso caminho e vestir-nos com os objectivos e sonhos (quantas vezes de consumo) do que parece bem e deve ser.
Terceiro ponto: com excepção de O alquimista não gostei de mais nenhum livro do Paulo Coelho. Não cheguei ao fim de Diário de um Mago ou de As Valquírias e detestei O Adultério. Este, pior do que ser um mau livro, é um livro mau que podia ter sido muito bom. Uma tristeza maior, pois.
Quarto ponto: A espia. Ouvi falar bem deste livro e decidi arriscar, mais uma vez. O que dizer? Trata-se de um esboço biográfico de Mata-Hari, uma mulher que ganhou fama como dançarina e cortesã. Também lhe atribuíram trabalhos de espionagem e contra-espionagem. Foram eles que a levaram à morte por fuzilamento. O livro de Paulo Coelho é cauteloso na fórmula narrativa. É parco em descrições quanto ao mundo exterior e limitado quanto aos diálogos. Opta pela fórmula, sempre mais simples, da epístola. Mata-Hari, enquanto aguarda pelo resultado de recurso, escreve uma longa carta destinada ao seu advogado e à filha, explicando a sua vida. O advogado escreve também uma carta procurando reconciliar-se com o seu fracasso. 
     Paulo Coelho procura reabilitar a memória de uma mulher que acabou por ser punida, na perspectiva dele, por ter ousado ser diferente. Apresenta-nos a sua vida e luta para se tornar independente, com a necessidade de se inventar perante uma sociedade em que, apesar do fascínio e popularidade de que gozou, nunca foi aceite ou sequer compreendida. Faz um paralelo interessante entre Mata-Hari e Dreyfus, o oficial judeu injustamente acusado de traição e que acabou por ser defendido publicamente por Emílio Zola com o célebre J’accuse. Apesar de também existirem fortes suspeitas de que Mata-Hari foi injustamente acusada, ninguém correu em sua defesa. Em suma este é um livro escrito de modo simples e leve sobre uma situação de vida extremamente pesada. A meu ver, vale pela tentativa de resgatar, humanizar e problematizar uma vida que passou à História coberta por um manto de desconhecimento e injustiça. E pode abrir a porta a leituras mais profundas sobre essa realidade que não é rara, nem está afastada do mundo contemporâneo.

sexta-feira, 15 de março de 2019

Travessuras da Menina Má, Mario Vargas Llosa


Mário Vargas Llosa é um escritor que me acompanha há muitos anos. Li com entusiasmo na minha adolescência A Tia Júlia e o Escrevedor e A Festa do Chibo na mesma altura em que me encantei por outros nomes da literatura sul-americana, em particular Gabriel Garcia Marquez e Isabel Allende. A Festa do Chibo foi um dos livros que mais me marcou até hoje pela limpidez da escrita e implacabilidade da narrativa que nos reserva surpresas até à última página.
Por isso, foi com gosto que mergulhei nesta sua obra Travessuras da Menina Má. O livro narra uma história de amor que começa no Peru e atravessa o mundo. O protagonista, Ricardo, é um homem só aparentemente banal que realiza o seu sonho de criança: viver em Paris, para onde vai trabalhar como tradutor. Realizar sonhos de criança não é para todos, pelo que logo aqui o romance tem um toque de excepcionalidade. Mas onde a existência aurea mediocritas do protagonista é cabalmente afastada é na paixão que o alimenta desde a adolescência até ao final do romance: a menina má. Os dois conhecem-se na capital do Peru muito jovens e os seus destinos vão-se cruzando ao longo de décadas pelo mundo: Londres, Tóquio, Madrid e, claro, Paris.
De algum modo, a história introduz uma desconstrução de género. O protagonista masculino é a personagem que deseja viver as delícias da vida doméstica e casar, pedido que faz recorrentemente à menina má. Esta prefere uma vida de aventuras, em busca de riqueza e emoções fortes, recusando a vida sem brilho nem ousadia que o seu apaixonado lhe quer oferecer.  
Não é o primeiro escritor a inverter a lógica da mulher sofredora. Somerset Maugham no seu Da Servidão Humana fez o mesmo. Mas são raros os que se atrevem. A qualidade que recordava na escrita de Vargas Llosa surge nas páginas onde narra os estados de espírito do seu protagonista, os prazeres eróticos do casal e as deambulações pelas cidades onde se vão encontrando. Poucos escritores ditos “sérios” relatam interlúdios sensuais, mas Vargas Llosa fá-lo com elegância sem recorrer a floreados.          O livro percorre várias décadas de vida dos dois protagonistas, mostrando-nos as suas alegrias e tristezas, perdas, ódios e paixões, bem como a situação política do seu Peru natal. A acção é-nos narrada apenas pela voz do protagonista masculino, o que é pena, pois nunca conhecemos os pensamentos da protagonista feminina, nem pela sua voz, nem através de um narrador imparcial.
 Num artigo que escreveu há anos atrás Vargas Llosa falou sobre o grande perigo para a escrita actual que se encerra nos movimentos feministas radicais. Terminada a leitura deste seu livro não surpreende essa preocupação. O fim reservado para a protagonista feminina é de molde a fazer soar campainhas feministas, radicais ou não (o que quer que isso seja).  Uma leitura de alguns textos de crítica literária permitiu-me concluir que não estou sozinha nas minhas dúvidas. 
Explicando: um dos grandes mitos do romance ocidental (sobretudo o escrito por homens brancos ao longo de séculos) é o da natureza sofredora das mulheres, preparadas para se sacrificarem ou mesmo morrerem pelos homens que amam e sem os quais a vida não faz sentido. Hoje, é manifesto que esta visão está superada. Nos nossos dias não há romancista que se lembre de por uma protagonista a morrer de desgosto amoroso. É um mito ultrapassado. Mas mesmo os romances escritos por mulheres ao longo dos séculos lançam muitas dúvidas sobre a existência real dessa mulher em desespero absoluto para quem a alternativa ao fim/impossibilidade de relação amorosa é o encontro com a morte. Basta pensar nas protagonistas de Jane Austen, por exemplo.
Mas eis que um outro mito não está ultrapassado: o da liberdade castigada. E aqui confesso que o final que Vargas Llosa reserva para a sua protagonista me deixou a pensar: ela não se limita a morrer. Morre de uma doença dolorosa que lhe afecta os seios (retirados em cirurgia sem que exista a possibilidade de os reconstituir) e mutila a vagina. Como já a protagonista de A festa do chibo sofreu lesões irreversíveis na zona vaginal que condicionaram o seu percurso de vida. Não conheço toda a obra deste escritor, mas sei que este tipo de solução literária não lhe é exclusiva. Por exemplo, para as mulheres protagonistas do livro Zorba, o Grego, para quem o encontro sexual livremente escolhido conduz à morte (o que não sucede aos seus parceiros, que saem antes renovados da experiência). Serão coincidências? Liberdade criativa? Talvez. Mas pergunto: há protagonistas masculinos heterossexuais a sofrerem o mesmo destino? É que eu não me consigo lembrar de nenhum. E isso talvez não seja uma coincidência. 




