quinta-feira, 19 de junho de 2014

Dizem que Sebastião, João Rebocho Pais

A narrativa tem como protagonista Sebastião Breda, um executivo português. Depois de anos dedicado a uma bem-sucedida carreira na área comercial o herói decide recuperar o tempo perdido e convidar para jantar uma pela qual se sente atraído há vários anos.  Mas o que Sebastião imaginou como o prelúdio de uma noite triunfal vem a revelar-se uma pesada derrota, cujas consequências afectam não só a sua auto-estima, mas também a sua saúde.
É na sequência de tais atribulações que Sebastião decide tirar um ano sabático. No decurso do mesmo renova o seu gosto pela literatura, pelo amor e pela vida que tinha perdido entre gráficos e demonstrações de resultados. Na sua recuperação o protagonista vai contar com a ajuda de várias figuras emblemáticas da literatura portuguesa, como Luís de Camões, Eça de Queirós e Antero de Quental, entre outros.
Para além do reencontro com nomes conhecidos da história portuguesa acompanhamos o modo como Sebastião Breda vai ganhando gosto pela aventura que é a vida diária, em particular o seu encanto com as viagens de metro em Lisboa. E a convicção de que não há vidas banais e que todos aqueles com quem nos cruzamos têm uma história para contar ainda que nunca a venhamos a ouvir.
Quando terminei a leitura deste livro senti-o como sendo um pouco ingénuo, em particular no modo como está construída a personagem de Sebastião Breda. Pareceu-me que quem dedicou, como é o caso daquele, toda a sua vida à busca do sucesso material e benefícios daí decorrentes, talvez não desistisse com tanta facilidade do seu lugar dourado em busca de um sentido alternativo para a sua existência. Por outro lado, e como bem dizem os franceses, il faut de tout por faire le monde. Por isso, que sei eu? Independentemente de se reconhecer maior ou menor consistência interior à personagem principal, a verdade é que este livro cativa pela sua simplicidade e boa disposição e que seduz pela coragem de uma final feliz. E tem também a virtualidade de nos recordar de que a necessidade de ganhar a vida não nos deve desviar de valores que foram sempre cultivados nas letras portuguesas e que devem continuar a ser transmitidos, mesmo se vivemos tempos em que a tecnologia, mais do que um meio para realizar fins, é vista como um fim em si mesma.  

segunda-feira, 16 de junho de 2014

A estante dos outros: Ana Margarida Chora



 

         Hoje é dia de revelar as escolhas literárias de Ana Margarida Chora. Professora e  investigadora na área da literatura medieval é autora de várias publicações nessecampo, incluindo  Lancelot - do mito feérico ao herói redentor. Para além dos trabalhos científicos é ainda poetisa tendo publicado Janela sobre o tempo.
  
