sexta-feira, 15 de março de 2019

Travessuras da Menina Má, Mario Vargas Llosa


Mário Vargas Llosa é um escritor que me acompanha há muitos anos. Li com entusiasmo na minha adolescência A Tia Júlia e o Escrevedor e A Festa do Chibo na mesma altura em que me encantei por outros nomes da literatura sul-americana, em particular Gabriel Garcia Marquez e Isabel Allende. A Festa do Chibo foi um dos livros que mais me marcou até hoje pela limpidez da escrita e implacabilidade da narrativa que nos reserva surpresas até à última página.
Por isso, foi com gosto que mergulhei nesta sua obra Travessuras da Menina Má. O livro narra uma história de amor que começa no Peru e atravessa o mundo. O protagonista, Ricardo, é um homem só aparentemente banal que realiza o seu sonho de criança: viver em Paris, para onde vai trabalhar como tradutor. Realizar sonhos de criança não é para todos, pelo que logo aqui o romance tem um toque de excepcionalidade. Mas onde a existência aurea mediocritas do protagonista é cabalmente afastada é na paixão que o alimenta desde a adolescência até ao final do romance: a menina má. Os dois conhecem-se na capital do Peru muito jovens e os seus destinos vão-se cruzando ao longo de décadas pelo mundo: Londres, Tóquio, Madrid e, claro, Paris.
De algum modo, a história introduz uma desconstrução de género. O protagonista masculino é a personagem que deseja viver as delícias da vida doméstica e casar, pedido que faz recorrentemente à menina má. Esta prefere uma vida de aventuras, em busca de riqueza e emoções fortes, recusando a vida sem brilho nem ousadia que o seu apaixonado lhe quer oferecer.  
Não é o primeiro escritor a inverter a lógica da mulher sofredora. Somerset Maugham no seu Da Servidão Humana fez o mesmo. Mas são raros os que se atrevem. A qualidade que recordava na escrita de Vargas Llosa surge nas páginas onde narra os estados de espírito do seu protagonista, os prazeres eróticos do casal e as deambulações pelas cidades onde se vão encontrando. Poucos escritores ditos “sérios” relatam interlúdios sensuais, mas Vargas Llosa fá-lo com elegância sem recorrer a floreados.          O livro percorre várias décadas de vida dos dois protagonistas, mostrando-nos as suas alegrias e tristezas, perdas, ódios e paixões, bem como a situação política do seu Peru natal. A acção é-nos narrada apenas pela voz do protagonista masculino, o que é pena, pois nunca conhecemos os pensamentos da protagonista feminina, nem pela sua voz, nem através de um narrador imparcial.
 Num artigo que escreveu há anos atrás Vargas Llosa falou sobre o grande perigo para a escrita actual que se encerra nos movimentos feministas radicais. Terminada a leitura deste seu livro não surpreende essa preocupação. O fim reservado para a protagonista feminina é de molde a fazer soar campainhas feministas, radicais ou não (o que quer que isso seja).  Uma leitura de alguns textos de crítica literária permitiu-me concluir que não estou sozinha nas minhas dúvidas. 
Explicando: um dos grandes mitos do romance ocidental (sobretudo o escrito por homens brancos ao longo de séculos) é o da natureza sofredora das mulheres, preparadas para se sacrificarem ou mesmo morrerem pelos homens que amam e sem os quais a vida não faz sentido. Hoje, é manifesto que esta visão está superada. Nos nossos dias não há romancista que se lembre de por uma protagonista a morrer de desgosto amoroso. É um mito ultrapassado. Mas mesmo os romances escritos por mulheres ao longo dos séculos lançam muitas dúvidas sobre a existência real dessa mulher em desespero absoluto para quem a alternativa ao fim/impossibilidade de relação amorosa é o encontro com a morte. Basta pensar nas protagonistas de Jane Austen, por exemplo.
Mas eis que um outro mito não está ultrapassado: o da liberdade castigada. E aqui confesso que o final que Vargas Llosa reserva para a sua protagonista me deixou a pensar: ela não se limita a morrer. Morre de uma doença dolorosa que lhe afecta os seios (retirados em cirurgia sem que exista a possibilidade de os reconstituir) e mutila a vagina. Como já a protagonista de A festa do chibo sofreu lesões irreversíveis na zona vaginal que condicionaram o seu percurso de vida. Não conheço toda a obra deste escritor, mas sei que este tipo de solução literária não lhe é exclusiva. Por exemplo, para as mulheres protagonistas do livro Zorba, o Grego, para quem o encontro sexual livremente escolhido conduz à morte (o que não sucede aos seus parceiros, que saem antes renovados da experiência). Serão coincidências? Liberdade criativa? Talvez. Mas pergunto: há protagonistas masculinos heterossexuais a sofrerem o mesmo destino? É que eu não me consigo lembrar de nenhum. E isso talvez não seja uma coincidência. 




