Ontem celebrou-se o Dia Mundial da Poesia. Durante anos não li este género literário. Na escola li os poetas oficiais sem grande gosto. Só mais tarde despertei para a beleza dos trabalhos de autores como Antero de Quental e Fernando Pessoa e seus heterónimos. Na verdade, em matéria de poesia considero-me uma autodidacta. Procurei sozinha, gradualmente, os poetas que me convinham. Não só porque expressavam em palavras o que eu não conseguia dizer, mas porque me abriam mundos e mistérios de cuja existência apenas suspeitava. A minha lista de poetas é grande. Há textos a que regresso ciclicamente ou de que me lembro sem motivo aparente ao longo do dia. Mas estou sempre à procura de novos poetas. São algumas dessas descobertas que deixo aqui, para quem as queira conhecer ou partilhar também as suas.
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sexta-feira, 22 de março de 2019
Ontem foi Dia Mundial da Poesia
Ontem celebrou-se o Dia Mundial da Poesia. Durante anos não li este género literário. Na escola li os poetas oficiais sem grande gosto. Só mais tarde despertei para a beleza dos trabalhos de autores como Antero de Quental e Fernando Pessoa e seus heterónimos. Na verdade, em matéria de poesia considero-me uma autodidacta. Procurei sozinha, gradualmente, os poetas que me convinham. Não só porque expressavam em palavras o que eu não conseguia dizer, mas porque me abriam mundos e mistérios de cuja existência apenas suspeitava. A minha lista de poetas é grande. Há textos a que regresso ciclicamente ou de que me lembro sem motivo aparente ao longo do dia. Mas estou sempre à procura de novos poetas. São algumas dessas descobertas que deixo aqui, para quem as queira conhecer ou partilhar também as suas.
segunda-feira, 11 de março de 2019
sexta-feira, 22 de fevereiro de 2019
Rupi Kaur , O sol e as suas flores
"a tua voz transforma o meu coração numa cascata".
Ocorreu-me esta frase há uns tempos e escrevinhei-a num dos meus cadernos. Interrogo-me: será arte? Serei mais uma poeta num país de poetas?
A dúvida, que tem o sei quê de delicioso, admito, adensou-se ao ler este O sol e as suas flores. E ocorrem-me novas perguntas: o que é a poesia? Quem pode dizer-se poeta?
Demorei
muito tempo a investigar o fenómeno Rupi Kaur. Alguém que construiu a sua carreira com recurso a redes sociais cria-me algumas reservas, porventura fruto de preconceito. Folheei os seus livros em livrarias e confesso que não me causaram grande impressão. Finalmente, não resisti e comprei este O sol e as suas flores, para leitura mais detalhada.
O livro, confesso, deixou-me indiferente. É um conjunto de textos
sobre abandono, tristeza, recuperação de desilusão amorosa, promessas de
auto-estima e cuidado consigo própria e um novo amor. Não sei sequer se
poderão, em rigor, ser considerados poemas e não estou sozinha nessa dúvida (por exemplo, ver aqui).
O
objecto dos textos são temas com que todos nos identificamos sem necessidade de esforço. Perpassam a mente dos adolescentes e das adolescentes dos nossos dias, pelo menos nas sociedades ocidentais. A forma de expressão da autora calha bem às pessoas da faixa etária dela, que
se sentem naturalmente próximas da sua forma de escrita. Leitores de outras idades terão uma posição menos encantada, sobretudo se estiverem habituados a ler
poesia. Não está em causa a simplicidade das palavras usadas, pois com bem
sabemos há belíssimos poemas que não recorrem a figuras de estilo complexas ou
a palavras caras. Basta pensar em poetas populares como António Aleixo ou nos versos que Amália nos deixou.
O que me surpreendeu foi a banalidade dos textos que, por vezes, é mesmo confrangedora (por exemplo, "tens tanto/mas queres sempre mais/para de ansiar pelas coisas que não tens/e olha para aquilo que tens/ - onde vive a satisfação" ou "será bem vindo/um companheiro/que seja meu igual"). A autora não fez qualquer esforço na redacção (pelo menos, aparentemente) e não o pede também a quem a lê. Parte dos textos parece saído de um manual de auto-ajuda (como quando escreve "há alguma coisa mais forte/que o coração humano/estilhaça-se vezes sem conta/e continua vivo"ou"não acordas um belo dia e estás transformada em borboleta - o crescimento é um processo"). Os desenhos que ilustram o livro condizem com essa origem. Há alguns poemas dedicados a sua mãe e àquilo de que esta teve de abdicar na sequência do casamento e nascimento dos filhos. Mas tudo muito superficial, quer na forma, quer no conteúdo. No essencial, os textos parecem-me desabafos e manifestações de desejos pessoais análogos aos que tantas outras pessoas têm para si próprias e que reduzem a escrito em diários ou cadernos de apontamentos reservados aos seus olhos. Como a frase da minha lavra com que iniciei este texto.