1. Qual a tua primeira recordação literária?
A minha primeira recordação literária remonta a um tempo anterior à aprendizagem da leitura. Quando eu tinha quatro anos, a minha mãe leu-me repetidas vezes (certamente a meu pedido) o livro Anita e o Dia do Aniversário, de forma que eu o memorizei palavra por palavra, vírgula por vírgula. E reproduzia a leitura mimeticamente, olhando para o livro e virando a página no sítio correspondente. As pessoas ficavam admiradas com o facto de uma criança tão pequena já saber ler e tão bem! Mas os meus pais respondiam que eu o que realmente sabia era o livro de cor.
Digo recordação “literária” por se tratar de literatura infantil. E “leitura” porque não é preciso saber ler para, na verdade, ler. É preciso, sim, saber ouvir. Basta pensarmos na Literatura Tradicional, que sobrevive através da oralidade e cujos agentes, na maior parte dos casos, não sabem ler. Ou nos tempos em que nem toda a gente tinha acesso à alfabetização e uma pessoa letrada era suficiente para ler um livro aos demais, que ouviam atentamente. Porque quem ouve também lê. Infelizmente, a transmissão oral da literatura é cada vez menos praticada, o que gera uma série de problemas inerentes não só a hábitos de leitura como culturais. Está na base da falta de concentração, do desprezo da memorização e do desrespeito pela palavra oral que, lamentavelmente, cada vez tem menos importância devido ao privilégio da palavra escrita, levando ao aumento de burocracias e ao surgimento de uma sociedade literariamente empobrecida.
 2. Indica 3 livros que te tenham marcado e porquê.
É difícil seleccionar um número restrito de livros entre tantas leituras que contribuíram para a formação da minha personalidade em termos literários... Mas, sem desprimor de muitas outras obras igualmente importantes e que possam ter-me marcado, vou referir uma de cada género, procurando abarcar dimensões marcantes da Literatura Universal e do imaginário literário.
Em primeiro lugar, do ponto de vista narrativo, gostaria de aludir aos contos das Mil e uma Noites, traduzidos pelo Dr. Joseph-Charles Mardrus do Árabe para Francês (que é a minha tradução de eleição, sensual e requintada, por oposição à de Antoine Galland, mais racional e clássica), constituindo uma das obras-primas da Literatura Universal e que, para mal das referências literárias dos nossos dias, poucos leram.
Relativamente ao texto dramático, indico a Salomé de Oscar Wilde, um ícone da estética simbolista que, sendo um tema universal da Antiguidade, se difundiu singularmente no âmbito artístico em todas as vertentes, influenciando as artes plásticas, a ópera, a dança, o cinema, bem como outras recriações literárias, nomeadamente poéticas.
E quanto à poesia, posso nomear algo “nosso” e fundador, que desafortunadamente está a ser relegado para um plano praticamente omisso. Trata-se do Cancioneiro da Ajuda, em Galego-Português, editado por Carolina Michaëlis de Vasconcelos, contendo Cantigas de Amor dos nossos trovadores e os Lais da Bretanha, cuja leitura influenciou, já há muitos anos, o meu gosto pela Literatura Medieval. Aliás, foi uma das minhas primeiras aquisições da minha biblioteca de textos medievais.
 3. Tens um hábito ou ritual de leitura?
O hábito define-se mais por aquilo que não faço quando leio. Contrariamente à maioria das pessoas que aproveita a praia ou o campo para ler, eu geralmente não consigo. E é muito raro ler deitada. Gosto de separar os momentos de lazer e retirar de cada um o que lhes é próprio. A leitura requer uma concentração discursiva que qualquer ambiente aprazível pode dispersar, assim como qualquer forma de relaxamento. Para mim, ler não é um descanso. É um trabalho que conjuga muitos afazeres ao mesmo tempo, que vão da compreensão da linguagem ao estímulo da imaginação, convocando referências que se articulam em prol de uma experiência muito individual e insubstituível.
 4. Qual o livro que não lerias nem que te pagassem o teu peso em ouro?
Não leria um livro que prejudicasse a leitura prioritária de outro. Não é possível ler todos os livros e muitas vezes já é complicado ler aqueles que carecem de mais atenção da nossa parte. Não creio que os livros tenham todos a mesma importância. E por isso há que fazer selecções a todo o momento. É preferível ler um bom livro num determinado espaço de tempo e aprender com ele do que ler uma dúzia que não valha a pena, que não traga conhecimento e que não ajude a crescer interiormente. Não tenho qualquer pudor em renunciar a leituras que não me interessam. O problema dos nossos dias é as pessoas não fazerem as melhores escolhas. Porque não se lê pouco. Antes pelo contrário. Lê-se é mal.
 5. Se tivesses três meses de folga sem interrupções ou problemas de qualquer espécie, que livro (s) escolherias?
Leria a Guerra e Paz de Tolstói, de que tenho uma linda edição herdada do meu avô, e que nunca me aventurei a ler por achar que ia ter sempre algo que interrompesse a leitura de semelhante colosso... Os profissionais do ofício das letras nem sempre se podem dar ao luxo de ler uma obra descomunal de seguida, porque há outras cuja primazia se impõe.
 6. O que estás a ler agora?
Estou a reler as Prophecies de Merlin, por necessidade de trabalho académico. Já li esta obra do século XIII, em Francês antigo, mais do que uma vez, mas agora estou a desenvolver uma pesquisa cujos elementos principais se encontram neste texto arturiano em prosa. E cada vez que releio encontro novo material. Isto porque nunca se lê um livro duas vezes da mesma maneira nem se lê a mesma coisa, já que a leitura está associada à aquisição do nosso universo referencial. Quando lemos, aumentamos as referências do nosso mundo e o modo como nos relacionamos com ele muda com o nosso conhecimento. É por isso que as leituras de um mesmo livro são infinitas.

