terça-feira, 2 de abril de 2013

O Mundo de Enid Blyton, Alice Vieira

Enid Blyton e as filhas

Sempre que entro numa livraria não saio de mãos a abanar. Tenho tentado levar a cabo um esforço de contenção, mas os meus pezinhos parecem ter vida própria. Quase sem dar conta conduzem-me à porta de uma livraria. Já que aqui estou, mais vale entrar, ao menos para ver as novidades, penso. E é certo e sabido que há sempre qualquer coisa imperdível e que mais vale comprar já.
Foi exactamente isto que me sucedeu há dias. E não é que entre as novidades estava um livro de Alice Vieira sobre Enid Blyton? Ainda por cima, com uma capa lindíssima, com fotografias dos livros dos Cinco, na edição antiga. Irresistível, claro.
O Nodi passou-me ao lado. Os Sete não me cativaram. Mas li e reli os Cinco e as Gémeas no Colégio de Santa Clara. Já não são livros em que pegue hoje em dia, pois raramente leio literatura infantil. E quando sinto alguma nostalgia vou à prateleira onde guardo a Colecção Azul, recordar os ataques de mau génio do General Dourakine ou as alegrias e tristezas de Sara Crewe.
De qualquer modo, não hesitei quando vi o livro sobre Enid Blyton. E, num par de horas, estava lido. Alice Vieira narra os principais acontecimentos da vida de Blyton e o modo como a sua obra foi recebido ao longo do tempo.
Quando à biografia da escritora inglesa, foi uma surpresa descobrir a sua infância infeliz. E saber que foi uma mãe ausente, tendo traços de personalidade pouco simpáticos. Já algumas das críticas que são feitas à sua obra parecem-me injustas. Apontar-lhe sentimentos xenófobos, racistas ou sexistas, tendo em atenção a época em que viveu é, a meu ver, deslocado. Parece-me também infeliz a ideia de expurgar a sua obra dos elementos tidos por politicamente incorrectos (sobre a actualização da obra de Blyton, podem também ler aqui).
Mesmo que não tenha sido a minha escritora favorita em miúda guardo boas recordações da leitura dos Cinco e das Gémeas. Lembro-me das horas passadas a ler e reler Os Cinco nas Montanhas de Gales ou Os Cinco e o Comboio Fantasma. A liberdade de que as personagens gozavam, as constantes aventuras que acabavam sempre bem, os laços de amizade e os lanches e ceias que pontuavam os livros são memórias gratas da minha infância. Talvez por isso, sem desprimor para a parte biográfica e de análise das obras, também muito interessantes e bem escritas, o que mais gostei neste livro de Alice Vieira foi dos testemunhos recolhidos junto de várias gerações de leitores sobre a importância da obra de Blyton nas suas vidas. E quando fechei o livro pensei que era mesmo bom que fosse editada uma obra semelhante sobre a Condessa de Ségur.

segunda-feira, 1 de abril de 2013

A estante dos outros (VII)



 
           A minha convidada deste mês é Bárbara Soares, editora e coordenadora de eventos. Conheci-a por força de duas paixões comuns, a leitura e a escrita. Actualmente, Bárbara integra a equipa de um projecto relacionado com o mundo da arte e da cultura, intitulado "The Art Boulevard" - http://theartboulevard.org/. O objectivo é criar uma rede de oportunidades e colaborações entre artistas e espaços culturais. A leitura e a escrita são dois dos seus principais passatempos.
         Obrigada pela disponibilidade Bárbara!