O que me surpreendeu foi a banalidade dos textos que, por vezes, é mesmo confrangedora (por exemplo, "tens tanto/mas queres sempre mais/para de ansiar pelas coisas que não tens/e olha para aquilo que tens/ - onde vive a satisfação" ou "será bem vindo/um companheiro/que seja meu igual"). A autora não fez qualquer esforço na redacção (pelo menos, aparentemente) e não o pede também a quem a lê. Parte dos textos parece saído de um manual de auto-ajuda (como quando escreve "há alguma coisa mais forte/que o coração humano/estilhaça-se vezes sem conta/e continua vivo"ou"não acordas um belo dia e estás transformada em borboleta - o crescimento é um processo"). Os desenhos que ilustram o livro condizem com essa origem. Há alguns poemas dedicados a sua mãe e àquilo de que esta teve de abdicar na sequência do casamento e nascimento dos filhos. Mas tudo muito superficial, quer na forma, quer no conteúdo. No essencial, os textos parecem-me desabafos e manifestações de desejos pessoais análogos aos que tantas outras pessoas têm para si próprias e que reduzem a escrito em diários ou cadernos de apontamentos reservados aos seus olhos. Como a frase da minha lavra com que iniciei este texto.
Rupi
Kaur é hoje a mais famosa das instapoetas, uma categoria de autores que se celebrizou por veicular as suas obras a partir de redes sociais. Perante sucessivas
recusas de publicação optou por publicar os seus poemas pagando a edição. Esta opção nada tem de errado. A arte é subjectiva e os critérios de
publicação obedecem muitas vezes a objectivos comerciais e não tanto à
qualidade do que é apresentado. O seu trabalho e nome tornaram-se conhecidos com rapidez e Kaur já vendeu milhões de livros (deixando as editoras
que a recusaram certamente pesarosas). A sua escrita é criticada, bem como a auto-suficiência a que se arroga
perante os demais criadores. Mas isso não tem beliscado a sua fama que assenta também numa colagem ao
movimento feminista internacional (é uma das autoras lidas no clube de leitura
fundado pela actriz Emma Watson). Mas mesmo o seu feminismo parece-me algo artificial. No livro O sol e as suas flores, a autora começa abandonada pelo seu amado, com todos os sentimentos de rejeição inerentes a uma situação dessas e vai evoluindo, abrindo-se à vida e descobrindo o amor próprio. Mas tudo isto desemboca num novo amor. Não que apaixonar-se outra vez esteja errado. O que me parece é que para o final feliz seria suficiente a descoberta de si própria e do seu valor. Com ou sem namorado novo. A mensagem para as jovens leitoras não é "recupera do desgosto e ama-te". É antes "recupera do desgosto, pois vais encontrar alguém que te amará de novo". Isso é maravilhoso, claro. Mas fica um tudo nada atrás do discurso empoderador.
O que resta perguntar é durante quanto tempo
continuará Kaur a produzir best-sellers . Uma coisa tenho por segura: nada de mal pode advir da leitura dos seus livros.
Mais amor-próprio e sentido do valor de cada um (a) de nós, só pode fazer bem. Com ou sem namorado/a. E todos e todas beneficiamos do encorajamento à criatividade. Para além de ler, escrever, pintar, imaginar melodias. Enfim, não apenas consumir cultura, mas criá-la, expressarmo-nos como escolhermos, recorrendo mesmo às potencialidades técnicas dos nossos dias. Nesse aspecto, creio que o exemplo de Rupi Kaur só pode ser positivo. Há é
poetas melhores, mas isso é todo um outro departamento.
quinta-feira, 21 de fevereiro de 2019
Erosão, Gisela Casimiro
Uma
das minhas citações favoritas é atribuída ao escritor russo Anton Tchekhov: “Qualquer
idiota sobrevive a uma crise é o dia-a-dia que nos esgota.” Está aqui uma
grande verdade. São as pequenas coisas, o rame-rame, o day in-day out de que falam os ingleses que nos trazem o cansaço e
a erosão. Connosco próprios e com os que nos rodeiam. Para fazer face a este
estado de coisas e não sermos cadáveres adiados deambulando pelos dias
resta-nos encontrar as nossas poções secretas, os nossos encantamentos que nos
devolvem a alegria roubadas nos momentos mais difíceis. Que mais não seja pela repetição. Cada um terá a sua terapia.
