segunda-feira, 15 de setembro de 2014

Marguerite Yourcenar, Memórias de Adriano (II)




Adriano
  

Este é um livro de que me é difícil falar. Não por não haver nada para dizer, mas antes pela razão inversa. Ele desperta tanta coisa e torna claras tantas zonas cinzentas dentro de mim que é complicado escolher as palavras. Li este livro com 20 e tal anos e sublinhei algumas frases. É curioso, anos depois, reencontrar essas linhas. E não restam dúvidas que a releitura é diferente. Quando a terminei duas coisas ficaram perfeitamente claras. A importância do tempo e o valor da paciência. Este livro foi redigido durante três anos de trabalho em exclusividade. Mas não poderia ter sido escrito se antes Marguerite não tivesse passado décadas a ler, estudar e escrever sobre a Antiguidade clássica. E a viver refletindo sobre o que vivia. Foi todo esse percurso que lhe permitiu, não só familiarizar-se com a época de Adriano, mas também com o imperador e o homem para além do governante. Se tivesse feito as coisas pela metade poderia ter-nos deixado tão só um fresco histórico carecido de dimensão humana. Ou, ao contrário, oferecer-nos um Adriano que mais não era do que uma projeção por si imaginada. Mas Marguerite fez algo muito superior. Compreendeu a época, percebeu o imperador e entendeu o homem que foi Adriano.
            O livro é um romance histórico sob a forma de carta a Marco Aurélio, sucessor de Adriano. O imperador informa o seu correspondente quanto ao seu estado de saúde e a partir daí lança-se no relato da sua vida desde a infância até ao momento em que escreve, muito próximo da sua morte. As Memórias são compostas por seis capítulos. No primeiro (Animula vagula blandula) Adriano analisa o seu do carácter e recorda a família, os primeiros anos, infância e juventude. É também neste capítulo que lembra alguns dos seus amigos e familiares mais próximos. É o caso de Sabina, a sua esposa e em particular de Plotina, mulher do anterior imperador que se tornou sua amiga, aliada e amante, apesar da natureza marcadamente homossexual de Adriano. No segundo e terceiro capítulos (respectivamente Varius multiplex multiformes e Tellus stabilita) Adriano recorda as suas viagens pelo Império e o modo como se ocupou dos assuntos militares e administrativos. Passa em revista as principais medidas tomadas. Ao mesmo tempo recorda figuras com quem se foi cruzando ao longo da sua vida. O quarto capítulo (Saeculum aureum) corresponde ao período de ouro da vida de Adriano com a duração dos cinco anos em que o mesmo teve a seu lado Antínoo. Neste mesmo capítulo Adriano detém-se sobre a morte do seu amado e escreve longamente a Marco Aurélio sobre o culto póstumo que lhe foi dedicado. O quinto capítulo (Disciplina Augusta) revela-nos preocupações interiores do imperador, um gosto renovado pelas coisas gregas e resolução de construir a Villa Adriana e a reflexão sobre quem vai ser o seu sucessor. A sua primeira escolha foi para Lúcio. Porém, este acabou por morrer antes do próprio Adriano que acabou por adotar e preparar para imperador Marco Aurélio. O último capítulo (Patientia) corresponde à conformação de Adriano com a doença e o modo como enfrenta a morte, acompanhando-o até aos momentos finais.
            Foram muitos os leitores que procuraram traçar paralelos entre Yourcenar e Adriano. A mais óbvia similitude – relativa à orientação sexual – é porventura a menos interessante. Ambos foram viajantes apaixonados. E partilhavam de um estoicismo pessimista que os fez amar o ser humano compreendendo os seus defeitos. Há, nas realizações de ambos, um elemento de sorte de que estão conscientes. Adriano poderia ter expirado numa das campanhas militares ficando o seu nome esquecido na história (como sucede a Lúcio, apontado como seu primeiro sucessor). Marguerite poderia nunca ter reencontrado a mala cujo conteúdo a fez recordar do grande propósito da sua juventude. Depois, há pontos em comum que quase nos fazem sorrir: Adriano e Marguerite eram dois incorrigiveis hipocondríacos.
             Acima de tudo retemos o modo como ambos encararm os respectivos triunfos, sem embandeirarem em arco. Adriano foi imperador ultrapassando os seus adversários e impondo-se na História. Marguerite entrou na Academia Francesa e é um nome que não pode ser esquecido na literatura, apesar das críticas e dos anos de esquecimento. Uma última conclusão extraída desta leitura: todas as vidas têm um propósito que não deve ser traído. Ainda que só cada um de nós conheça o seu e que a história não nos ofereça o resgate da morte, ao contrário do sucedido com Adriano e Marguerite. E o que agora escrevo não encerra para mim as Memórias de Adriano. De certeza que voltarei a lê-las.