1. Qual é a tua primeira recordação literária?
A minha primeira grande recordação literária são "As Minas do Rei Salomão" traduzidas pelo Eça de Queiroz. Desde criança que me lembro de estar sempre rodeada de livros e de nunca adormecer sem ler ou sem me lerem uma história. Existem alguns livros da minha infância de que tenho uma imagem mais presente do que outros, mas creio que a primeira grande memória que me ficou foi a deste livro traduzido pelo Eça. Creio que tinha 10 anos quando o li e fiquei absolutamente fascinada. Devorei-o em 2 dias! Encantou-me não só por ser uma espécie de diário de viagens, mas principalmente por ser uma verdadeira aventura num continente tórrido e por desbravar, onde cada obstáculo me fazia querer virar página atrás de página. 
 2. Indica três livros que te tenham marcado.
Um dos livros que mais me marcou foi "A Festa do Chibo" do Mário Vargas Llosa. Em primeiro lugar, sempre gostei  muito de romances históricos. Talvez pela minha área de formação em Relações Internacionais, tenho sempre um grande interesse por livros que não sejam demasiado "técnicos" mas que, de alguma forma, incidam sobre os temas da minha área. "A Festa do Chibo" retrata o clima de opressão e terror vivido na República Dominicana durante a ditadura de Trujillo que governou o país entre as décadas de 30 e 40. Para mim, é uma obra incrível não só pela forma como o enredo está construído, mas principalmente pela forma como o autor descreve o ambiente da época e retrata as personagens. Apesar da República Dominica ser uma realidade tão diferente da nossa, senti-me absolutamente transportada para aquele ambiente, chegando mesmo a amar e a odiar diferentes personagens, tal é a intensidade com que Vargas Llosa as retrata.
 Em segundo lugar, "A Relíquia" do Eça de Queiroz. É uma obra-prima de ironia e humor e o que mais me fascinou foi a sua precocidade para a época em que foi escrita. Ri às gargalhadas em várias passagens e imagino o choque moral que teria provocado em pleno século XIX. Numa época em que a família, a religião e o convencionalismo eram pilares centrais da sociedade, as artimanhas de Teodorico para tentar abarbatar a fortuna da sua "titi" Dona Maria do Patrocínio são absolutamente hilariantes! Além disso, há neste livro vários pontos de sátira social que permanecem bastante atuais o que, de resto, é uma marca que me encanta em praticamente toda a obra do Eça.
 Por último, o "Terra Sonâmbula". Sou uma grande fã do Mia Couto, não só enquanto escritor, mas também enquanto pessoa, por já ter tido o privilégio de estar na sua companhia por alguns dias. Este livro é um hino ao poder dos sonhos e da vida. É também um retrato de um Moçambique devastado pela guerra, mas onde ressalta a esperança de um menino sem memória - Muidinga - e do velho Tuahir que se torna o seu melhor amigo. Ambos vagueiam nesta terra que nunca dorme, guiados por um diário que Muidinga acredita que o levará de volta à sua mãe. É tocante a forma como se apoiam um ao outro nesta jornada. 
 3. Tens algum ritual ou hábito de leitura?
Não tenho nenhum ritual. Leio em todo o lado, sempre que me apetece ou posso. Sempre gostei muito de ler antes de dormir, mas ultimamente nem sempre é possível. Por isso aproveito para ler também nos transportes públicos. Ajuda-me a abstrair e, como ando sempre com um livro na carteira, é fácil... 
 4. O que não lerias nem que te pagassem o teu preço em ouro?
Acho que não voltarei a ler mais nada de Daniel Silva ou de Dan Brown. Ofereceram-me um livro de cada um deles e as experiências com ambos foram tão más que não me passa pela cabeça voltar a ler mais nenhum. Sei que pode parecer um pouco desmesurado, mas não gostei mesmo e, por isso, tenho relutância em pegar-lhes cada vez que vejo um exemplar novo na prateleira de uma qualquer livraria.
 5. Se tivesses três meses livres e sem quaisquer preocupações que livros escolherias para ler?
Escolheria grandes livros que adoro, para reler: "Os Maias" do Eça de Queiroz, "O Livro do Desassossego" de Fernando Pessoa, “Então Chegámos ao Fim” de Joshua Ferris, "Os Pilares da Terra" e "A Queda dos Gigantes", ambos de Ken Follet. 
 6. O que estás a ler neste momento?
Neste momento estou a ler "A Conspiração de Papel" de David Liss, "Comboio Nocturno para Lisboa" de Pascal Mercier e "Crime e Castigo" de Fiódor Dostoiveski. Leio sempre mais do que um livro ao mesmo tempo porque gosto de variar as histórias.