quinta-feira, 7 de março de 2019

I'll die standing on my feet, Oriana Fallaci



Não acredito em dias de luto para resolver problemas sociais. Acredito em dias de luta que se renovam entre vitórias e derrotas porque a ideia de que podemos instalar o paraíso na Terra é algo que ficou para trás com o fim das utopias. Oriana Fallaci foi uma escritora e jornalista italiana. Nasceu em Florença, viajou pelo mundo com frequência para cenários de tensão (para dizer o mínimo, considerando que fez a cobertura de conflitos armados na América do Sul e Vietname) e acabou por falecer na cidade onde veio ao mundo. Coragem, coragem e coragem foi a mensagem que nos deixou. Em miúda lembro-me de ver em casa dos pais o seu livro Entrevista com a História. Incluía diálogos com Indira Ghandi, Golda Meir, Yasser Arafat e Henri Kissinger. Impressionante, sem dúvida. Mas Oriana não se deixava impressionar pelos ricos e poderosos. Numa viagem recente a Florença encontrei este pequeno livro. Contém a última entrevista que deu na sua vida quando já sabia que o cancro a ia matar. Fala com desassombro sobre a sua vida recheada de episódios que a obrigaram a ser forte e seguir em frente. Não sei se teria a capacidade de resistência desta mulher italiana. Sei que me encontrei numa das suas frases: o mais importante é a liberdade. Um belíssimo livro para recordar Oriana ou para começar a conhecê-la. 

sexta-feira, 1 de março de 2019

Dunbard e as suas filhas, Edward St Aubyn





Em dias mais felizes Dunbar foi dono de um império de comunicação social, com muito dinheiro e poucos escrúpulos. Mas esses tempos já lá vão. Quando o conhecemos encontra-se internado pelas duas filhas mais velhas num lar de idosos algures no campo inglês, a pretexto de que enlouqueceu. Com o mesmo argumento as duas filhas preparam-se para o despojar do seu império de comunicação social. Longe de apreciar a paisagem bucólica que o rodeia, Dunbar anseia por fugir e retomar o poder, dando às duas filhas uma lição e reconciliando-se com a irmã mais nova de ambas, com quem reconhece ter sido injusto. A história deste milionário tem pontos de contacto com a do Rei Lear e não é por acaso. Este livro é o contributo de St Aubyn para uma colecção de homenagem a Shakespeare em que autores ingleses contemporâneos revistam e recriam as suas peças.
         Este foi o primeiro livro de St Aubyn que li e não desmereceu em nada as opiniões elogiosas que tenho ouvido sobre as suas obras. A sua escrita transmite a imensa força de espírito do protagonista apesar da idade, da fragilidade física e da situação desesperante em que se encontra. As partes do livro relativas às filhas de Dunbar são igualmente bem conseguidas. Florence é alguém que ama o pai ainda que rejeite o seu modo de vida. Sente-se, porém, culpada por não ter encetado um esforço de reconciliação mais cedo. Como tantos de nós, deixou passar demasiado tempo. Durante grande parte do livro interroga-se se não terá passado tempo demais. As suas irmãs Abby e Megan têm natureza cruel e perversa. Para quem conhece um pouco a natureza humana o retrato traçado é credível. A maldade suprema não é uma ficção ou um exclusivo das peças do bardo inglês. Qualquer que seja a sua origem, ela faz parte de nós e tem lugar na nossa sociedade, às vezes onde menos suspeitamos. O final do livro é fiel ao sentido dado por Shakespeare à sua peça, conseguindo, contudo manter-nos expectantes até à última linha. O livro é uma bem conseguida homenagem ao bardo inglês: o amor filiar/parental, o peso do passado, a ambição, a amizade desinteressada, a ambição descontrolada e a ausência de escrúpulos passam pelos nossos olhos numa galeria de personagens que nada tem de anacrónico. São bem actuais. Como actual é a influência daqueles que controlam os media e que nem sempre sabem honrar a responsabilidade que têm nas mãos. Tudo temas que surgem nesta obra. 
         Gostei bastante deste livro e posso dizer que fiquei curiosa para conhecer outros títulos desta colecção e para ler outras obras de Edward St. Aubyn.



quinta-feira, 28 de fevereiro de 2019

O direito à preguiça, Paul Lafargue



     Entre as conquistas da Revolução Francesa estava o direito ao trabalho. Mas com o advento da industrialização alguns ideólogos começaram a duvidar dos benefícios do exercício daquele direito atentas as condições da classe operária. Muitas horas de trabalhos (pelo menos 12h), ausência de férias ou fins de semana e má nutrição foram denunciados por autores como Emília Zola (por exemplo no seu livro O germinal) e combatidos por pensadores políticos que viriam a revelar-se cruciais no dealbar do século XX. Paul Lafargue, jornalista e revolucionário franco-cubano, escreveu este pequeno, mas elucidativo ensaio. Um pouco datado, é certo, mas dá-nos uma visão do que eram as condições de vida dos operários do século XIX. A exploração e o embrutecimento são dois dos pilares em que assenta esta denúncia que termina com uma proposta arrojada: a revogação do direito ao trabalho e a sua substituição pela proibição de qualquer pessoa trabalhar mais de três horas por dia. Vejo a ideia com franca simpatia, confesso.

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2019

Rupi Kaur , O sol e as suas flores



"a tua voz transforma o meu coração numa cascata". 

Ocorreu-me esta frase há uns tempos e escrevinhei-a num dos meus cadernos. Interrogo-me: será arte? Serei mais uma poeta num país de poetas? 
A dúvida, que tem o sei quê de delicioso, admito, adensou-se ao ler este O sol e as suas flores. E ocorrem-me novas perguntas: o que é a poesia? Quem pode dizer-se poeta? 
Demorei muito tempo a investigar o fenómeno Rupi Kaur. Alguém que construiu a sua carreira com recurso a redes sociais cria-me algumas reservas, porventura fruto de preconceito. Folheei os seus livros em livrarias e confesso que não me causaram grande impressão. Finalmente, não resisti e comprei este O sol e as suas flores, para leitura mais detalhada. 
O livro, confesso, deixou-me indiferente. É um conjunto de textos sobre abandono, tristeza, recuperação de desilusão amorosa, promessas de auto-estima e cuidado consigo própria e um novo amor. Não sei sequer se poderão, em rigor, ser considerados poemas e não estou sozinha nessa dúvida (por exemplo, ver aqui)
O objecto dos textos são temas com que todos nos identificamos sem necessidade de esforço. Perpassam a mente dos adolescentes e das adolescentes dos nossos dias, pelo menos nas sociedades ocidentais. A forma de expressão da autora calha bem às pessoas da faixa etária dela, que se sentem naturalmente próximas da sua forma de escrita. Leitores de outras idades terão uma posição menos encantada, sobretudo se estiverem habituados a ler poesia. Não está em causa a simplicidade das palavras usadas, pois com bem sabemos há belíssimos poemas que não recorrem a figuras de estilo complexas ou a palavras caras. Basta pensar em poetas populares como António Aleixo ou nos versos que Amália nos deixou. 
     O que me surpreendeu foi a banalidade dos textos que, por vezes, é mesmo confrangedora (por exemplo, "tens tanto/mas queres sempre mais/para de ansiar pelas coisas que não tens/e olha para aquilo que tens/ - onde vive a satisfação" ou "será bem vindo/um companheiro/que seja meu igual"). A autora não fez qualquer esforço na redacção (pelo menos, aparentemente) e não o pede também a quem a lê. Parte dos textos parece saído de um manual de auto-ajuda (como quando escreve "há alguma coisa mais forte/que o coração humano/estilhaça-se vezes sem conta/e continua vivo"ou"não acordas um belo dia e estás transformada em borboleta - o crescimento é um processo"). Os desenhos que ilustram o livro condizem com essa origem. Há alguns poemas dedicados a sua mãe e àquilo de que esta teve de abdicar na sequência do casamento e nascimento dos filhos. Mas tudo muito superficial, quer na forma, quer no conteúdo. No essencial, os textos parecem-me desabafos e manifestações de desejos pessoais análogos aos que tantas outras pessoas têm para si próprias e que reduzem a escrito em diários ou cadernos de apontamentos reservados aos seus olhos. Como a frase da minha lavra com que iniciei este texto. 