sexta-feira, 12 de setembro de 2014

Memórias de Adriano, Marguerite Yourcenar (I)



Imagem obtida aqui


            “Não esperava, de todo. Contava que umas dez pessoas lessem o livro. Nunca estou à espera que alguém leia os meus livros pelo simples facto de ter a impressão de não me ocupar de coisas que possam interessar muito à maioria das pessoas.” – Foi assim que Marguerite Yourcenar comentou o sucesso do livro Memórias de Adriano na longa entrevista que concedeu a Mathieu Galey (reunida no livro De Olhos Bem Abertos).  
            Marguerite nasceu em Bruxelas em 1903. Interessou-se desde pequena pelo estudo da antiguidade clássica. O seu pai, já entrado nos anos quando ela nasceu e viúvo, acompanhou o seu crescimento de perto, encorajando-a nas suas leituras e no desejo de ser escritora. Yourcenar é descrita como sendo confiante nas suas capacidades, ambiciosa em matéria de carreira e com um gosto pelo secretismo. Sofreu um golpe quando depois de se ter preparado para os exames em casa (nunca frequentou a escola tradicional) não conseguiu ser admitida na Sorbonne. Porém, rapidamente se recompôs, tendo todo o apoio de seu pai. A tal ponto que foi ele quem financiou a publicação do seu primeiro livro.
O projecto de escrever sobre a vida de Adriano também surgiu cedo na vida de Marguerite. O manuscrito original foi escrito quando tinha pouco mais de 20 anos e era centrado na vida de Antínoo, o jovem amado e amante de Adriano. Este trabalho, como outros esboços, acabou por ficar numa mala deixada por Marguerite Yourcenar na Suíça antes de ir para os Estados Unidos da América no início da II Guerra Mundial. Só em 1948 Marguerite a recuperou. Até lá, e na sequência da sua ida para os Estados Unidos da América com Grace Frick, tinha estado mergulhada numa crise de adaptação à vida norte-americana, agravada pelas dificuldades em encontrar trabalho remunerado que lhe permitisse garantir a sua sempre prezada independência. Na Europa a publicação de Golpe de Misericórdia, Alexis e Denário de Sonho tinham-lhe dado alguma visibilidade. Mas a mesma não tinha reflexos em território americano. Estas contrariedades levaram mesmo a que caísse num estado depressivo de que só saiu quando compreendeu que tinha chegado o momento de escrever a história de Adriano.
A primeira pergunta que nos podemos colocar é porquê Adriano de entre tantas personagens históricas interessantes e com vidas para contar. A resposta não pode ser unívoca. A própria Marguerite equacionou outras opções. Afastou a possibilidade de ter como protagonista uma mulher. Não só nesta mas em todas as suas outras obras. Os protagonistas são sempre homens e homossexuais, no que os leitores e críticos sempre quiseram ver mais do que uma coincidência. Esta opção gerou-lhe também inimizades entre as feministas. Bem menos problemática foi a sua opção em colocar de lado um outro protagonista em que pensou - Omar Khayyam, poeta, matemático e astrónomo persa dos séculos XI e XII, autor de Rubaiyat. A hipótese de escrever sobre Omar foi afastada por Marguerite por ele ser um contemplativo e ela não ter conhecimentos suficientes de cultura e língua persa.
            Marguerite explicou a sua opção. Não hesitou em considerar Adriano um génio com uma obra notável no plano admistrativo, militar e legislativo. Na entrevista a Matthieu Galey equipara-o mesmo a um homem do Renascimento. Não era cristão, nem pagão, manifestando tolerância para com as convicções religiosas, ainda que não lhes desconhecesse os perigos para o império. A morte de Antínoo levou-o a uma terceira via. Esmagado pela dor, criou a sua própria religião, homenagem ao amante morto, com um culto póstumo que obteve adesão em diferentes pontos do império.
É precisamente essa relação amorosa em vida e em morte que configura o traço específico de Adriano. Aliás, é bom recordar que o interesse de Marguerite começou por centrar-se em Antínoo para depois se alargar e reposicionar em Adriano. Não esteve sózinha nesse interesse primeiro. É quase paradoxal que uma escritora apontada como intelectualizada e cerebral tenha escrito este grande livro assenta numa história de amor. Marguerite protegeu-se deste juízo, chamando à atenção para o facto de cada leitor se identificar com aspectos do livro que lhe recordam a vida experimentada ou que se deseja viver. Mas a própria autora reconheceu que as páginas dedicadas a Antínoo são das que mais lhe foram citadas pelos muitos leitores que lhe escreveram. A dor de Adriano pela suicídio do seu amado inspirou outros artistas incluindo Fernando Pessoa que escreveu o poema Antínoo.

