segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

Divórcio em Buda, Sándor Márai


Sándor Márai



Márai nasceu a 11 de Abril de 1900 na Hungria e faleceu aos 88 anos nos Estados Unidos da América. O seu trabalho mais conhecido é As velas ardem até ao fim. Mas este escritor foi prolífico, contando com cerca de 46 livros que lhe permitiram obter reconhecimento como um dos principais escritores da Hungria. Fora do seu país natal acabou por cair num relativo esquecimento de onde só reemergiu a partir de 1992, com a republicação do seu trabalho.
Divórcio em Buda foi inicialmente publicado em 1935. Conta a história de Kristóv Komives juiz em Budapeste, chamado a decretar o divórcio do casal Greiner cujo círculo social partilha. A acção decorre durante menos de um dia, sendo esta uma narrativa com grande intensidade. De uma forma insuspeita, à medida que avança com as tarefas da sua vida quotidiana, Komives vai-se questionando sobre as escolhas que fez ao longo da sua vida. Este estado de espírito acompanha-o nas suas obrigações sociais e familiares, sem que ninguém à sua volta pareça pressentir o que vai dentro dele. Revisita a sua infância, a vida familiar, as condições em que decidiu ser juiz e o pedido de casamento que fez a Hertha, sua esposa. Sobre ele vai avançando um estado de espírito peculiar de difícil definição. Uma espécie de ajuste de contas consigo próprio feito com alguma resignação.
É ao final do dia que se dá o encontro com um dos membros do desavindo casal Greiner. Esse confronto dá a Komives a certeza que lhe faltou durante todo o dia. Embora vários elementos espelhados pelo texto permitam antever o encontro ele surge como inesperado para o protagonista.
O dilema entre o que a vida é e o que deveria ter sido é tratado por Márai de forma realista. O protagonista do livro surge como alguém real e não um herói ou (no espectro oposto) uma caricatura. Mais do que o triângulo amoroso sobre o qual a narrativa se esteia é a dimensão humana daquela personagem que torna este livro especial.

quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

As longas tardes de chuva em Nova Orleães, Ana Teresa Pereira



Terminei de ler o mais recente livro de Ana Teresa Pereira. A acção decorre em Londres no meio teatral, com referências a Tennessee Willians e Um eléctrico chamado desejo. Uma actriz à espera do seu grande papel e um actor/argumentista à espera da actriz certa para resgatar em palco o que não correu bem na vida. A história desenvolve-se entre a chuva, a neve, a fragilidade do talento criador e a possibilidade (ou o medo) do mesmo se ir embora com a mesma inexplicabilidade aparente com que bafeja algumas pessoas em detrimento de outras. Pelo meio, mais uma vez, a possibilidade do amor como forma de resgatar a existência.
Ana Teresa Pereira começou na literatura policial e foi construindo o seu universo próprio e inconfundível que vai alargando em cada livro que publica, simultaneamente misterioso e encantatório. As referências à literatura, ao cinema e à cultura anglo-saxónica fazem parte desse mundo. Cada livro que leio dela parece-me uma variação da mesma história, sem que se torne repetitivo ou maçador. A sua escrita traz inscrito um mistério que ainda não consegui decifrar.  Vou continuar a tentar. Embora quando terminei a leitura deste livro tenha pensado de mim para mim que, se calhar, é melhor aceitar que nem todas as personagens se explicam. Como na vida nem todas as pessoas se compreendem. Algumas permancem um enigma sem que isso diminua o prazer que é estarmos na sua companhia.

segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

Feliz Natal

Imagem daqui


Votos de um Feliz Natal para todos os leitores e leitoras deste blogue!