Rupi Kaur é hoje a mais famosa das instapoetas, uma categoria de autores que se celebrizou por veicular as suas obras a partir de redes sociais. Perante sucessivas recusas de publicação optou por publicar os seus poemas pagando a edição. Esta opção nada tem de errado. A arte é subjectiva e os critérios de publicação obedecem muitas vezes a objectivos comerciais e não tanto à qualidade do que é apresentado. O seu trabalho e nome tornaram-se conhecidos com rapidez e Kaur já vendeu milhões de livros (deixando as editoras que a recusaram certamente pesarosas). A sua escrita é criticada, bem como a auto-suficiência a que se arroga perante os demais criadores. Mas isso não tem beliscado a sua fama que assenta também numa colagem ao movimento feminista internacional (é uma das autoras lidas no clube de leitura fundado pela actriz Emma Watson). Mas mesmo o seu feminismo parece-me algo artificial. No livro O sol e as suas flores, a autora começa abandonada pelo seu amado, com todos os sentimentos de rejeição inerentes a uma situação dessas e vai evoluindo, abrindo-se à vida e descobrindo o amor próprio. Mas tudo isto desemboca num novo amor. Não que apaixonar-se outra vez esteja errado. O que me parece é que para o final feliz seria suficiente a descoberta de si própria e do seu valor. Com ou sem namorado novo. A mensagem para as jovens leitoras não é "recupera do desgosto e ama-te". É antes "recupera do desgosto, pois vais encontrar alguém que te amará de novo". Isso é maravilhoso, claro. Mas fica um tudo nada atrás do discurso empoderador. 
O que resta perguntar é durante quanto tempo continuará Kaur a produzir best-sellers . Uma coisa tenho por segura: nada de mal pode advir da leitura dos seus livros. Mais amor-próprio e sentido do valor de cada um (a) de nós, só pode fazer bem. Com ou sem namorado/a. E todos e todas beneficiamos do encorajamento à criatividade. Para além de ler, escrever, pintar, imaginar melodias. Enfim, não apenas consumir cultura, mas criá-la, expressarmo-nos como escolhermos, recorrendo mesmo às potencialidades técnicas dos nossos dias. Nesse aspecto, creio que o exemplo de Rupi Kaur só pode ser positivo. Há é poetas melhores, mas isso é todo um outro departamento. 



quinta-feira, 21 de fevereiro de 2019

Erosão, Gisela Casimiro





Uma das minhas citações favoritas é atribuída ao escritor russo Anton Tchekhov: “Qualquer idiota sobrevive a uma crise é o dia-a-dia que nos esgota.” Está aqui uma grande verdade. São as pequenas coisas, o rame-rame, o day in-day out de que falam os ingleses que nos trazem o cansaço e a erosão. Connosco próprios e com os que nos rodeiam. Para fazer face a este estado de coisas e não sermos cadáveres adiados deambulando pelos dias resta-nos encontrar as nossas poções secretas, os nossos encantamentos que nos devolvem a alegria roubadas nos momentos mais difíceis. Que mais não seja pela repetição. Cada um terá a sua terapia. Uma das minhas favoritas é a música. Depois de ouvir uma das minhas canções favoritas de sempre pelo incomparável Prince sinto-me renovada. Outra forma de me reconciliar com os dias é descobrir novos poetas. E assim cheguei a este livro de Gisela Casimiro. Poetisa portuguesa, nascida na Guiné-Bissau, escreve sobre os seus desgastes a as suas receitas para combater os seus efeitos. Este é o seu primeiro livro e nele encontramos as dificuldades do embate com o mundo exterior, com o corpo que todos os dias envelhece, com os afectos que se perdem. E os antídotos. Que vão desde o doce de tomate da mãe a chegar ao fim do dia na praia, passando por aceitar o que só pode ser aceite, para podermos continuar. Resistência e não resignação. Desdramatizar. Às vezes caímos e temos de ser nós a levantar-nos. Outras vezes há uma voz que nos ajuda a reerguer. 
São poemas simples, por vezes com um travo amargo, às vezes com doçura, aqui e ali com ironia (era tão bom conseguir transformar um desgosto amoroso em canções que valem milhões). Mas nunca com desesperança. Afinal, a história ainda agora está no início.

terça-feira, 19 de fevereiro de 2019

Ainda sobre a Índia ...






Se as viagens são um tema apaixonante os périplos pela Índia são um daqueles assuntos que nunca se esgota. Para os ocidentais aquele país foi sempre uma terra de mistérios envolta em fantasia e nem o turismo de massas conseguiu destruir esse encantamento.
Estes dois livros falam, porém, do lado negro dessa viagem.
O primeiro (Loucos pela Índia) foi escrito pelo psiquiatra francês Régis Airault. Durante vários anos exerceu funções no consulado daquele país com a missão de auxiliar no tratamento e repatriamentos dos seus concidadãos que sofressem distúrbios psíquicos graves durante a viagem a terras indianas. O autor distingue entre viagem patológica e viagem patogénica. Na primeira categoria inserem-se as viagens determinadas por distúrbios mentais. A segunda diz respeito às situações em que o contacto com a realidade indiana (clima, experiências de vida e modos sócio-culturais) é de tal forma intensa que conduz a um desequilíbrio mental do viajante. O facto de ter sido necessário ter um psiquiatra de serviço no consulado é já prova evidente do número e gravidade de casos registados. O autor narra vários dos que lhe chegaram às mãos e ensaia algumas explicações para estes resultados infelizes e por vezes dramáticos de viagens iniciáticas.
O segundo livro que surge na foto é como que uma contra face de Loucos pela Índia. Gihta Meta é uma escritora e jornalista indiana. Em Karma Cola (ao que sei sem tradução em português) escreve sobre a quantidade de ocidentais que a partir da década de 60 chegou à Índia, muitos deles decididos a viver uma experiência espiritual encontrando um guru.
       Neste livro, também ele recheado de relatos pessoais, a autora reflecte sobre o mito da Índia espiritual e algumas das mentiras e fraudes de que os estrangeiros são vítimas por conta da sua ânsia em penetrar numa realidade que lhes é totalmente estranha.
O melhor livro que li sobre a Índia escrito por um ocidental foi o de Octavio Paz de que já escrevi aqui no blogue (Vislumbres da Índia). Nele damos conta da imensa complexidade de um mundo que para quase todos nós permanecerá incompreensível. Os livros de que hoje escrevo ajudam-nos a cimentar esta posição. A viagem a um país tão estranho mas tão presente no nosso imaginário encerra vários perigos e nem todos são de natureza material (como o medo de ser vítima de crimes). Ir, sim, mas também saber de antemão que seremos expostos a dificuldades e que devemos sempre guardar humildade em relação a um mundo que se situa nos antípodas do nosso. E ter presente a frase que Boswell atribui ao escritor inglês  Samuel Johnson: He who would bring home the wealth of the Indies must carry the wealth of the Indies with him, so it is with travelling, –a man must carry knowledge with him if he would bring home knowledge. Ou seja, a viagem espiritual é interior e interior apenas. Não vale a pena ir ao outro lado do mundo para procurar o que só pode estar dentro de nós. 