segunda-feira, 25 de março de 2013

A vida que podemos salvar, Peter Singer

   Não sou ateniense, nem grego sou um cidadão do mundo é uma frase deSócrates em que nos nossos dias somos convidados a rever-nos. Mas ser um cidadão do mundo é mais do que passear pelos aeroportos internacionais, ver cinema fora do circuito comercial e manejar com destreza os pauzinhos que nos habilitam a comer arroz à oriental.
Ser cidadão do mundo implica ter uma consciência global. E é sobre isso que nos fala o livro The life you can save (em Portugal, A vida que podemos salvar). O seu autor é Peter Singer, um dos principais filósofos contemporâneos. Nascido na Austrália, já foi definido como o homem mais perigoso do mundo. Neste livro discute a responsabilidade de cada um de nós, que vive na parte desenvolvida do planeta, para com os cidadãos do chamado Terceiro Mundo. A questão central é analisar o que podemos (e devemos) fazer individualmente para solucionar as questões de pobreza endémica existentes sobretudo em países africanos e asiáticos, afectando actualmente 1,4 biliões de pessoas (podem ler aqui).
Este livro é um exercício rigoroso sobre os deveres éticos de cada um de nós. Está escrito de uma forma desenvolta e clara, pelo que a sua leitura é, do ponto do vista intelectual, um prazer. E mesmo que não se concorde com tudo o que lá está escrito, penso que é indubitável a honestidade intelectual com que as questões são debatidas. Singer coloca questões práticas importantes, mostrando que a filosofia está longe de ser uma matéria estéril e bolorenta. Pelo contrário, é um instrumento essencial para nos posicionarmos no mundo de forma consciente.
As perguntas colocadas não o são apenas na óptica dos deveres do potencial doador. Singer aborda duas questões essenciais e que num país como o nosso (onde todos os dias à porta de supermercados e centros comerciais surgem peditórios para associações virtualmente desconhecidas) até dariam um debate público interessante: transparência e eficácia das organizações não governamentais (ONG). A transparência é o dever dos que recebem donativos mostrarem de que modo é que o dinheiro ou outros bens foram utilizados. A eficácia traduz-se na demonstração de que a actuação da ONG tem resultados práticos reconduzíveis a uma efectiva melhoria das condições de vida das populações que recebem a ajuda.
Na edição inglesa do livro lê-se na sobrecapa que esta leitura vai transformar o modo como pensamos no acto de dar. De facto, lido o livro, tenho de concluir que essa indicação é tudo menos publicidade enganosa. Ler Singer obriga-nos a questionarmo-nos sobre nós mesmos. Um exercício que pode causar algum incómodo, mas que acaba sempre por se revelar útil.

quinta-feira, 21 de março de 2013

A poem a day keeps the doctor away

Van Gogh



      Anton Tchekhov escreveu um dia que qualquer um faz face a uma crise, é o quotidiano que nos deixa extenuados. Concordo com essa frase. Por isso, deixo hoje um poema que sempre interpretei como um repto e um desafio: o de vivermos e sermos nós próprios todos os dias. À medida que avançamos na idade, percebemos que não é tão fácil quanto se poderia pensar. Para além de termos de descobrir quem somos, há ainda toda uma série de obstáculos a ultrapassar para lá chegármos. E, todavia, sermos nós próprios é a única coisa que poderemos verdadeiramente aspirar a ser.
Decidi ilustrar o poema com um quadro de Van Gogh de que gosto muito. À sua maneira, também ele foi um poeta.


Para ser grande, sê inteiro: nada
Teu exagera ou exclui.
Sê todo em cada coisa. Põe quanto és
No mínimo que fazes.
Assim em cada lago a lua toda
Brilha, porque alta viva.

Ricardo Reis

 
 

 