 

terça-feira, 9 de setembro de 2014

Uma escuridão bonita, Ondjaki

Ondjaki
              
            A escuridão e a noite são muitas vezes associadas a acontecimentos funestos e ao medo. Quando somos pequenos é à noite e de luz apagada que temos medo que o papão venha. Na adolescência é a vez de os pais terem receios dos perigos das saídas à noite sem vigilância e que acabam a desoras. E a própria sabedoria popular nos inculca essa visão pouco abonatória como se pode ver em aforismos como “quem de noite quer andar o caminho quer errar” ou “noite perdida nunca é restituída”. Mas a escuridão também pode ser um lugar de mistérios luminosos e de descobertas de uma vida. E torna-se então bonita.
            Uma escuridão bonita é um pequeno livro que encerra duas obras: as palavras de Ondjaki e as ilustrações de António Jorge Gonçalves. Foi o último livro que li nas férias. A acção decorre durante algumas horas de uma noite angolana e tem como protagonistas dois adolescentes a ganharem coragem para o primeiro beijo. Dizer isto é dizer tudo e deixar tudo por revelar. O encanto deste livro reside na beleza das palavras, nas frases que são poemas em prosa. Saber o que acontece na história não é o mais importante. Essenciais são as palavras cheias de figuras de estilo e combinações inesperadas (por exemplo, na página 75, “Eu sorri porque continuava na vontade de um beijo. Ela sorriu porque reparou nos quatro dedos do pé esquerdo da minha avó. Os meus olhos sorriram porque tinham tocado os cabelos dela”.) Ao lado das palavras há as ilustrações de António Jorge Gonçalves que só a aparentemente são simples. Na verdade, estão cheias de detalhes de que nos vamos apercebendo à medida que as vemos uma e outra vez. Palavras e ilustrações fazem deste livro uma pequena história de encantar que surpreende e emociona. 

sexta-feira, 5 de setembro de 2014

O que ler: Os livros do mundo




Ann Morgan numa fotografia obtida aqui
  

Foi Sócrates quem disse “não sou ateniense nem grego sou um cidadão do mundo”. Mas esta visão cosmopolita, registada numa das estações de metro de Lisboa, é de difícil realização para o leitor contemporâneo. E não é só pela imensa quantidade de livros publicados anualmente, dando renovada força à máxima inglesa “so many books so little time”. Se é certo que se publica muito também não é menos verdade que a grande maioria dos livros trazidos à estampa têm a sua origem num mesmo espaço cultural - Europa e América do Norte. No nosso país, apesar de tudo, ainda é possível aceder também à literatura sul-americana e à africana (esta última quase exclusivamente se for de expressão portuguesa). Existem também traduções de autores chineses e japoneses. Mas a mingua (porque me parece ser essa a expressão adequada) de acesso à literatura do mundo é visível quando adoptamos uma visão mais abrangente. Isso mesmo foi deixado evidente por Herman Hesse numa colecção de ensaios publicada entre nós com o título Uma biblioteca da literatura universal.  Logo no texto de abertura Hesse indica os textos essenciais e a variedade dos mesmos impõe respeito. A lista é composta por clássicos e ali surgem como indispensáveis o Tao Te Ching (O Livro do Caminho e da Virtude) e As Mil e Uma Noites, entre outras obras. Este conhecimento abrangente das literaturas do mundo parece-me mesmo muito apelativo. Por isso achei tão interessante o desafio que Ann Morgan, jornalista inglesa, lançou a si própria.Não coincide com a lista de Hesse até porque não tem por objecto os clássicos. Tendo em conta a existência de 196 países no mundo Morgan impôs-se um ano para ler um livro escrito por um autor de cada um deles. As dificuldades práticas da tarefa são evidentes e ela deixa-as enumeradas no blogue que criou (A year of reading the world). Para além disso o blogue é também o registo das ajudas que foi encontrando pelo caminho, muitas das quais chegaram pela internet. E tem também a lista de leituras que fez onde se incluem obras de sítios tão diversos como Chade, Nepal, Uzebequistão ou Venezuela. Morgan escreveu também um livro sobre esta sua experiência que a mim, devo confessar, me deixa um pouco cobiçosa. Tenho alguma facilidade em imaginar-me no lugar dela na fotografia acima, exibindo aquele mesmo sorriso de felicidade... 
Brincadeiras à parte, a verdade é que muitos dos livros que indica na sua lista não são fáceis de encontrar. Talvez seja quase impossível lançar-lhes a mão sobretudo se precisarmos da tradução portuguesa. Já os que integram a lista de Hesse estão, tanto quanto me apercebi, disponíveis entre nós. E, isto dito, por que não começar a passear por estantes e bancadas menos frequentadas nas livrarias e dar por lá um salto de fé literário. Quem sabe se não voltamos à superfície com um tesouro nas mãos?  