sexta-feira, 8 de fevereiro de 2019

Flâneuse, Lauren Elkin




O fascínio que os norte-americanos têm por Paris é quase um lugar-comum. Talvez isso venha da ligação estreita que criaram com França aquando da sua independência da Inglaterra (foram os franceses quem lhes ofereceu a Estátua da Liberdade, imagem icónica de Nova Iorque). Ou seja fruto da deslocação de intelectuais norte-americanos, como Gertrude Stein, Hemingway e Fitzgerald para aquela cidade. Ou da recorrência da cidade no cinema e televisão. Por exemplo, Sabrina, a protagonista do filme com o mesmo nome de Billy Wilder vai para Paris e torna-se uma mulher sofisticada. Gene Kelly é o protagonista de um dos mais famosos filmes musicais de Hollywood, Um americano em Paris. E Carrie Bradshaw, uma das personagens de O sexo e a cidade, vive dias de desencanto amoroso na capital francesa e é lá que reencontra Mr Big, o seu verdadeiro príncipe encantado.
Lauren Elkin, a autora de Flanêuse, não é excepção ao feitiço parisiense. A autora cresceu nos subúrbios de Nova Iorque e narra a vontade que tinha de viver na capital francesa. Um sonho realizado desde 1999. Primeiro na margem esquerda e agora na margem direita, Elkin é ensaísta, académica e escritora, residente em Paris. Colabora com publicações de renome mundial e tem diversos livros publicados. Este Flâneuse é, em primeiro lugar, uma carta de amor a Paris. Aos seus intelectuais e activistas. Aos seus bairros e lojas. À sua história e ao seu presente.
O livro leva-nos às ruas de Paris, sobretudo. Mas também às de outras cidades como Londres, Nova Iorque, Veneza e Tóquio. A premissa em que assenta é simples: as ruas, como o espaço público em geral, pertenceram sempre aos homens, mesmo nas sociedades ocidentais. Eles saiam para o trabalho, para o café e também simplesmente para passearem na cidade, para a viverem. Ainda é assim, como bem sabemos, em demasiadas latitudes deste mundo. Verificando que o termo flâneur apenas existe na versão masculina do vocábulo a autora inventa o correspondente feminino flâneuse. Os e as que caminham, erram, deambulam, vadiam pela cidade. E é sobre as flâneuses que Lauren Elkin constrói o seu mundo: Virginia Woolf (Londres), Sophia Calle (Veneza), Joan Didion (Nova Iorque), George Sand e Agnès Varda (Paris). O livro é uma confluência de histórias, das ruas das cidades, dos acontecimentos que ali tiveram e têm lugar (com páginas sobre a história das revoltas urbanas francesas muito bem conseguidas) e das mulheres que se notabilizaram pela sua relação com cada centro urbano. Nessa medida, é um livro de excelente leitura, tanto mais que é servido por uma escrita desenvolta e atenta aos detalhes. Esta obra é também uma memória das próprias vivências da escritora no que à vida urbana diz respeito. Recorda a sua infância e juventude num subúrbio de Nova Iorque onde toda a gente se deslocava para todo o lado só e apenas de carro (sobre isto, o pequeno ensaio de George Steiner com o título A ideia de Europa vale por muitas leituras sobre sociologia e arquitectura dos espaços urbanos) e também da sua descoberta de Paris. São igualmente interessantes e bem actuais as suas considerações sobre os protestos levados para as ruas. Lauren Elkin consegue fundir de modo muito feliz momentos do Maio de 68 em Paris com protestos em que ela própria se viu integrada, quer na capital francesa, quer em Nova Iorque (movimento Occupy Wall Street), em páginas de escrita viva e honesta. Já é mais difícil de perceber a relevância do capítulo que dedica à sua estadia em Tóquio, para onde foi tão só para acompanhar um namorado. Grande parte das páginas desse capítulo é dedicada ao esforço que fez para se adaptar à cidade e ao modo de vida do namorado bancário, para si artificial e pouco interessante. O que me parece é que o capítulo em causa surge desgarrado face à totalidade da obra. E que a escritora passou ao lado de um cidade que é das mais interessantes e completas do mundo, designadamente em termos culturais.
Apesar daquele reparo, na sua globalidade, esta é uma obra que vale a pena ler, quer pela originalidade do tema, quer pelo manancial de informação sobre cada um das cidades escolhidas. E porque põe bem em relevo a importância da vivência do espaço público na construção da liberdade.




segunda-feira, 4 de fevereiro de 2019

Eça na Gulbenkian



       Quantos Eças há no nosso Eça? É difícil responder a essa pergunta. Há o crítico social, o gourmet, o viajante por motivos profissionais e lúdicos, o jornalista, o cronista, o romancista. Há o homem da ironia e o homem da sensualidade. O fantasioso que sonhou um mandarim na China ou uma história de deboche entre um português em peregrinação pela Palestina em representação da titi e uma Mary que nada tinha de sagrado. O que identificava os males da Pátria e o sonhava o homem novo em A cidade e as serras ou no conto A catástrofe. Lemos Eça e passeamos pelo mundo, descobrimos sons, sabores, cores e geografias. E personagens com alma travestida das emoções mais nobres e mais vis. Desde os grandes amores condenados, passando pelo sonho de reformar a Pátria sem energia para lá chegar até darmos de caras com os aproveitadores e más línguas das cornetas do Diabo, todos têm o seu lugar no mundo delineado por Eça. Há quem diga que exagerou as cores da crítica e que Portugal nunca foi tão mau como ele o descreveu. Mas não deixa de ser curiosa a persistência da sua presença na vida nacional tantos anos passados. E como certas frases suas caem como uma luva na actualidade. Já para não falar dos prazeres culinários que perpassam as suas páginas, a riqueza das descrições de cenários e de experiências sensuais que para muitos são ainda tabu. Nunca Eça sonhou, se calhar, vir a ter tal influência. 
     Todo o seu universo, inspirado e inspirador para outros artistas, surge aos nossos olhos na exposição Tudo o que tenho no saco na Fundação Calouste Gulbenkian. Quem já conhece Eça de Queirós vai rejubilar. Quem ainda não o conhece sai da exposição com vontade de ir ao seu encontro.

