sexta-feira, 11 de julho de 2014

A poem a day keeps the doctor away: Jorge de Sena




Imagem retirada daqui

 
              É cada vez mais avisado não ver o telejornal. Mas se cairmos no erro de ir ver como está o mundo de acordo com as televisões, podemos sempre contrariar os efeitos dessa nossa imprevidência com este poema de Jorge de Sena:

            Não posso desesperar da humanidade. E como
            eu gostaria de! Mas como posso
            pensar que há povos maus, há maus costumes?
            A América é detestável. Mas deu – americanos –
            Walt Whitman e Emily Dickinson. Posso
            não confiar neles? A Rússia é
            detestável. Mas Tolstoi é tão russo!
            São maus os japoneses? Como podem
            sê-lo, se têm Kurosawa e o Sr. Roberto
            que me vendia hortaliças no Brasil?
            E o meu Brasil, tão infeliz amor, e tão
            ridículo? Mas não são brasileiros Euclides
            e o coração dos meus amigos? E
            Portugal, como pode ser mau e detestável,
            se mesmo eu que amo sobretudo o vário mundo,
            o amo – ao mundo – como português?
            A humanidade e as pátrias são uma chatice, eu sei.
            Mas como posso desesperar delas, desde que
            não sejam para mim o gesto ou as sardinhas,
            o feijão ou o sirloin, ou a terrível capa
            dos usos e costumes, da vaidade,
            mas uma forma de ser-se humano e solitário
            acompanhadamente?

                                                                             In 40 anos de Servidão, pág. 96.



segunda-feira, 7 de julho de 2014

Se eu fosse a Audrey Hepburn





Imagem retirada daqui


Acordei assim. Com uma imensa vontade de ficar esquecida do mundo com um livro entre as mãos. Sem dar importância a horários e aos sempre desafiantes problemas da vida contemporânea que teimam em aterrar na minha secretaria. Mas pronto, não vale a pena lamuriar-me. As férias estão quase aí!  





sexta-feira, 4 de julho de 2014

O despertar, Kate Chopin


Um dos temas da literatura ocidental do século XIX é o descontentamento da mulher casada de classe média/média alta com a sua situação. Gustave Flaubert deu o pontapé de saída com Madame Bovary. Apesar do escândalo causado não só a personagem foi inspirada num caso real, como deu início a um desfile de descontentes com a vida que lhe coube em sorte e que afinal, num primeiro momento, parecia ser tudo aquilo a que uma mulher poderia desejar. Maria Luísa a protagonista de O Primo Basílio é a representante portuguesa (publicado em 1878) e Ibsen deu ao mundo Nora Helmer desenhada na peça A Casa da Boneca (1879). Tudo obras que escandalizaram o público da época.  
O Despertar (entre nós publicado pela Relógio d'Água) é o primeiro romance norte-americano que trata essa temática. Edna Pointellier, a protagonista, é casada com um marido agradável q.b., mãe de dois filhos e goza de um confortável nível de vida. Logo nos primeiros capítulos do livro percebemos, porém, que as suas escolhas foram fruto do acaso e de alguma imaturidade. E, pior ainda, não lhe causam satisfação. É como se a protagonista estivesse à espera de um acontecimento que a fizesse repensar a sua vida. Há já uma insatisfação mas ela está latente, não concretizada, desde logo por Edna não conseguir vislumbrar qual a alternativa à vida que leva. 
Mas isso muda quando conhece numas férias de Verão Robert Lebrun. A recordação desse encontro acaba por lhe despertar sentimentos mais profundos e a vontade de alterar o curso da sua existência. O livro permite acompanhar o processo de descoberta dessa mulher ao encontro de quem é para além do papel que desempenha por força do normativo social. É um relato sensível que não nos poupa às desilusões, ambivalências e solidão vividas pela protagonista, num livro que antecipa na literatura norte-americana outras obras marcantes sobre a mesma temática (Henry James com Retrato de uma Senhora e Edith Wharton com a Casa da Felicidade, ambos sobre o destino de mulheres solteiras que não se revêem no casamento, contrariando o que delas é esperado e a "ordem social das coisas").  
Quanto a Edna, a antevisão da sensualidade que lhe foi negada, a existência de interesses próprios que não se coadunavam com a vida familiar e a coragem de tentar fazer valer os seus sonhos e ambições, tornam-na uma personagem cativante, de cujo destino não nos conseguimos desinteressar.
À semelhança das obras de Flaubert, Eça ou Ibsen também O Despertar causou desassossego aquando da sua publicação. Na verdade, embora pouco conhecida entre nós Kate Chopin (1850-1904) é uma das mais importantes escritoras norte-americanas e antes de publicar este livro tinha já fama como autora de contos para crianças e adultos. Mas este seu romance causou escândalo na sociedade norte-americana, tendo sido banido. O que não surpreende porque é um livro que questiona e ameaça a estrutura da sociedade tradicional e nessa medida não pode deixar de causar anticorpos. Aliás, se o lermos atentamente, apesar do muito caminho percorrido desde a sua publicação, ainda conseguimos encontrar alguém à nossa volta que é uma espécie de Edna adormecida. Ou um Edno meio ensonado.  