segunda-feira, 11 de março de 2019

Juan Vicente Piqueras




                                                           in Instruções para atravessar o deserto, Assírio e Alvim

sexta-feira, 8 de março de 2019

This is what a feminist looks like - Benedict Cumberbatch
      Se pegarmos num dicionário veremos que o feminismo é uma corrente de pensamento que defende a igualdade de direitos e deveres para todas as pessoas independentemente do género. De ser feminista não resulta, ao contrário da crença que vejo disseminada em certos sectores, ser contra os homens, não gostar de homens (designadamente na perspectiva amorosa e erótica) ou querer ser um homem. Também não existe qualquer oposição de base ou contradição entre ser feminista e ser feminina. Claro que não posso dizer que perceba muito bem esse trocadilho. O que é estranho, pois, sem falsas modéstias, posso dizer que por regra percebo facilmente metáforas, analogias e todas as demais figuras de estilo. Mas fico por perceber o que querem dizer as que dizem “não sou feminista, sou feminina”. Ah, e para ser feminista não é preciso ser mulher (o que explica a fotografia do Cumberbatch). Como para ser contra o racismo não é preciso ser parte de uma minoria étnica. Ou para ser a favor do casamento entre pessoas do mesmo sexo não é necessário desejar efectivamente casar com uma pessoa do mesmo sexo. Isto porque a capacidade de reconhecer os demais seres humanos como pessoas como nós advém de algo diverso: a empatia. Isto é, a capacidade de nos pormos na pele dos outros. Uma das formas de desenvolver esta qualidade humana é através da leitura. Foi isso que sucedeu a partir do século XVIII na Europa, com a inerente ligação ao desenvolvimento dos direitos humanos. O The Guardian publica um artigo sobre as obras feministas que podem ajudar a perceber a causa nas suas múltiplas dimensões. Foram lidas por Carl Sedeström um académico sueco em busca de um modo de mostrar a sua solidariedade para com as mulheres. Podia ter lido Jane Austen ou as irmãs Brontë. Mas escolheu no essencial autoras contemporâneas. Alguns dos títulos são sobejamente conhecidos. É o caso de O segundo sexo de Simone de Beauvoir. De outros, incluindo Hunger de Roxanne Gay, já escrevi aquiVale a pena conhecer a lista, para concordar ou discordar. Sobretudo para pensar. Hoje e todos os dias.  

quinta-feira, 7 de março de 2019

I'll die standing on my feet, Oriana Fallaci



Não acredito em dias de luto para resolver problemas sociais. Acredito em dias de luta que se renovam entre vitórias e derrotas porque a ideia de que podemos instalar o paraíso na Terra é algo que ficou para trás com o fim das utopias. Oriana Fallaci foi uma escritora e jornalista italiana. Nasceu em Florença, viajou pelo mundo com frequência para cenários de tensão (para dizer o mínimo, considerando que fez a cobertura de conflitos armados na América do Sul e Vietname) e acabou por falecer na cidade onde veio ao mundo. Coragem, coragem e coragem foi a mensagem que nos deixou. Em miúda lembro-me de ver em casa dos pais o seu livro Entrevista com a História. Incluía diálogos com Indira Ghandi, Golda Meir, Yasser Arafat e Henri Kissinger. Impressionante, sem dúvida. Mas Oriana não se deixava impressionar pelos ricos e poderosos. Numa viagem recente a Florença encontrei este pequeno livro. Contém a última entrevista que deu na sua vida quando já sabia que o cancro a ia matar. Fala com desassombro sobre a sua vida recheada de episódios que a obrigaram a ser forte e seguir em frente. Não sei se teria a capacidade de resistência desta mulher italiana. Sei que me encontrei numa das suas frases: o mais importante é a liberdade. Um belíssimo livro para recordar Oriana ou para começar a conhecê-la. 

