Os meus
livros (que não sabem que existo)/ são uma parte de mim. Começa
assim um dos mais famosos poemas de Jorge Luís Borges. Hoje é dia mundial do
livro e tanto é pretexto mais do que suficiente para homenagear esses
companheiros de todas as horas.
Não sei quando
exactamente começou a paixão pelos livros e o amor pelas palavras, mas
acompanha-me desde criança. Dizem-me que mesmo antes de saber ler sentava-me no
chão com um livro aberto a fingir que estava a perceber o que lá vinha escrito.
As primeiras recordações de leituras autónomas levam-me à Heidi de Joana Spyrou
uma edição que ainda hoje guardo com carinho. Das leituras de criança (Os
cinco, em especial destaque) passei para os policiais de Agatha Christie. E daí
num salto improvável para a literatura sul-americana. Lembro-me de vitórias que
só um leitor consegue perceber. A alegria de encontrar uma edição portuguesa de
Os Irmãos Karamazov depois de meses à procura sem sucesso. A felicidade de me
rever num poema, como se o seu autor apenas se tivesse adiantado a mim por escassos
segundos. O maravilhamento ao descobrir um novo autor (para mim, porque com
frequência já é mais do que conhecido para o mundo). A emoção do reencontro com uma obra querida lida há anos e a que voltamos de vez em quando.
Os livros são um elemento determinante na minha vida. Através deles conheci o mundo, estranhei-o e procuro compreendê-lo. É um amor constante que vai conhecendo novas matizes ao longo dos anos. Primeiro foi a ficção. Depois o ensaio e durante alguns anos a poesia. Actualmente estou numa fase de gosto por memórias. Mas sei que continuarei a conviver com todos os géneros literários. O meu é também um amor à antiga. Não gosto de audio-livros, ebooks ou outras modernices. Livro é livro à séria. Com páginas a cheirar a novo ou carregado com a lembrança de antigos proprietários plasmada em dedicatórias que o tempo não apaga (quando compro em alfarrabistas).
Acho que há
algum exagero na frase de Chateubriand (“nunca tive nenhum desgosto que não me
passasse após algumas horas na biblioteca”). Mas ainda assim, entre os motivos
de alegria que espero que a vida me reserve, está a descoberta de novos autores
e de livros que talvez ainda não estejam escritos. Por isso, nesta data
especial aqui ficam os votos de um feliz dia do livro.