sexta-feira, 27 de junho de 2014

A poem a day keeps the doctor away: Luís de Camões


            Treinar o desapego é um daqueles objectivos de vida que todos os anos renovo na minha lista de boas intenções. Treinar o desapego é também um daqueles objectivos de vida que todos os anos por alturas de Fevereiro ponho tacitamente de lado. Pode Heraclito de Éfeso ter tido muita razão quando disse que a mesma água não corre duas vezes pelo mesmo  ponto do rio. Eu sou de me apegar às pessoas, às coisas e às situações (as boas, claro). Mas a minha teimosia é contrariada pela vida. E esta é uma semana em que as transformaçõs me cercam por todos os lados. Não vale a pena olhar para o lado e fazer de conta que não é nada comigo. Talvez por isso me tenha lembrado do velho poema de Luís de Camões arquivado na memória desde os tempos de liceu.

            Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
            muda-se o ser, muda-se a confiança;
todo o mundo é composto de mudança,
tomando sempre novas qualidades.

            Continuamente vemos novidades,
            diferentes em tudo da esperança;
do mal ficam as mágoas na lembrança,
e do bem (se algum houve), as saudades.

            O tempo cobre o chão de verde manto,
            que já coberto foi de neve fria,
e, em mim, converte em choro o doce canto.

            E, afora este mudar-se cada dia,
            outra mudança faz de mor espanto,
            que não se muda já como soía.

             




quinta-feira, 19 de junho de 2014

Dizem que Sebastião, João Rebocho Pais

A narrativa tem como protagonista Sebastião Breda, um executivo português. Depois de anos dedicado a uma bem-sucedida carreira na área comercial o herói decide recuperar o tempo perdido e convidar para jantar uma pela qual se sente atraído há vários anos.  Mas o que Sebastião imaginou como o prelúdio de uma noite triunfal vem a revelar-se uma pesada derrota, cujas consequências afectam não só a sua auto-estima, mas também a sua saúde.
É na sequência de tais atribulações que Sebastião decide tirar um ano sabático. No decurso do mesmo renova o seu gosto pela literatura, pelo amor e pela vida que tinha perdido entre gráficos e demonstrações de resultados. Na sua recuperação o protagonista vai contar com a ajuda de várias figuras emblemáticas da literatura portuguesa, como Luís de Camões, Eça de Queirós e Antero de Quental, entre outros.
Para além do reencontro com nomes conhecidos da história portuguesa acompanhamos o modo como Sebastião Breda vai ganhando gosto pela aventura que é a vida diária, em particular o seu encanto com as viagens de metro em Lisboa. E a convicção de que não há vidas banais e que todos aqueles com quem nos cruzamos têm uma história para contar ainda que nunca a venhamos a ouvir.
Quando terminei a leitura deste livro senti-o como sendo um pouco ingénuo, em particular no modo como está construída a personagem de Sebastião Breda. Pareceu-me que quem dedicou, como é o caso daquele, toda a sua vida à busca do sucesso material e benefícios daí decorrentes, talvez não desistisse com tanta facilidade do seu lugar dourado em busca de um sentido alternativo para a sua existência. Por outro lado, e como bem dizem os franceses, il faut de tout por faire le monde. Por isso, que sei eu? Independentemente de se reconhecer maior ou menor consistência interior à personagem principal, a verdade é que este livro cativa pela sua simplicidade e boa disposição e que seduz pela coragem de uma final feliz. E tem também a virtualidade de nos recordar de que a necessidade de ganhar a vida não nos deve desviar de valores que foram sempre cultivados nas letras portuguesas e que devem continuar a ser transmitidos, mesmo se vivemos tempos em que a tecnologia, mais do que um meio para realizar fins, é vista como um fim em si mesma.  