segunda-feira, 25 de agosto de 2014

O fio da navalha, Somerset Maugham



Imagem retirada daqui
 
O fio da navalha é uma das obras magnas de Somerset Maugham, o autor inglês que mais li na minha adolescência. É também um livro a que regresso periodicamente, contrariando a máxima de que não devemos voltar aos lugares onde fomos felizes. Aliás, ainda não consegui perceber essa ideia, nem quanto a locais, nem com as pessoas e muito menos com os livros. Onde sempre me pareceu que não devemos voltar é a lugares, pessoas e livros que nos avinagraram a vida. Mas isto é outra conversa.    
Somerset Maugham nasceu em Inglaterra tendo perdido ambos os progenitores quando era criança. Criado por uns tios ainda muito jovem traçou objectivos para a sua vida: escrever, viver da escrita e viajar. E foi mesmo isso que fez. Não tinha pretensões quanto a ser um grande escritor e foi mesmo desvalorizado pela crítica. Mas foi também o mais bem pago escritor da sua época. O seu sucesso começou a traçar-se logo com o lançamento do seu primeiro livro e foi de tal ordem que o levou a abandonar a carreira como médico e dedicar-se à escrita.
 O seu grande talento (como ele mesmo reconheceu) era a capacidade de relatar os episódios a que assistia ou que os seus conhecidos lhe contavam, sendo as confidências cada vez mais abundantes à medida que ia firmando os seus créditos como autor. A sua própria vida está na base de Servidão Humana a outra das suas grandes obras, existindo diversos episódios autobiográficos. E o seu primeiro livro, Lisa, a Pecadora foi baseado nas experiências vividas como médico nos bairros mais pobres de Londres.
O título que dá nome a este livro é retirado de uma obra espiritual hindu Kata Upanixade onde se lê: “difícil é andar sob o aguçado fio da navalha; é árduo, dizem os sábios, é o caminho da salvação”.
Em O fio da navalha há duas personagens muito especiais que parecem a antítese uma da outra: Elliott e Larry Darrell. Num primeiro momento, Elliott parece um snobe e uma espécie de arrivista social. Mas Somerset Maugham consegue ver e dar-nos a ver para além disso. E a imagem que fica é a de um homem sensível às coisas mundanas, sem dúvida, mas com um forte sentido de família e um coração generoso.
É através de Elliott que o narrador (que é o próprio autor) conhece Larry Darrell a personagem principal do livro. Darrell é-nos apresentado como um aviador que após ter participado na I Guerra Mundial regressa para junto dos amigos em Chicago. Contudo, as experiências que viveu e em particular a morte de um colega, têm sobre ele uma influência muito forte, acabando por o conduzir num percurso sem destino marcado. Darrell pretende compreender a vida, o mal e o que move os seres humanos. Nessa busca vagueia pelo mundo à procura de respostas para o que são, diria uma mente mais pragmática, questões irresolúveis. É esse mesmo o entendimento de Isabel, sua noiva, cujo percurso vamos acompanhando. Claro que a circunstância de não ser possível dar uma resposta única e universal para aquelas grandes questões não invalida o mérito de quem as procura ainda que como soluções limitadas à sua própria vida. Mas Darrell vai mais longe e é depois de uma longa estadia na Índia que encontra o seu propósito de vida. Este livro foi publicado em 1944 e por isso é bem anterior ao início do fascínio dos ocidentais pela Índia a que ainda hoje assistimos. Aquando da sua publicação a imprensa e o público especularam sobre quem era o homem que inspirou a personagem de Larry tendo sido aventadas algumas hipóteses nunca confirmadas pelo autor nem pelos visados.  
A escrita de Somerset Maugham é viva e descomplexada. A acção percorre vários anos e acompanhamos os personagens nas diferentes opções que vão traçando. O narrador não é um moralista pelo que não toma opção por um ou outro dos caminhos escolhidos por cada um das personagens. Existe nele um pequeno traço que não chega a ser maldade, mas antes uma certa malícia no modo como não permite que as pessoas com quem se cruza tenham grandes ilusões sobre si próprias. Mas isso, pelo menos para quem só trava conhecimento com o escritor através do livro, está longe de ser um defeito.

