Mário
Vargas Llosa é um escritor que me acompanha há muitos anos. Li com entusiasmo
na minha adolescência A Tia Júlia e o Escrevedor e A Festa do Chibo na mesma
altura em que me encantei por outros nomes da literatura sul-americana, em
particular Gabriel Garcia Marquez e Isabel Allende. A Festa do Chibo foi um dos
livros que mais me marcou até hoje pela limpidez da escrita e implacabilidade
da narrativa que nos reserva surpresas até à última página.
Por
isso, foi com gosto que mergulhei nesta sua obra Travessuras da Menina Má. O
livro narra uma história de amor que começa no Peru e atravessa o mundo. O
protagonista, Ricardo, é um homem só aparentemente banal que realiza o seu
sonho de criança: viver em Paris, para onde vai trabalhar como tradutor.
Realizar sonhos de criança não é para todos, pelo que logo aqui o romance tem
um toque de excepcionalidade. Mas onde a existência aurea mediocritas do
protagonista é cabalmente afastada é na paixão que o alimenta desde a
adolescência até ao final do romance: a menina má. Os dois conhecem-se na
capital do Peru muito jovens e os seus destinos vão-se cruzando ao longo de
décadas pelo mundo: Londres, Tóquio, Madrid e, claro, Paris.
De
algum modo, a história introduz uma desconstrução de género. O protagonista
masculino é a personagem que deseja viver as delícias da vida doméstica e
casar, pedido que faz recorrentemente à menina má. Esta prefere uma vida de
aventuras, em busca de riqueza e emoções fortes, recusando a vida sem brilho
nem ousadia que o seu apaixonado lhe quer oferecer.
Não
é o primeiro escritor a inverter a lógica da mulher sofredora. Somerset Maugham
no seu Da Servidão Humana fez o
mesmo. Mas são raros os que se atrevem. A qualidade que recordava na escrita de
Vargas Llosa surge nas páginas onde narra os estados de espírito do seu
protagonista, os prazeres eróticos do casal e as deambulações pelas cidades
onde se vão encontrando. Poucos escritores ditos “sérios” relatam interlúdios
sensuais, mas Vargas Llosa fá-lo com elegância sem recorrer a floreados. O livro percorre várias décadas de vida dos
dois protagonistas, mostrando-nos as suas alegrias e tristezas, perdas, ódios e
paixões, bem como a situação política do seu Peru natal. A acção é-nos narrada
apenas pela voz do protagonista masculino, o que é pena, pois nunca conhecemos
os pensamentos da protagonista feminina, nem pela sua voz, nem através de um
narrador imparcial.
Num artigo que escreveu há anos atrás Vargas Llosa falou sobre o grande perigo para a escrita actual que se encerra nos movimentos feministas radicais. Terminada a
leitura deste seu livro não surpreende essa preocupação. O fim reservado para a
protagonista feminina é de molde a fazer soar campainhas feministas, radicais
ou não (o que quer que isso seja). Uma leitura de alguns textos de crítica literária permitiu-me concluir que não estou sozinha nas minhas dúvidas.
Explicando: um dos grandes mitos do romance
ocidental (sobretudo o escrito por homens brancos ao longo de séculos) é o da
natureza sofredora das mulheres, preparadas para se sacrificarem ou mesmo
morrerem pelos homens que amam e sem os quais a vida não faz sentido. Hoje, é
manifesto que esta visão está superada. Nos nossos dias não há romancista que
se lembre de por uma protagonista a morrer de desgosto amoroso. É um mito
ultrapassado. Mas mesmo os romances escritos por mulheres ao longo dos séculos
lançam muitas dúvidas sobre a existência real dessa mulher em desespero
absoluto para quem a alternativa ao fim/impossibilidade de relação amorosa é o
encontro com a morte. Basta pensar nas protagonistas de Jane Austen, por
exemplo.
Mas
eis que um outro mito não está ultrapassado: o da liberdade castigada. E aqui confesso que o final que Vargas Llosa reserva para a sua protagonista me deixou a pensar: ela não se limita a morrer. Morre de uma doença
dolorosa que lhe afecta os seios (retirados em cirurgia sem que exista a possibilidade de os reconstituir) e mutila a vagina. Como já a protagonista de A
festa do chibo sofreu lesões irreversíveis na zona vaginal que condicionaram o
seu percurso de vida. Não conheço toda a obra deste escritor, mas sei que este tipo de solução literária não lhe é exclusiva. Por exemplo, para as mulheres protagonistas do livro
Zorba, o Grego, para quem o encontro sexual livremente escolhido conduz à morte (o que não sucede aos seus parceiros, que saem antes renovados da experiência). Serão
coincidências? Liberdade criativa? Talvez. Mas pergunto: há protagonistas
masculinos heterossexuais a sofrerem o mesmo destino? É que eu não me consigo
lembrar de nenhum. E isso talvez não seja uma coincidência.