terça-feira, 29 de janeiro de 2019

Karen, Ana Teresa Pereira



         
Quem é Karen? Essa é a pergunta que fica depois de concluir a leitura desta obra de Ana Teresa Pereira. Como em quase todos os livros desta escritora conhecemos as personagens sobretudo pelo universo que elas habitam: os seus livros, discos, filmes e paisagens. Só que nesta obra tais escolhas não surgem como reconfortantes e não servem para unir. Pelo contrário, são os gostos distintos que separam de forma mais evidente Karen e a protagonista sem nome. E que permitem criar a suspeita de que houve uma substituição inexplicável da primeira pela segunda. Como a narradora pretende fazer crer o leitor.
Num primeiro momento, esta leitura recordou-me um outro livro de Ana Teresa Pereira, O Verão Selvagem dos teus Olhos, uma reinvenção de Rebecca de Daphne du Maurier contado pela perspectiva daquela personagem. Mas neste Karen fiquei com muitas dúvidas. Será que Karen e a narradora não são uma e a mesma pessoa? A história narrada na primeira pessoa torna-nos cúmplices da perspectiva da narradora. Num primeiro momento, parecem de facto duas mulheres distintas. São diversos os gostos, a narradora não tem memória de acontecimentos que lhe dizem que Karen viveu, há a suspeita de um crime de contornos algo imprecisos. Mas à medida que a acção avança, a dúvida surge. É certo que a narradora parece lutar para manter a sua identidade. Mas as perguntas avolumam-se: como chegou àquela casa? Quem são Alan e Emily? Se a narradora é prisioneira como explicar a liberdade com que se movimenta, incluindo a possibilidade de ir a Londres semanalmente, como fazia Karen? Estes indícios começaram a fazer-me suspeitar de que, estando a conhecer a história na perspectiva da narradora, poderia estar influenciada pela sua visão subjectivista e pessoal. Confesso que me inclino para esta segunda hipótese. A narradora é Karen, ainda que talvez não consciente disso, porventura por força de uma qualquer doença mental. Mas esta explicação não permite compreender toda a acção. E é isso que torna o livro tão intrigante.
A obra tem um gosto de policial e thriller psicológico. A escrita concisa e fluída da autora prova, mais uma vez, que não são necessárias centenas de páginas, nem o recurso à suspeita de almas do outro mundo, vampiros ou entes fantasmagóricos, para criar um ambiente de tensão que torna o livro uma experiência tão inquietante quanto estimulante.

segunda-feira, 28 de janeiro de 2019

E se parássemos de sobreviver - Pequeno livro para pensar e agir contra a ditadura do tempo



       Este conjunto de ensaios inicialmente publicado na imprensa escrita obriga-nos a pensar sobre o modo como vamos vivendo. A ditadura do tempo, a falácia da realização pelo trabalho, as horas consumidas que não deixam memória nem gosto. O autor é professor de filosofia na Beira Interior. Os artigos que constam do livro são simples, claros, adequados ao leitor comum. Lê-los obriga-nos a pensar sobre muitas coisas. 

segunda-feira, 31 de dezembro de 2018

Antes de acabar o ano ...


Para fechar o ano no blogue recordo aqui cinco livros que me marcaram especialmente nestes doze meses. Todos eles são referidos aqui no blogue, mas, em tempo de balanço, apeteceu-me fazer aqui esta pequena retrospectiva. The heart wants what the heart wants. E esta máxima tem pleno enquadramento no coração de uma leitora.  
O primeiro é de Nuno Rogeiro, um estudo/reportagem sobre os migrantes. Chama-se Menos que Humanos e comprei-o em promoção. É um livro muito bem escrito, objectivo e que nos faz compreender um pouco melhor os fenómenos migratórios que sempre sucederam mas estão agora de novo na actualidade. E também nos permite perceber que podíamos ser nós a fugir do nosso país e a enfrentar a fuga e os seus perigos e incertezas em busca de um mundo melhor.
Walk Through Walls é outra leitura inesquecível. Para além do talento para a escrita, a vida de Abramovich é cheia de acontecimentos, o que torna este livro tudo menos enfadonho. Foi uma leitura que me ocupou numa altura em que estive doente e também por isso adquiriu um significado especial.
Num momento em que tanto se fala da ascensão dos movimentos nacionalistas e de extrema direita vale ainda mais a pena referir as Memórias de uma Falsificadora, de Margarida Tengarrinha. Escrito de forma despretensiosa e clara, é um livro que desmente os que afirmam que em Portugal não existiu fascismo. O que é saber que as autoridades do país se sentem à vontade para matar cidadãos que nada de mal fizeram em plena luz do dia e no centro de Lisboa? O que pode chamar-se a gente que tortura, exila e maltrata homens e mulheres que apenas pretendiam viver em liberdade? Este livro devia ser de leitura obrigatória nas escolas do nosso país.
Outra obra que me marcou especialmente foi Hunger de Roxane Gay. Creio que não tem tradução em Portugal, o que é pena. Foca temas tão importantes como o abuso sexual e suas consequências a longo prazo para as vítimas (um tema que é pouco ou nada tratado entre nós), o peso e imagem corporal e o controlo social do corpo. É escrito na primeira pessoa de forma frontal e aberta.
Por último, O Quarteto de Alexandria de Lawrence Durrell. É certo que em rigor são quatro livros e não um (ainda que haja uma edição em português que os congrega a todos num só volume). Mas não posso deixar de o referir nesta lista. Pela impressão que me causou e pela certeza de que voltarei às suas páginas.
Agora sim, podemos fechar o ano aqui no blogue. 
Obrigada a quem por aqui passa e votos de um Excelente Ano de 2019, com muitas coisas boas, dentro e fora dos livros. 




sábado, 29 de dezembro de 2018

O Quarteto de Alexandria

Não tenho o hábito de fazer planos de leitura. Vou lendo de acordo com a minha vontade e disposição. Para mim a leitura é um prazer e por isso acredito que o melhor critério para ler é ir ao sabor do gosto. Isso não significa que não tenha ambições de leitura, isto é, aqueles livros que gostava de ler. Porque me chamaram à atenção ou porque sempre ouvi falar deles e também desejo conhecê-los e formar uma opinião. Com frequência, o momento de os ler chega com naturalidade. Foi assim com muito do que li e reli de Marguerite Yourcenar ou de Gabriel Garcia Marquez. E com as obras mais conhecidas de Dostoiveski. Outras vezes, tenho, não direi forçado, mas preparado o encontro entre mim e o livro. Foi o caso de Guerra e Paz, de Leon Tolstoi.
No início deste ano formulei o propósito de ler O quarteto de Alexandria de Lawrence Durrell. Muita gente fala deste livro como tendo sido marcante e por isso decidi abalançar-me a esta tetralogia com cenário no Egipto.
Li, pois, com os intervalos que a vontade ditou Justine, Baltazar, Mountolive e Cléa, distribuindo as suas páginas pelas diversas localizações geográficas onde o ano me levou. Em casa ou no outro lado do mundo. No silêncio do meu quarto e na confusão das áreas internacionais de aeroportos, na tranquilidade dos espaços que conheço desde sempre e como lenitivo para a ansiedade que me acomete em cada viagem de avião.
Em todas estas horas e locais fui transportada para uma cidade no sul do Egipto em vésperas da II Guerra Mundial. E que Lawrence tenha conseguido esse milagre abstracção desta leitora e seu transporte no tempo e no espaço já diz muito dele como escritor. 
 O Quarteto é uma daquelas obras que não se apreende de uma só vez. Penso que voltarei a lê-lo (pelos menos, os três primeiros volumes), mas não sei quando.
Os nomes dos quatro livros são os de quatro das personagens cuja história é narrada. Todos se encontram em Alexandria uma cidade cosmopolita, onde Lawrence cria uma vasta galeria de figuras, cada uma das quais candidata a ser protagonista do seu próprio volume narrativo. A meu ver, neste livro, como na vida todos são protagonistas e isso é o que de mais admirável vejo na capacidade de escrita de Lawrence.
Os três primeiros volumes narram os mesmos factos sob prisma de cada personagem. Isto é, os relatos são contemporâneos entre si. O extraordinário é que à medida que vamos lendo cada livro são apresentados factos que dão novo sentido a episódios que já conhecíamos. O que parecia uma história de amor é, na verdade, uma espécie de embuste que cobre uma outra realidade que por sua vez também só se torna compreensível  quando lemos o que sobre ela pensam outras personagens.
Para mim, o volume mais interessante foi Mountolive. Por um lado, foi nele que percebi cabalmente a ligação entre Justine e Nessim. A personagem feminina surge no primeiro volume delineada como uma mulher sensual e adúltera. Mas quando percebi a natureza da ligação dela ao marido, fiquei a pensar que naquela situação, o corpo era secundário, um instrumento perante uma ligação muito mais forte, que é a dos ideais. As suas ligações a Darley e a Pursewarden pareceram-me meramente instrumentais. Por outro lado, aquele volume traduz o fim de uma ilusão para Mountolive. Pareceu-me extraordinária a forma como o escritor conseguiu, num só capítulo, misturar esse facto (pessoal) com a destruição de uma visão idílica da cidade, mostrando o lado mais sujo e vicioso dela. Essa tensão já estava presente nos outros volumes e aliás, perpassa toda a obra. Mas para mim, foi na aventura de Mountolive que ganhou contornos mais vivos.
Justine, Baltazar, Mountolive e Clea. Mas também Darley, Melissa, Pursewarden, Leila, Liza, Pombal e outros ainda que conseguimos imaginar, mas não definir em termos absolutos. Lawrence oferece-nos uma galeria de personagens que são simultaneamente virtuosos e pecadores, histórias de amor que escondem uma intriga política, interesseiros que são afinal idealistas, adúlteros de corpo mas talvez não de espírito. Tradições pagãs que se revelam ao lado de convicções religiosas fortes. Alegrias redentoras e desgostos que seguem com as personagens que não deixam por isso de viver e lutar. Como nos sucede na vida.
A cidade parece claustrofóbica quando seguimos a pena de Lawrence, sobretudo nos três primeiros volumes onde está quase sempre a acontecer alguma coisa. Imagino-a sempre em tons de preto e branco. Excepto no último volume, onde a sinto delinead em tons de azul e branco, esbatida ao longe. 