Uma das minhas favoritas é a música. Depois de ouvir uma das minhas canções favoritas de sempre pelo incomparável Prince sinto-me renovada. Outra forma de me reconciliar com os dias é descobrir novos poetas. E assim cheguei a este livro
de Gisela Casimiro. Poetisa portuguesa, nascida na Guiné-Bissau, escreve sobre
os seus desgastes a as suas receitas para combater os seus efeitos. Este é o
seu primeiro livro e nele encontramos as dificuldades do embate com o mundo
exterior, com o corpo que todos os dias envelhece, com os afectos que se perdem. E os antídotos. Que vão desde o doce de
tomate da mãe a chegar ao fim do dia na praia, passando por aceitar o que só
pode ser aceite, para podermos continuar. Resistência e não resignação. Desdramatizar. Às vezes caímos e temos de ser nós a levantar-nos. Outras vezes há uma voz que nos ajuda a reerguer.
São
poemas simples, por vezes com um travo amargo, às vezes com doçura, aqui e ali com ironia (era tão bom conseguir transformar um desgosto amoroso em canções que valem milhões). Mas nunca com desesperança. Afinal, a história ainda agora está no
início.
quinta-feira, 14 de fevereiro de 2019
A pantera, Rainer Maria Rilke
![]() |
| Imagem obtida aqui |
Para
mim, a melhor coisa do mundo é a liberdade (e tarte de chocolate). Por isso, este poema de Rilke
sempre me angustiou. Conheci-o através de um dos meus filmes favoritos, Uma outra mulher. A acção centra-se nas escolhas
de vida de uma professora de filosofia que sempre se guiou pelo pragmatismo e
pela razão. Não é uma comédia mas tem um final esperançoso, o que já não é nada
mau. Numa das cenas centrais ela relê um dos seus poemas mais amados, A pantera
de Rilke, colocando-se no lugar do felino para concluir “you must change your
life”.
Haverá pior coisa do que não ser livre?
Encerrado atrás de grades, reais ou metafóricas, olhando para o espaço que
devia ser o nosso, do outro lado da jaula. Detesto jardins zoológicos por causa
disso mesmo. Ontem vi as fotografias da muita rara pantera negra. Em liberdade.
O seu olhar não esmoreceu, o seu vulto continua andante e flexível e as imagens
que a sua pupila capta não lhe morrem no coração. Reconciliei-me com o poema. Há
panteras livres, como todas deviam ser. Como todos deveríamos ser.
De
tanto olhar as grades o seu olhar
esmoreceu
e nada mais aferra.
Como
se houvesse só grades na terra:
grades,
apenas grades para olhar.
A
onda andante e flexível do seu vulto
em
círculos concêntricos decresce,
dança
de força em torno de um ponto oculto
no
qual um grande impulso arrefece.
De
vez em quando o fecho da pupila
abre-se em silêncio. Uma imagem, então,
na
tensa paz dos músculos instila-se
para
morrer no coração.
segunda-feira, 11 de fevereiro de 2019
Gisela Casimiro, O poema é um campo de batalha.
O
dia em que se descobre um novo poeta fica sempre marcado com a etiqueta de um
bom dia.
O livro chama-se erosão.
sexta-feira, 30 de novembro de 2018
Habitar o vazio, Wang Wei
Esqueçam o frio
lá fora, as compras de Natal, as filas no supermercado ou as multidões no centro comercial. Este é um pequeno livro que nos leva para longe dessas coisas triviais.
Wang
Wei foi poeta na China do século XVIII. Filho de um alto funcionário da corte e
de uma mãe budista a sua vida parece ter sido um confronto entre duas
realidades muito distintas. Por um lado, a sua própria carreira na
administração, por outro o apelo a uma forma de vida diversa próxima da natureza como modo de atingir a sua
verdadeira essência. Entre actos da vida mundana Wang Wei passou um período nas
montanhas. Os poemas que agora nos chegam são por certo fruto desse tempo. Distamos
séculos deste poeta e pela parte que me toca estou longe desse contacto com
natureza. E, todavia, ao ler estes poemas consigo ouvir o som da água junto dos
seixos brancos e sentir o silêncio a perpassar as copas das árvores. E vejo-me,
ainda que por breves instantes aqui:
Todos os dias saímos para colher lótus
A ilhota é comprida, regressamos já ao
crepúsculo
Manejamos a vara com cuidado para não
salpicar
Os vestidos vermelhos dos lótus.