terça-feira, 5 de março de 2013

Em parte incerta, Gillian Flynn


Gillian Flyn

Nick e Amy Dunne conhecem-se em Nova Iorque. Apaixonam-se, casam e durante algum tempo tudo se aproxima o suficiente da perfeição para se considerarem felizes. Gradualmente, porém, este cenário idílico começa a mudar. Ambos ficam desempregados e acabam por ir viver para a cidade natal de Nick no Missouri. É aí, no dia do quinto aniversário do casamento, que Amy desaparece.
É este o ponto de partida da história de Em parte incerta de Gillian Flyn, cuja edição portuguesa tem na capa esta enigmática pergunta “Acha mesmo que conhece a pessoa que dorme ao seu lado?” Bom, o que posso dizer depois de ler o livro é que se espera que quaisquer dimensões ocultas não estejam ao nível do relatado nesta obra.
Embora não leia muitos policiais, as críticas a este eram tão boas que decidi fazer uma incursão nesse território. E ainda bem. Como sucede com todos os bons policiais, sem prejuízo da intriga principal (o desaparecimento de Amy) há várias outras linhas de escrita que chamam à atenção.
Desde logo, o modo como retrata o relacionamento entre Amy e Nick. Aparentemente sólido, assenta apenas num padrão de normalidade que, quando desaparece, contribui de forma decisiva para o correar da vida conjugal. Por outro lado, é patente que Flyn se tenta afastar dos habituais estereótipos, o que é conseguido na intriga principal. Brinca com as fórmulas habituais (como a do marido que se torna o principal suspeito) e introduz constantes reviravoltas e surpresas no enredo, o que torna a leitura emocionante.
O aspecto menos conseguido do livro, a meu ver, é o tratamento das personagens secundárias. Nenhuma delas é desenvolvida de modo a ganhar autonomia. Parecem meros figurantes, não existindo qualquer enredo secundário. Para além disso algumas dessas personagens são modelos de lugares comuns deste tipo de ficção (por exemplo, o pai de Nick falhado nesse papel e no de marido, a atormentar o filho, a vizinha “adoradora” ou a dupla policial chamada a investigar o desaparecimento de Amy, muito próxima das construções televisivas). Quanto à tradução, parece-me que em determinados momentos podia ter optado por palavras que, embora respeitassem o vernáculo original, fossem um pouco mais suaves ao ouvido do leitor. Só lendo a versão inglesa se pode dar uma opinião segura quanto a este aspecto, mas sendo a língua portuguesa tão rica há uma ou outra palavra que poderia ser traduzida de forma menos dura sem atraiçoar o seu sentido. De qualquer forma esta é uma história escrita com fluídez que seguimos sem dificuldades. A narrativa divide-se por capítulos alternativos em que vamos lendo, ora a perspectiva de Nick Dunne, ora a da sua desaparecida esposa.
Como disse, as surpresas são mais que muitas nesta história. E a maior delas está reservada para o último capítulo, com um desenlace cruel para um dos protagonistas e que deixa um amargo de boca ao leitor.

sexta-feira, 1 de março de 2013

A estante dos outros (VI)


A minha convidada deste mês é Teresa Lopes Vieira, escritora. Publicou já Os diários da mulher Peter Pan e Gato Persa Social Club. Para além de outras actividades que já levou a cabo e paralelamente à sua carreira literária é também formadora em diversos cursos de escrita criativa.
O terceiro livro verá a luz do dia ainda este ano. Até lá podemos acompanhá-la no blogue que tem o seu nome.
Obrigada Teresa!
 




Qual é a tua primeira recordação literária?
A Maravilhosa Viagem de Nils Holgersson através da Suécia, de Selma Lagerlöf. Acho que nem sequer sabia ler, porque foi o meu pai que mo leu. No fim, chorei como uma perdida.

2. Indica três livros que o/a tenham marcado e porquê.
As Flores do Mal, do Charles Baudelaire, foi a minha primeira referência literária “séria”, ou seja, mais conscienciosa. Gosto sobretudo do Baudelaire também por causa do conceito de poeta maldito, porque me fez pela primeira vez olhar para a hipótese da arte literária como meio de anti-conformismo social.
Destacaria também O Jogador de Xadrez de Stefan Zweig, uma obra exímia do ponto de vista da história, enredo e da maneira como retrata a angústia humana.
Mais recentemente, haveria imensos. Mas posso indicar, por exemplo, 2666, de Roberto Bolaño; porque me parece que marca um ponto de viragem muito interessante na literatura moderna, traduzindo-se numa visão que acaba por influenciar um pouco quase toda a gente que escreve hoje em dia.


3. Tens um hábito ou ritual de leitura?
Não, é um pouco como calha.

4. Qual o livro que não lerias nem que que pagassem o teu peso em ouro?
O Pantagruel?

5. Se tivesses três meses de folga, sem interrupções ou problemas de qualquer espécie, que livro (s) escolherias para ler?
Talvez o Mahabharata, a grande epopeia indiana, alternando com a Divina Comédia. É daquelas coisas.

6. O que estás a ler agora?
Demonic Males, um ensaio de antropologia sobre símios e a origem da violência humana!