Uma pequena tristeza, uma cabala, um segredo que se revela apenas a alguns e que continua a ser desconhecido daqueles a quem mais interessaria. Os três primeiros livros parecem um teatro de sombras e só quando as personagens cavalgam pelo deserto que circunda a cidade parece ser-lhes possível (a elas e nós) respirar livremente. O último volume decorre já durante a II Guerra Mundial. E nele pela primeira vez, respira-se alguma felicidade. Mas também ela não é destinada a durar. Ou talvez venha a ser num outro tempo e espaço.
Na leitura de O Quarteto não encontrei uma história definitiva. O quarto volume corrobora isso mesmo. Justine e o seu marido, a criança (que perpassa toda a história e cuja existência encerra um mistėrio), Darley e Cléa, Pombal e outros ainda seguem ao nosso lado. Em Paris, nas ruas de Alexandria ou algures na Suiça. O que Durrell constrói é um imenso tabuleiro de xadrez. E quem o lê é convidado a jogar. O jogo é difícil, mas apaixonante.

sexta-feira, 28 de dezembro de 2018

A propósito do Natal, um regresso a Yourcenar




Na véspera de Natal dei por mim a reler um texto de Marguerite Yourcenar sobre esta época. Em Glosa de Natal (incluído em O tempo, esse grande escultor), Yourcenar escreve sobre a comercialização desta época em detrimento do enalterar dos valores que lhe estão realmente subjacentes: “(…) Trata-se de um nascimento, de um nascimento como todos deveriam ser, o de uma criança esperada, como amor e respeito, trazendo em si a esperança de um mundo melhor. Trata-se dos pobres: uma velha balada francesa canta Maria e José procurando timidamente em Belém uma hospedaria para as suas posses, sempre desprezados em favor de clientes mais ricos e reluzentes e por fim insultados por um patrão que “detesta a pobralhada”. (…) É a festa dos animais que participam no mistério sagrado desta noite, maravilhoso símbolo de que São Francisco e alguns outros santos sentiram a importância, mas que os cristãos comuns desprezam, não procurando neles inspiração”.
Perante o contraste entre estas palavras e o tempo que vivemos poderia ter-me sentido triste. Em vez disso, comecei a recordar a importância de Marguerite Yourcenar na minha vida, o que contribuiu decisivamente para a melhoria do meu estado de espírito.
Esta Marguerite surgiu na minha vida ao mesmo tempo que uma outra, a Duras. Para mim, onde esta última era emoção, carne, lágrimas e sangue, Yourcenar era intelecto, razão, lógica, precisão e certeza. As duas continuam a ser minhas companheiras, pois fazem parte do núcleo de autores que todos os anos revisito. Mas Yourcenar é especial. Nascida em Bruxelas no início do século XX, Marguerite cresceu ao lado do pai (a mãe faleceu pouco depois do parto) e teve nele um interlocutor privilegiado. Foi ele que lhe deu a conhecer os clássicos gregos, Shakespeare e obras de francesas, que a escritora considerou estruturais na sua vida (como as de Racine) e que ambos liam em voz alta. Foi o seu pai quem pagou a primeira edição de um livro seu e foi também ele que a apoiou no seu gosto pelas viagens e por conhecer o mundo.   
 Depois de ler A obra ao Negro e As Memórias de Adriano pela primeira vez, abalancei-me na leitura da biografia que Josyanne Savigneau dedicou a Yourcenar. Foi ali que descobri a paixão pelas peças de Lalique. Yourcenar comprou uma com o primeiro dinheiro que recebeu decorrente da sua actividade como escritora. Por mim, estando as peças de Lalique hoje bem mais caras, resta-me ir contemplá-las periodicamente ao Museu de Arte Antiga da Fundação Calouste Gulbenkian, admirando-lhes a leveza e delicadeza de elaboração. Tenho pouco objectos de desejo. Mas confesso que um pendente feito Lalique é algo que figura nessa lista. Foi também com Yourcenar que senti crescer em mim a vontade de conhecer o mundo, em particular a Grécia. Foi com ela que descobri Kavafis e Virgínia Woolf. Foi também nas suas páginas que encontrei um dos meus heróis de sempre, Zenão, o protagonista de A obra ao negro. O que é a escuridão senão a luz sobre a qual ainda não ousámos debruçar-nos?
As principais obras de Yourcenar são A obra ao negro e As memórias de Adriano (sobre as quais já escrevi aqui no blogue, após uma releitura). Mas há outras que merecem ser lidas. Desde logo, Os Contos Orientais. Yourcenar foi uma viajante apaixonada e recolheu inspiração para estes contos nas suas viagens à Ásia. E também uma obra que li uma vez apenas e nunca esqueci, Alexis ou o Tratado do vão combate. “É quando abandonamos os princípios que convém não esquecer os escrúpulos” é uma das frases de eleição que guia a minha vida e que procuro honrar. Depois, há os seus volumes autobiográficos, em particular O quê, a Eternidade e Os Arquivos do Norte. Mas também as colectâneas de crónicas e estudos que foi escrevendo. Para além de O tempo esse grande escultor, Uma volta pela prisão (relato de viagens, sendo o título uma frase de Zenão) é uma das obras a que sempre volto. Ou os trabalhos de juventude, como Golpe de Misericórdia ou Denário de Sonho. E a enorme (em extensão e conteúdo) entrevista que concedeu a Mathieu Galey, De Olhos Abertos (também já referida aqui no blogue).
Há autores que são importantes num momento da nossa vida e depois deixam de o ser. Sucedeu-me isso com Tolstoi. Há outros de cuja escrita gostamos mas que não apreciamos como pessoas. É o caso da autora de As Brumas de Avalon, considerando o que se descobriu sobre ela após a sua morte. 
Marguerite Yourcenar não me dá esses desgostos. Não lhe são conhecidos segredos obscuros. Nas suas páginas encontro a riqueza de sempre. Na sua vida vejo alguém com qualidades e defeitos, que cumpriu o seu projecto de vida, mas não se escondeu nele, mantendo-se curiosa e actuante no mundo.  Volto sempre a ela, pois, com renovado encanto e alívio. 