A
tradução e notas desta edição da Licorne são de Manuel Silva-Terra.
quarta-feira, 7 de novembro de 2018
sábado, 18 de agosto de 2018
segunda-feira, 18 de junho de 2018
Os enigmas do amor, Virgílio Saúl Serra de Carvalho
Há
quem diga que o amor não existe, que é uma ilusão, um erro ou um artifício da
biologia. Mas isso é-nos desmentido pela experiência da vida. Todos sentimos já
a alma inundada de ternura ou o espírito e corpo em ebulição por encontros que
a vida nos traz. O amor existe, sem dúvida. E melhor do que defini-lo e
procurar dissecá-lo em abstracto é encontrá-lo no nosso quotidiano. É essa
oportunidade que estes poemas de Virgílio Saúl Serra de Carvalho nos oferecem.
Leio-os e descubro em cada um deles um instantâneo fotográfico, testemunho do
amor que alguém encontrou ou pensava ter encontrado. Ou quis acreditar que
tinha encontrado, como na vida, às vezes, também ansiamos por nos deixar
enganar.
É
no amor que se encontram tantas vezes emoções que nos assustam, como o ciúme, o
despeito ou o medo de o ver substituído pela indiferença. São esses retratos
que encontramos pintados nos versos de poemas como A amante intriguista, A
covardia do amor ou O dia em que o
amor disse adeus. Mas é também é do amor que emergem as emoções que nos
fazem viver, o carinho, o desejo e a saudade. São elas que visitam poemas como O amor incondicional, Pai, porque te foste
embora ou Amor de mãe.
Os Enigmas do Amor
recordam-nos a complexidade da alma humana, os encontros e desencontros da
vida, bem como os sentimentos que vão e vêm. E também aqueles que se revelam,
afinal, perenes, indiferentes à passagem do tempo ou às mudanças de paisagem. Por isso, ao lado do amor romântico vivido ou sonhado, estes poemas conduzem-nos a outros amores, não só por pessoas (progenitores, filhos), mas também por ideais, por um país, por uma religião. São tantos e tão diferentes os amores que dão sentido a uma vida ...
Em
dado passo deste livro Virgílio Saúl Serra de Carvalho escreve “Amar é uma
palavra fácil/ Mas difícil de viver”. É dessas dificuldades, mas também das
bem-aventuranças que as acompanham, que este livro nos fala, numa linguagem
simples e clara, onde todos nos podemos rever.
quinta-feira, 10 de maio de 2018
quarta-feira, 2 de maio de 2018
Lisbon Poetry Orchestra, Poetas Portugueses de Agora
Diz-se que em cada português há um poeta e
talvez assim seja. Mas como em tudo na vida há sempre uns que são mais poetas
do que os outros. A Lisbon Poetry Orchestra reúne cerca de uma dezena de
poetas portugueses contemporâneos. Cada um contribuiu para a criação deste
livro que é composto também por música e desenho. São dois os CD. Num, os
poemas são ditos por actores e outros profissionais da voz. No outro temos
apenas a música. A ideia é que os leitores possam organizar sessões de poesia,
declamando os poemas e fazendo as suas próprias interpretações das palavras
oferecidas. O projecto é interactivo e as declamações podem ser partilhadas na
página criada para esse efeito. Estou ainda a descobrir este livro e não faço ideia se vou gravar qualquer declamação – já li um ou outro em voz alta, porque o
convite é mesmo irresistível. O público é muitas vezes “apenas” consumidor de
cultura (livros, cinema, música). Este projecto tem a ousadia de acreditar que
podemos mesmo ser todos, ao menos um bocadinho, poetas. O que é uma ideia bem
bonita.
terça-feira, 13 de março de 2018
Adília Lopes, Estar em casa
Que dizer sobre este livro? Haverá certamente quem se dedique à exegese dos textos de Adília Lopes, quem contextualize a sua obra e a arrume numa prateleira de tantas escolas e correntes literárias que existem. Não sei. E muito sinceramente não quero saber. Sei que comprei este livro num dia de chuva e que ao lê-lo senti um calor por dentro. A aparente simplicidade a exprimir ideias originais, juízos contundentes que parecem vir ao nosso encontro envolvidos numa gargalhada. Sei que me recordou como é bom escrever, andar de escorrega, concluir que as flores baloiçam. Sei que hoje faz sol e tenho o livro de Adília Lopes na minha secretária. Olhá-lo põe-me um sorriso na cara. Folheá-lo dá-me novo fôlego para prosseguir a semana que quero viver com a alma em surpresa, como a poetisa. Ser criança sempre. Sim, também aqui Adília tem razão. Ser criança sempre.
quinta-feira, 14 de setembro de 2017
quarta-feira, 19 de julho de 2017
terça-feira, 21 de março de 2017
segunda-feira, 20 de março de 2017
quarta-feira, 21 de dezembro de 2016
sexta-feira, 4 de novembro de 2016
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