A sentinela, Richard Zimler


            Negro, negro, negro. Foi desta cor que se me inundou a alma ao ler A Sentinela de Richard Zimler, um retrato sobre o mal nas suas diferentes tonalidades e formas.
O protagonista é Henrique Monroe nascido nos Estados Unidos da América, filho de mãe portuguesa e pai norte-americano. Ele e o irmão mais novo vêm para Portugal ainda miúdos sendo entregues aos cuidados da tia Olívia. Aparentemente, Monroe teve mais sorte do que o irmão. Apesar de ambos terem passado pelo suicídio da mãe e sofrido com o carácter violento do pai, encontramo-lo com a vida construída dentro de padrões considerados como normais: é casado, pai de dois filhos e investigador na Polícia Judiciária. O irmão mais novo não se mostra capaz de fazer o mesmo. Ainda assim, Monroe guarda também cicatrizes da sua infância infeliz. Gabriel é a mais evidente (e mais não digo, para deixar a cada um a possibilidade de o descobrir). O aspecto mais tocante do livro são os retrocessos da acção até à infância dos dois irmãos, com cenas descritas de forma pungente. O mais conseguido, a meu ver, é a ligação feita entre esses momentos da infância e cada um dos irmãos na idade adulta, incluindo o modo como se mantêm unidos e se amparam mutuamente.
            A história do protagonista já chegaria para assegurar ser este um livro marcado pela tristeza. Porém, Zimler vai mais longe. Monroe investiga um homicídio seguindo pistas tão sombrias como as ligações entre os empresários da construção civil e o poder político, a corrupção e o abuso sexual de menores, tudo misturado para compor um retrato de falência das instituições e desânimo dos que nela servem incapazes de combater os que têm mais poder e valerem aos mais fracos. O facto de serem referidos nomes de protagonistas da vida portuguesa torna a narrativa ainda mais credível. Não estamos a ler uma história que se passa numa época não determinada e lá muito longe. A narrativa é antes aqui e agora.  
Na minha opinião este é um romance sobre o mal nos seus vários modos, incluindo o da indiferença à maldade alheia (e ao sofrimento que ela provoca). Sobre as trevas e a luz que timidamente bruxuleia aqui e acolá, apesar de tudo. Pelo livro perpassa um vento de derrota, expresso na incapacidade dos bons levarem a cabo qualquer tipo de luta consistente contra os maus (a dicotomia, à luz do livro, não é maniqueísta).
Se o retrato é realista ou exagerado será matéria para cada leitor decidir. Contudo, uma coisa é clara: esta não é uma leitura de onde se emerja bem disposto ou esperançoso no nosso futuro. Mas seguramente que deixa muita matéria para reflexão. 


sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

A poem a day keeps the doctor away - Sonhos, de Langston Hughes



O poema é de Lagnston Hughes, autor norte-americano nascido em 1902 e falecido em 1967. Não é um poema de Natal. É um poema para todos os dias do ano.  Como não encontrei tradução em português, fi-la eu.

Dreams                                                                          
            Hold fast to dreams
            For if dreams die
            Life is a broken-winged bird
            That cannot fly.

            Hold fast to dreams
            For whem dreams go
            Life is a barren field
            Frozen with snow.

            Sonhos
            Agarra com força os sonhos
            Porque se ele morrerem
            A vida é como um pássaro de asa partida
            Que não consegue voar.

            Agarra com força os sonhos
            Porque quando os sonhos fogem
            A vida é um campo estéril
            Gelado pela neve.  

            E que 2014 mantenha intacta a nossa capacidade de sonhar!

sexta-feira, 29 de novembro de 2013

O Tímido e as Mulheres, Pepetela






Pepetela
    
Pepetela é seguramente um dos escritores africanos de língua portuguesa mais conhecidos, tendo recebido em 1997 o Prémio Camões. O Tímido e as Mulheres é a sua obra mais recente.
Nele é contada a história de Heitor, um jovem aspirante a escritor com pouca sorte em matéria amorosa. Através dele e dos seus amigos, ficamos a conhecer o dia-a-dia da sociedade angolana. Os efeitos da guerra, as desigualdades sociais e a corrupção (esta última omnipresente em todo o contexto) são narrados de forma consistente, como sendo parte integrante da realidade daquele país. No entanto, através da sua escrita, Pepetela foge aos estereótipos, traçando antes um retrato de personagens humanas, com qualidades e defeitos. A crítica contundente que perpassa o texto não cai, assim, em maniqueísmos.
Para além disso, para quem, como é o meu caso, leu ainda pouca literatura africana lusófona, é um prazer seguir as descrições que Pepetela faz da natureza e da cultura do seu país. Numa outra vertente, também gostei muito da construção frásica, juntando expressões angolanas com as do português que por cá falamos. Para além de Heitor e dos seus amigos, acompanhamos ainda de perto Marisa, uma locutora de rádio cuja voz sensual prende muitos dos habitantes de Luanda e cuja presença vai entontecer Heitor. O encantamento é mútuo até porque este é um livro também sobre desejos, assumidos ou apenas adivinhados.
Marisa é uma mulher que gera várias paixões e é também sobre elas a história narrada, com os seus avanços, recuos e culpas, próprias e de terceiros. Quanto ao final apenas se pode dizer que é consentâneo com o realismo que perpassa todo o texto. Não é previsível, mas coerente. E deixa-nos a pensar sobre o sentido oculto de alguns actos de aparente altruísmo. Na verdade, quantas vezes não há aí um detonador de culpa para o seu beneficiário?

quarta-feira, 27 de novembro de 2013





De entre tantos critérios para organizar uma biblioteca nunca tinha pensado neste: arrumar os livros tendo por critério as cores das respectivas lombadas. Para ver aqui.