domingo, 1 de junho de 2014

Anita aprende a ler









          Deixo aqui uma homenagem à Anita uma das minhas recordações de infância de que guardo boa memória. Quando eu lia estes livrinhos (parecem-me tão pequeninos agora que já sou grande) não se ouviam ainda as vozes que a acusam de ser uma colecção sexista e redutora. Não podia discordar mais dessa ideia. Como tantas meninas da minha geração também recebi, entre títulos tão diversos com Anita vai ao teatro ou Anita aprende a nadar, a Anita Dona de casa. Não me lembro de não ter gostado do relato desse dia em que a Anita substituiu a mamã nas tarefas domésticas. Mas não lhe segui o caminho. Em compensação percebi muito bem a sua absoluta necessidade de aprender a ler. E nunca mais parar.
            Feliz Dia da Criança. E que este dia tenha cada vez mais crianças de todas as idades a celebrá-lo por esse mundo fora.

 

segunda-feira, 26 de maio de 2014

O Rei do Monte Brasil, Ana Cristina Silva



Sabemos que a glória neste mundo é transitória. Hoje cavalgando o sucesso, amanhã atirados para um canto, esquecidos de tudo e de todos. O Rei do Monte Brasil é mais uma ilustração dessa máxima, profusamente ilustrada na nossa história.
O livro acompanha o tempo final de dois homens: Gurgunhana e Mouzinho de Albuquerque. O primeiro foi um poderoso régulo africano que procurou manter um estatuto de alguma independência apesar das investidas portuguesas e inglesas. O segundo foi um homem do exército português novecentista com vasta carreira em Moçambique. Foram adversários e o segundo acabou por subjugar o primeiro em nome de D. Carlos. Em comum tinham o gosto pelo poder. E a vida reservou-lhes a ambos um final parecido longe desse gosto e da glória de que chegaram a desfrutar. São os últimos passos de cada um e as recordações que guardam dos tempos em que as suas vidas eram diferentes que constituem o tema central deste livro.
Este é um romance histórico em que a autora procura levar-nos numa viagem ao interior de cada um destes homens. No que a Mouzinho de Albuquerque diz respeito a parte mais interessante é a introspecção que vai fazendo no que é o último dia de sua vida, embora seja pena que não se desenvolva um pouco mais a sua interioridade, em particular a paixão que aparentemente nutria por D. Amélia. Já no caso de Gurgunhana é traçado um fresco sobre o que foi a sua infância e juventude, incluindo o grande amor da sua vida. As suas características pessoais, bem como o seu projecto político são expostos com detalhe e vivacidade. E foram as páginas que lhe são dedicadas as que mais gostei do livro.
Mouzinho e Gurgunhana são os narradores e verdadeiramente as únicas personagens do livro. Todos os outros perpassam de forma mais ou menos fugaz pelas páginas desta obra e sempre na visão que deles têm os protagonistas. Este facto e a circunstância de não existirem diálogos, sendo cada capítulo um monólogo, ora de Mouzinho, ora de Gurgunhana, torna o livro de leitura mais difícil. O aspecto mais conseguido é o fresco traçado sobre a história africana, bem como as civilizações que lá existiam antes da chegada dos portugueses. Ficam afastadas as visões simplistas que nos calhavam em sorte na escola. E só por isso já vale a pena conhecer este livro.  

segunda-feira, 19 de maio de 2014

Pedro Bezukhov vislumbra o amor (Guerra e Paz)

Há aquele momento na vida em que, ainda derrotados por um qualquer episódio nefasto, vislumbramos uma esperança, qualquer coisa que nos diz cá dentro que a nossa sorte vai mudar. É esse momento precioso que Tolstói descreve de forma magistral para Pedro Bezukhov:

“Estava frio, o céu limpo. Sobre a meia escuridão das ruas, sobre os telhados negros, era o céu nocturno e estrelado. Pierre, olhando apenas para o céu, não sentia a baixeza insultuosa de todas as coisas terrenas, tão longe das alturas em que lhe pairava a alma. Ao entrar na Praça Arbátskaia abriu-se-lhe diante dos olhos o enorme espaço escuro do céu recamado de estrelas. Quase no meio daquele céu, por cima do Bulevar Pretchístenski, estava parado o gigantesco cometa, rodeado por todos os lados de salpicos de estrelas; aquele cometa de 1812 distinguia-se de todas as estrelas por estar mais perto da Terra, pela sua luz branca e pela sua causa comprida e levantada; e, dizia-se, pressagiava horrores e o fim do mundo. Mas aquela estrela clara de longa causa irradiante não provocava em Pierre um sentimento de horror. Pelo contrário, olhava com alegria e lágrimas nos olhos para aquela estrela clara que, tendo percorrido a uma velocidade indizível, na sua trajectória parabólica, os incomensuráveis espaços, parecia, qual flecha espetada na terra, ter-se cravado no ponto do céu negro que escolheu e ficado ali, erguendo energicamente a cauda, luzindo e brincando com a sua luz branca no meio de inúmeras estrelas cintilantes. Parecia a Pierre que esta estrela correspondia plenamente ao que se passava na sua alma aplicada, animada e desabrochando para uma vida nova.”
                                                                             L. Tólstoi Guerra e Paz, Livro II, pág. 429

segunda-feira, 12 de maio de 2014

Psicanálise dos contos de fadas, Bruno Bettelheim



          Um dos grandes luxos da vida é o estudo gratuito. Isto é, a possibilidade de nos ocuparmos de um tema apenas porque ele nos interessa e não porque temos de encontrar uma resposta para um problema imediato que alguém nos colocou, designadamente na vida laboral. Foi a esta investigação sem propósito que me dediquei este fim de semana. Tirei da estante A psicanálise dos contos de fadas de Bruno Bettelheim e dediquei-me à leitura do capítulo relativo ao ciclo do animal noivo, bem consciente do privilégio que é ter umas horas para dedicar a tal fim.
            Bettelheim nasceu na Áustria em 1903 e veio a falecer nos Estados Unidos da América. As suas origens judias valeram-lhe um período de cativeiro num campo de concentração nazi. Soltou no âmbito de uma amnistia (1939) rumou a Nova Iorque, aí tendo trabalhado como psicólogo, psicanalista e escritor. Não foi uma figura isenta de controvérsia. Deixou numerosos livros, sendo A psicanálise dos contos de fadas o mais conhecido. Nele analisa as histórias de encantar cuja origem vai muito para além do entretenimento do público infantil a que hoje aparentam estar limitadas. Bettelheim pôs em relevo o carácter iniciático que está subjacente a contos com que todos crescemos, designadamente o Capuchino Vermelho, a Gata Borralheira ou a Branca de Neve. Todas estas histórias têm diferentes versões existentes em diferentes espaços culturais, o que já de si encerra um mistério. Mas, para além disso, seguir o sentido que Bettelheim dá a estes contos e o modo como os descodifica, é um exercício próximo do encantatório. Em determinados momentos sentimos que estamos a descobrir uma parte de nós.
São vários os autores que defendem ser a interpretação de Bettelheim limitada, por ser circunscrita à autonomização afectiva e erótica do ser humano. Há quem sustente que o alcance destes contos vai muito para além dessa dimensão. Pode ser que assim seja. Mas isso não retira interesse às teses de Bettelheim. Apenas convida a encontrar outros pontos de reflexão.
Dediquei a tarde de domingo a ler sobre o ciclo animal-noivo. Que histórias lá estão? O Rei Sapo, o Porco Encantado e a Bela e o Monstro, entre outras. Através delas Bettelheim ensaiou uma reflexão sobre crescimento e desenvolvimento pessoais, esterilidade do narcisismo e o que significa amar o outro. E foi nestas linhas que encontrei resposta para uma pergunta que ainda nem tinha colocado a mim própria. O que só mostra como os livros nos levam longe, mesmo sem sairmos do sofá.
Como disse Eça de Queirós (totalmente insuspeito pois não ia atrás de histórias de encantar) sob manto diáfano da fantasia encontramos a nudez crua da realidade. Por mais improvável que ela seja num domingo à tarde.