segunda-feira, 16 de junho de 2014

A estante dos outros: Ana Margarida Chora



 

         Hoje é dia de revelar as escolhas literárias de Ana Margarida Chora. Professora e  investigadora na área da literatura medieval é autora de várias publicações nessecampo, incluindo  Lancelot - do mito feérico ao herói redentor. Para além dos trabalhos científicos é ainda poetisa tendo publicado Janela sobre o tempo.
  
1. Qual a tua primeira recordação literária?
A minha primeira recordação literária remonta a um tempo anterior à aprendizagem da leitura. Quando eu tinha quatro anos, a minha mãe leu-me repetidas vezes (certamente a meu pedido) o livro Anita e o Dia do Aniversário, de forma que eu o memorizei palavra por palavra, vírgula por vírgula. E reproduzia a leitura mimeticamente, olhando para o livro e virando a página no sítio correspondente. As pessoas ficavam admiradas com o facto de uma criança tão pequena já saber ler e tão bem! Mas os meus pais respondiam que eu o que realmente sabia era o livro de cor.
Digo recordação “literária” por se tratar de literatura infantil. E “leitura” porque não é preciso saber ler para, na verdade, ler. É preciso, sim, saber ouvir. Basta pensarmos na Literatura Tradicional, que sobrevive através da oralidade e cujos agentes, na maior parte dos casos, não sabem ler. Ou nos tempos em que nem toda a gente tinha acesso à alfabetização e uma pessoa letrada era suficiente para ler um livro aos demais, que ouviam atentamente. Porque quem ouve também lê. Infelizmente, a transmissão oral da literatura é cada vez menos praticada, o que gera uma série de problemas inerentes não só a hábitos de leitura como culturais. Está na base da falta de concentração, do desprezo da memorização e do desrespeito pela palavra oral que, lamentavelmente, cada vez tem menos importância devido ao privilégio da palavra escrita, levando ao aumento de burocracias e ao surgimento de uma sociedade literariamente empobrecida.
 2. Indica 3 livros que te tenham marcado e porquê.
É difícil seleccionar um número restrito de livros entre tantas leituras que contribuíram para a formação da minha personalidade em termos literários... Mas, sem desprimor de muitas outras obras igualmente importantes e que possam ter-me marcado, vou referir uma de cada género, procurando abarcar dimensões marcantes da Literatura Universal e do imaginário literário.
Em primeiro lugar, do ponto de vista narrativo, gostaria de aludir aos contos das Mil e uma Noites, traduzidos pelo Dr. Joseph-Charles Mardrus do Árabe para Francês (que é a minha tradução de eleição, sensual e requintada, por oposição à de Antoine Galland, mais racional e clássica), constituindo uma das obras-primas da Literatura Universal e que, para mal das referências literárias dos nossos dias, poucos leram.
Relativamente ao texto dramático, indico a Salomé de Oscar Wilde, um ícone da estética simbolista que, sendo um tema universal da Antiguidade, se difundiu singularmente no âmbito artístico em todas as vertentes, influenciando as artes plásticas, a ópera, a dança, o cinema, bem como outras recriações literárias, nomeadamente poéticas.
E quanto à poesia, posso nomear algo “nosso” e fundador, que desafortunadamente está a ser relegado para um plano praticamente omisso. Trata-se do Cancioneiro da Ajuda, em Galego-Português, editado por Carolina Michaëlis de Vasconcelos, contendo Cantigas de Amor dos nossos trovadores e os Lais da Bretanha, cuja leitura influenciou, já há muitos anos, o meu gosto pela Literatura Medieval. Aliás, foi uma das minhas primeiras aquisições da minha biblioteca de textos medievais.