quinta-feira, 20 de dezembro de 2018

O burro de ouro, Apuleio


   



     Diz-se que depois dos gregos não há nada de novo debaixo dos céus. De vez em quando sou tentada a concordar. Vivemos um tempo em que a capacidade dos animais sentirem está a transformar o modo como os vemos. Há quem critique esta tendência classificando-a como um antropomorfismo deslocado e há mesmo quem afirme que é um sinal de decadência da nossa civilização. Sinceramente, não percebo este último argumento. Mas sei que a atribuição de emoções e mesmo pensamentos aos animais não é coisa nova no mundo dos livros. Em miúda, fartei-me de chorar com um conto de Miguel Torga sobre um cão agonizante (na colectânea Os Bichos, se não me falha a memória) e vibrei com As memórias de um burro da Condessa de Ségur. Já mais recentemente diverti-me com as aventuras de Bob, o gato cor-de-laranja que encontrou o seu humano nas ruas de Londres e o resgatou da solidão.
O Burro de Ouro é também uma leitura de criança. Li pela primeira vez este livro quando tinha 12 ou 13 anos numa edição de bolso que trouxe de um hipermercado (no tempo em que começaram a vender livros para escândalo dos bens pensantes). Na altura adorei as aventuras de Lúcio, um jovem imprudente que uma feiticeira transforma em burro. É nesta forma que vai passeando pela Grécia, vivendo aventuras e conhecendo novos donos muito diferentes no carácter e na forma como o tratam. Sempre à procura do antídoto para o feitiço que lhe foi lançado.
A nova edição do livro entretanto lançada é mais cuidada e completa. O encanto da narrativa mantém-se. O que Apuleio conseguiu (não sei se propositadamente ou não) foi um exercício de empatia para com os animais, neste caso, os burros. Desconheço se os animais pensam (embora já tenha visto estudos que demonstram que os porcos, por exemplo, têm a mesma capacidade intelectual do que os cães). Mas se pensam ou não, não é mais importante. O que importa é que sentem. Como Lúcio, o protagonista desta história clássica, testemunha em primeira mão. 
        

terça-feira, 18 de dezembro de 2018

Lynn Hunt, Inventing Human Rights - A History




   Este livro é um feliz exemplo de um trabalho simultaneamente instrutivo e de leitura agradável. Lynn Hunt, historiadora norte-americana e professora de História em diversas universidade, como a da Califórnia, debruça-se sobre o relevo da evolução sócio-cultural no emergir dos direitos humanos tal como hoje os conhecemos, solidificados na Declaração de Direitos Humanos de 1948. Neste quadro, escreve sobre o relevo do romance epistolar surgido no século XVII como meio de superação de barreiras sociais e de desenvolvimento da empatia, porta de entrada da preocupação com os demais. Para quem ama livros é entusiasmante descobrir como as obras do romancista inglês Richardson (Pamela e Clarissa) e Julie de Rousseau abriram a porta a um movimento imparável que nos trouxe aos nosso dias. Se dúvidas existirem sobre a importância da leitura na construção da cidadania este livro é a demonstração de que a ligação entre as duas é inequívoca. 
     A Autora debruça-se sobre a história dos Estados Unidos da América e da França, analisando as vitórias e também as lacunas de documentos como a Declaração de Independência do primeira e da Revolução Francesa. O efeito em catadupa da declaração dos direitos humanos é um dos aspectos mais interessantes da obra. A construção daqueles tem uma lógica própria e implacável. A autora explica de que modo os direitos humanos foram sendo alargados a outros grupos (como os negros e as mulheres) porque a mais elementar coerência do sistema o exigia. E também das resistências que esse alargamento foi provocando, quer no âmbito teórico, quer na prática. 
     A edição em inglês tem uma escrita fluída e cheia de conteúdo, só acessível a quem concilia conhecimentos sólidos e grande capacidade de expressão. Há uma edição em português, da Companhia das Letras.  Num momento como o que vivemos em termos mundiais, esta obra é um marco na reflexão sobre os direitos humanos e um estímulo para continuar um trabalho que está longe de estar terminado. 
   

