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| Ann Morgan numa fotografia obtida aqui |
Foi Sócrates quem disse “não sou ateniense nem grego sou um cidadão do mundo”. Mas esta visão cosmopolita, registada numa das estações de metro de Lisboa, é de difícil realização para o leitor contemporâneo. E não é só pela imensa quantidade de livros publicados anualmente, dando renovada força à máxima inglesa “so many books so little time”. Se é certo que se publica muito também não é menos verdade que a grande maioria dos livros trazidos à estampa têm a sua origem num mesmo espaço cultural - Europa e América do Norte. No nosso país, apesar de tudo, ainda é possível aceder também à literatura sul-americana e à africana (esta última quase exclusivamente se for de expressão portuguesa). Existem também traduções de autores chineses e japoneses. Mas a mingua (porque me parece ser essa a expressão adequada) de acesso à literatura do mundo é visível quando adoptamos uma visão mais abrangente. Isso mesmo foi deixado evidente por Herman Hesse numa colecção de ensaios publicada entre nós com o título Uma biblioteca da literatura universal. Logo no texto de abertura Hesse indica os textos essenciais e a variedade dos mesmos impõe respeito. A lista é composta por clássicos e ali surgem como indispensáveis o Tao Te Ching (O Livro do Caminho e da Virtude) e As Mil e Uma Noites, entre outras obras. Este conhecimento abrangente das literaturas do mundo parece-me mesmo muito apelativo. Por isso achei tão interessante o desafio que Ann Morgan, jornalista inglesa, lançou a si própria.Não coincide com a lista de Hesse até porque não tem por objecto os clássicos. Tendo em conta a existência de 196 países no mundo Morgan impôs-se um ano para ler um livro escrito por um autor de cada um deles. As dificuldades práticas da tarefa são evidentes e ela deixa-as enumeradas no blogue que criou (A year of reading the world). Para além disso o blogue é também o registo das ajudas que foi encontrando pelo caminho, muitas das quais chegaram pela internet. E tem também a lista de leituras que fez onde se incluem obras de sítios tão diversos como Chade, Nepal, Uzebequistão ou Venezuela. Morgan escreveu também um livro sobre esta sua experiência que a mim, devo confessar, me deixa um pouco cobiçosa. Tenho alguma facilidade em imaginar-me no lugar dela na fotografia acima, exibindo aquele mesmo sorriso de felicidade...
Brincadeiras à parte, a verdade é que muitos dos livros que indica na sua lista não são fáceis de encontrar. Talvez seja quase impossível lançar-lhes a mão sobretudo se precisarmos da tradução portuguesa. Já os que integram a lista de Hesse estão, tanto quanto me apercebi, disponíveis entre nós. E, isto dito, por que não começar a passear por estantes e bancadas menos frequentadas nas livrarias e dar por lá um salto de fé literário. Quem sabe se não voltamos à superfície com um tesouro nas mãos?