quinta-feira, 21 de agosto de 2014

Autobiografia, Agatha Christie


           A autobiografia é um género literário difícil. Quando falamos ou escrevemos sobre nós próprios manter a objectividade é complicado. Por um lado, um entusiasmo demasiado evidente com a sua vida pode levar a que o autor pareça pomposo e convencido. Mas uma excessiva modéstia também não cai bem. Afinal, se está a escrever a história da sua vida algum mérito reconhecerá a si mesmo.
           Um dos exemplos mais felizes de autobiografia que conheço é o de Agatha Christie. O gosto em ler a sua história de vida assentou para mim em três aspectos. O primeiro prende-se com o facto de ser uma admiradora da sua obra literária. Claro que ler  a autobiografia de alguém que não apreciamos ou que desconhecemos é uma tarefa mais ingrata e que de certeza aguça o sentido crítico. Mas mesmo quem não aprecie particularmente os romances policiais desta autora inglesa, pode vir a gostar do modo como ela escreveu esta sua biografia. Isso resulta da autora conseguir um equilíbrio entre a narração dos seus efeitos (que não valoriza excessivamente, mas não impede que “falem por si mesmos”) e o que nos revela da sua vida pessoal. Parece-me, aliás, que a sua capacidade de entrelaçar os vários episódios da sua vida de uma forma natural e clara é a grande mais valia da autobiografia que escreveu. Narra tudo de uma forma natural. É certo que terá deixado muita coisa por contar. Mas quando se lê o livro fica-se com a sensação de que quanto ao que escolheu partilhar com os leitores optou por um registo verdadeiro em que não houve espaço para grandes embelezamentos ou ajustes de contas.  
Agatha recorda a sua família e infância e a partir daí desenvolve o relato da sua vida. À medida que lemos o seu relato vamos acompanhando a vivência de uma rapariga inglesa da classe média alta do início do século XX. A sua experiência como voluntária durante a I Guerra Mundial, os seus primeiros amores e o modo como começou a escrever e gradualmente obteve reconhecimento público.
 Partilha também a sua experiência como escritora (a forma como as ideias surgem e as dificuldades da escrita) e o modo como construiu as suas personagens mais conhecidas, Hercule Poirot e Miss Marple, declinando a sugestão que lhe foi feita diversas vezes de criar uma história em que ambos se encontrassem. Diz que provavelmente os dois se detestariam mutuamente. Revela também sobre as consequências do sucesso económico que os seus livros lhe proporcionaram. Mas talvez o aspecto mais cativante do livro seja a forma como relata a sua vida pessoal, designadamente a sua vivência doméstica, experiência como mãe e a vida com o seu primeiro marido Archibald Christie, que sempre desvalorizou as suas investidas literárias e lidou mal com o sucesso subsequente das mesmas. As páginas em que descreve o final do casamento de ambos são tocantes e tendo em conta a geração a que a escritora pertence a abertura com que escreve é ainda mais singular. Acompanhamo-la ainda já depois do seu segundo casamento nas suas experiências à volta do mundo que lhe permitiram recolher material para vários dos seus livros mais conhecidos (por exemplo, Morte no Nilo ou Morte entre Ruínas).
            Nestes tempos em que estão em voga os policiais nórdicos há quem desvalorize as obras de Agatha Christie considerando-as algo previsíveis e formuladas de um acordo com um modelo rígido. Pela minha parte, continuo a gostar de reler os seus livros policiais, designadamente os dois que indiquei acima. Acho que demonstram um conhecimento muito forte da natureza humana e de aspectos que talvez sejam imutáveis nos seres humanos. Quanto à autobiografia só posso dizer que para além de ter apreciado o estilo literário deu-me vontade de conhecer pessoalmente Agatha Christie. Tenho a certeza de que ela iria ter muito para me ensinar. E não estou a pensar em como escrever romances policiais.