 3. Tens um hábito ou ritual de leitura?
O hábito define-se mais por aquilo que não faço quando leio. Contrariamente à maioria das pessoas que aproveita a praia ou o campo para ler, eu geralmente não consigo. E é muito raro ler deitada. Gosto de separar os momentos de lazer e retirar de cada um o que lhes é próprio. A leitura requer uma concentração discursiva que qualquer ambiente aprazível pode dispersar, assim como qualquer forma de relaxamento. Para mim, ler não é um descanso. É um trabalho que conjuga muitos afazeres ao mesmo tempo, que vão da compreensão da linguagem ao estímulo da imaginação, convocando referências que se articulam em prol de uma experiência muito individual e insubstituível.
 4. Qual o livro que não lerias nem que te pagassem o teu peso em ouro?
Não leria um livro que prejudicasse a leitura prioritária de outro. Não é possível ler todos os livros e muitas vezes já é complicado ler aqueles que carecem de mais atenção da nossa parte. Não creio que os livros tenham todos a mesma importância. E por isso há que fazer selecções a todo o momento. É preferível ler um bom livro num determinado espaço de tempo e aprender com ele do que ler uma dúzia que não valha a pena, que não traga conhecimento e que não ajude a crescer interiormente. Não tenho qualquer pudor em renunciar a leituras que não me interessam. O problema dos nossos dias é as pessoas não fazerem as melhores escolhas. Porque não se lê pouco. Antes pelo contrário. Lê-se é mal.
 5. Se tivesses três meses de folga sem interrupções ou problemas de qualquer espécie, que livro (s) escolherias?
Leria a Guerra e Paz de Tolstói, de que tenho uma linda edição herdada do meu avô, e que nunca me aventurei a ler por achar que ia ter sempre algo que interrompesse a leitura de semelhante colosso... Os profissionais do ofício das letras nem sempre se podem dar ao luxo de ler uma obra descomunal de seguida, porque há outras cuja primazia se impõe.
 6. O que estás a ler agora?
Estou a reler as Prophecies de Merlin, por necessidade de trabalho académico. Já li esta obra do século XIII, em Francês antigo, mais do que uma vez, mas agora estou a desenvolver uma pesquisa cujos elementos principais se encontram neste texto arturiano em prosa. E cada vez que releio encontro novo material. Isto porque nunca se lê um livro duas vezes da mesma maneira nem se lê a mesma coisa, já que a leitura está associada à aquisição do nosso universo referencial. Quando lemos, aumentamos as referências do nosso mundo e o modo como nos relacionamos com ele muda com o nosso conhecimento. É por isso que as leituras de um mesmo livro são infinitas.

domingo, 1 de junho de 2014

Anita aprende a ler









          Deixo aqui uma homenagem à Anita uma das minhas recordações de infância de que guardo boa memória. Quando eu lia estes livrinhos (parecem-me tão pequeninos agora que já sou grande) não se ouviam ainda as vozes que a acusam de ser uma colecção sexista e redutora. Não podia discordar mais dessa ideia. Como tantas meninas da minha geração também recebi, entre títulos tão diversos com Anita vai ao teatro ou Anita aprende a nadar, a Anita Dona de casa. Não me lembro de não ter gostado do relato desse dia em que a Anita substituiu a mamã nas tarefas domésticas. Mas não lhe segui o caminho. Em compensação percebi muito bem a sua absoluta necessidade de aprender a ler. E nunca mais parar.
            Feliz Dia da Criança. E que este dia tenha cada vez mais crianças de todas as idades a celebrá-lo por esse mundo fora.