segunda-feira, 17 de dezembro de 2018

Robert Louis Stevenson, Apologia do ócio e ... um inesperado elogio do casamento




Robert Louis Stevenson tornou-se conhecido sobretudo por obras como O Médico e o Monstro e a Ilha do Tesouro, com frequência editadas a pensar no público juvenil. Mas este escritor norte-americano novecentista tem muito mais por revelar. Este livro é um exemplo perfeito disso mesmo. Contempla dois ensaios – Apologia do Ócio (que lhe dá o nome) e Conversa e Conversadores.
Foi o primeiro que me levou a tirar o livro da estante em que estava desde que me foi oferecido no Natal passado. Um das coisas que tenho andado a ler é o conjunto de ensaios de André Barata E se parássemos de sobreviver – Pequeno Livro para pensar e agir contra a ditadura do tempo (editado pela Sistema Solar) e uma coisa levou à outra, digamos assim. Apologia do Ócio é uma desconstrução do grande deus da sociedade moderna – o trabalho. Não há dúvidas para a grande maioria das pessoas trabalhar é a única opção, sob pena de ter de recorrer à caridade para subsistir, à míngua de fortuna pessoal. Também é incontestável que tendo de trabalhar é preferível fazê-lo em algo de que gostamos e onde nos sentimos minimamente realizados. O que Stevenson questiona é o modo como tantas pessoas do seu tempo ( e do nosso, posso acrescentar) embora possam ser profissionais competente perderam a capacidade de se dedicar a qualquer outra actividade “só porque sim”, o gosto, a curiosidade pelos outros e pelas coisas da vida. No fundo, o modo como o trabalho ocupa e esgota cada pedaço dessa pessoa.
“O chamado ócio, que não consiste em não fazer nada mas sim em fazer muitas coisas não reconhecidas pelas formulações dogmáticas da classe dominante, tem tanto direito a afirmar a sua posição como o próprio trabalho” (pág. 11). Stevenson defense ser o ócio um elemento determinante da arte da vida e escreve “O excesso de actividade na escola ou no colégio, na igreja ou no mercado, é sintoma de uma vitalidade deficiente; enquanto a capacidade para ócio implica um apetite ecuménico e uma vigorada identidade pessoal” (pág.21).
Estas palavras sobre a ocupação permanente são de uma actualidade desconcertante. Quanto de nós chegam a casa exauridos de um dia de trabalho exigente, onde nos vimos constrangidos a dar mais horas ao serviço do que aquelas inicialmente contratadas? Mais ainda o tempo do trabalho instala-se para além da presença física. Os telemóveis e os e-mails, são dois dos mecanismos da prisão construída, não conhecendo fins de semana, férias ou feriados. E as crianças? Já me surpreende a quantidade de trabalhos de casa que as mesmas têm. A meu ver, trata-se de um mecanismo de adestramento destinado a prepará-las para aceitarem com naturalidade que o trabalho se prolonga para além do convencionado “horário de trabalho”. Mas há ainda as inúmeras actividades extra-curriculares que espremem cada hora do seu dia. As palavras de Stevenson entroncam nas do filósofo português André Barata: “O sentido de crescimento que se impôs para as vidas adultas nada tem que ver com o amadurecimento, ou com o tornar-se pessoa (1961) de que falava o grande psicólogo humanista Carl Rogers. É, em vez disso, um sentido de mera acumulação, sem nada de transformação, nada de genuíno crescimento (…)” (pág. 100).
O segundo ensaio de Stevenson é sobre a arte de conversação. Uma das coisas que me impressionou nas memórias de Vigée Le Brun que li há pouco foi tempo dedicado à conversa nos seus serões. Em parte, porque tenho pensado como essa arte está a desaparecer. As pessoas, de um modo geral, ouvem pouco. Tenho verificado em conversas em que tenho participado que longe de escutarem o outro procuraram nas palavras deste o eco de si mesmas. Por outro lado, os temas escolhidos são com frequência de uma pobreza franciscana. Stevenson deve ter pensado o mesmo, o que não deixa de ser consolador. O seu ensaio contém instruções precisar para conversar e encontrar conversadores. Rejeita os salões artificiais e é daí que nasce o elogio por si feito ao casamento que não é mais, diz ele, que uma longa conversa.
Para quem não conhecia (como é o meu caso) Stevenson como ensaísta uma surpresa que o autor reserva é a sua defesa dos direitos das mulheres e posição que devem ocupar em sociedade pública e privada. O casamento, escreve, deve ter por fim que “(…) as duas pessoas adaptam e modificam cada vez mais as suas noções para que se complementem as do outro e, com a passagem do tempo, sem que soem trombetas, acabam juntas, de braço dado, a caminho de novos mundos de pensamento” (pág. 84).
Em resumo, estes dois pequenos ensaios são estimulantes e mantêm-se actuais, sendo um bom motivo de conversa, dentro e fora da sociedade conjugal.

sexta-feira, 14 de dezembro de 2018

Élisabeth Vigée Le Brun, Memórias - volume I - os anos de exílio em Itália



Em Outubro de 2011 visitei Milão com o objectivo de ver a retrospectiva de pintura de Artemisia Gentilishi. Foi nessa altura que descobri uma outra pintora desta feita do século XVIII, Elisabeth Vigée Le Brun. Tal como sucedeu com Artemisia surpreendeu-me o seu relativo anonimato nos tempos actuais tendo presente que qualquer das duas foi uma pintora conceituada, entre os melhores da sua época. Na altura encontrei as memórias de Le Brun em italiano e comprei-as. Porém, não é fácil ler na língua de Petrarca e Dante e o livro foi ficando na estante, saindo de vez em quando para ser folheado num ou noutro capítulo. Percebi que Madame Le Brun por força da Revolução Francesa de 1789 se viu forçada a abandonar a França iniciando um périplo pela Itália, Áustria, Inglaterra e Rússia, mas nunca me inteirei dos detalhes dessas viagens. Há umas semanas atrás vi uma edição em inglês destas memórias numa livraria na Baixa lisboeta. Mas, confesso, achei–a um bocado cara. Por esse motivo, não a trouxe. E ainda bem. Porque há duas semanas fui surpreendida com a edição em português da primeira parte dessas memórias.
A primeira parte do livro é composto por um conjunto de cartas dirigidas à Princesa Karukin com quem Vigée Lebrun travou conhecimento na Rússia. Nas cartas a pintora recorda a sua infância e juventude, a vida familiar e o despertar para a pintura. A morte da princesa pôs fim à correspondência entre as duas, mas, instada por amigos a pintora continua a passar a papel as suas recordações.
Estas memórias não têm um conteúdo marcadamente intimista. Le Brun fala dos pais, do marido e também da sua filha, mas o grosso da obra debruça-se sobre a felicidade que foi para si dedicar-se à pintura, as pessoas que conheceu e, uma vez em Itália, as maravilhas da região. São claramente memórias de uma pessoa privilegiada em termos sociais. 
Le Brun casou sobretudo para fugir ao ambiente familiar, após a morte do pai e subsequente segundo casamento da mãe. As linhas que dedica ao marido, pelo menos neste primeiro volume, são poucas e sobretudo relacionadas com o facto dele se apropriar constantemente do dinheiro que ela ganhava. Em relação à filha Julie a situação é diferente. É possível perceber a ternura e dedicação que existia de parte a parte e o orgulho de Le Brun nas capacidades de escrita e imaginação da criança. Aliás, a pintora retratou-as várias vezes juntas e a pequena acompanhou sempre a mãe nas suas viagens.
Le Brun e a filha Julie
A escrita de Le Brun é detalhada, minuciosa e emocionada. É evidente que a pintora apreciou as relações que teve entre os nobres e a própria família real francesa (pintou Maria Antonieta cuja delicadeza e graça gaba), sentindo-se magoada e revoltada com o fim que grande parte deles (que descreve como pessoas amáveis e cordiais, de grande generosidade e espírito) teve após a revolução. A sua descrição da vida das classes sociais elevadas em França é feita com um efeito de cápsula, uma vez que jamais a pintora estabelece qualquer comparação com as dificuldades da generalidade da população. Aliás, esse elemento humano está igualmente presente no relato da sua viagem pela península italiana. Recordando Roma, Parma, Nápoles e Florença Lebrun fala das pessoas que aí conheceu e com grande profusão de detalhes nos encantos estéticos da paisagem e construções italianas. Mas pouco, e quase sempre pondo a tónica no pitoresco, sobre a generalidade da população. Isso não retira em nada o prazer de ler estas memórias. Para além da fluidez da escrita e da riqueza de detalhes elas são também um documento histórico de grande valor. Este primeiro volume foi uma boa leitura. Termina com o anúncio da viagem da pintora e da sua filha para a Áustria. Resta-me, pois, aguardar a publicação do II volume.



terça-feira, 11 de dezembro de 2018

Márcia Ramos Ivens Ferraz, Sózinha no mato



              Como já aqui escrevi para mim os alfarrabistas são uma espécie de caverna de Ali Babá sem risco de encontros com os quarenta ladrões. Numa das minhas excursões de book hunting encontrei este livro de Márcia Ivens Ferraz. É o relato da viagem desta portuguesa que atravessou África sozinha, ao encontro do marido e aqui registou as suas impressões e receios. Com isto ganhou um prémio no XXV Concurso de Literatura Colonial (algo de cuja existência nem sabia até pegar no seu livro). O livro lê-se de uma assentada, sendo recheado de peripécias. E, embora um pouco datado, afasta-nos daquela imagem cinzenta das mulheres portuguesas no Antigo Regime. Uma boa surpresa.