sexta-feira, 1 de março de 2019

Dunbard e as suas filhas, Edward St Aubyn





Em dias mais felizes Dunbar foi dono de um império de comunicação social, com muito dinheiro e poucos escrúpulos. Mas esses tempos já lá vão. Quando o conhecemos encontra-se internado pelas duas filhas mais velhas num lar de idosos algures no campo inglês, a pretexto de que enlouqueceu. Com o mesmo argumento as duas filhas preparam-se para o despojar do seu império de comunicação social. Longe de apreciar a paisagem bucólica que o rodeia, Dunbar anseia por fugir e retomar o poder, dando às duas filhas uma lição e reconciliando-se com a irmã mais nova de ambas, com quem reconhece ter sido injusto. A história deste milionário tem pontos de contacto com a do Rei Lear e não é por acaso. Este livro é o contributo de St Aubyn para uma colecção de homenagem a Shakespeare em que autores ingleses contemporâneos revistam e recriam as suas peças.
         Este foi o primeiro livro de St Aubyn que li e não desmereceu em nada as opiniões elogiosas que tenho ouvido sobre as suas obras. A sua escrita transmite a imensa força de espírito do protagonista apesar da idade, da fragilidade física e da situação desesperante em que se encontra. As partes do livro relativas às filhas de Dunbar são igualmente bem conseguidas. Florence é alguém que ama o pai ainda que rejeite o seu modo de vida. Sente-se, porém, culpada por não ter encetado um esforço de reconciliação mais cedo. Como tantos de nós, deixou passar demasiado tempo. Durante grande parte do livro interroga-se se não terá passado tempo demais. As suas irmãs Abby e Megan têm natureza cruel e perversa. Para quem conhece um pouco a natureza humana o retrato traçado é credível. A maldade suprema não é uma ficção ou um exclusivo das peças do bardo inglês. Qualquer que seja a sua origem, ela faz parte de nós e tem lugar na nossa sociedade, às vezes onde menos suspeitamos. O final do livro é fiel ao sentido dado por Shakespeare à sua peça, conseguindo, contudo manter-nos expectantes até à última linha. O livro é uma bem conseguida homenagem ao bardo inglês: o amor filiar/parental, o peso do passado, a ambição, a amizade desinteressada, a ambição descontrolada e a ausência de escrúpulos passam pelos nossos olhos numa galeria de personagens que nada tem de anacrónico. São bem actuais. Como actual é a influência daqueles que controlam os media e que nem sempre sabem honrar a responsabilidade que têm nas mãos. Tudo temas que surgem nesta obra. 
         Gostei bastante deste livro e posso dizer que fiquei curiosa para conhecer outros títulos desta colecção e para ler outras obras de Edward St. Aubyn.



quinta-feira, 28 de fevereiro de 2019

O direito à preguiça, Paul Lafargue



     Entre as conquistas da Revolução Francesa estava o direito ao trabalho. Mas com o advento da industrialização alguns ideólogos começaram a duvidar dos benefícios do exercício daquele direito atentas as condições da classe operária. Muitas horas de trabalhos (pelo menos 12h), ausência de férias ou fins de semana e má nutrição foram denunciados por autores como Emília Zola (por exemplo no seu livro O germinal) e combatidos por pensadores políticos que viriam a revelar-se cruciais no dealbar do século XX. Paul Lafargue, jornalista e revolucionário franco-cubano, escreveu este pequeno, mas elucidativo ensaio. Um pouco datado, é certo, mas dá-nos uma visão do que eram as condições de vida dos operários do século XIX. A exploração e o embrutecimento são dois dos pilares em que assenta esta denúncia que termina com uma proposta arrojada: a revogação do direito ao trabalho e a sua substituição pela proibição de qualquer pessoa trabalhar mais de três horas por dia. Vejo a ideia com franca simpatia, confesso.

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2019

Rupi Kaur , O sol e as suas flores



"a tua voz transforma o meu coração numa cascata". 

Ocorreu-me esta frase há uns tempos e escrevinhei-a num dos meus cadernos. Interrogo-me: será arte? Serei mais uma poeta num país de poetas? 
A dúvida, que tem o sei quê de delicioso, admito, adensou-se ao ler este O sol e as suas flores. E ocorrem-me novas perguntas: o que é a poesia? Quem pode dizer-se poeta? 
Demorei muito tempo a investigar o fenómeno Rupi Kaur. Alguém que construiu a sua carreira com recurso a redes sociais cria-me algumas reservas, porventura fruto de preconceito. Folheei os seus livros em livrarias e confesso que não me causaram grande impressão. Finalmente, não resisti e comprei este O sol e as suas flores, para leitura mais detalhada. 
O livro, confesso, deixou-me indiferente. É um conjunto de textos sobre abandono, tristeza, recuperação de desilusão amorosa, promessas de auto-estima e cuidado consigo própria e um novo amor. Não sei sequer se poderão, em rigor, ser considerados poemas e não estou sozinha nessa dúvida (por exemplo, ver aqui)
O objecto dos textos são temas com que todos nos identificamos sem necessidade de esforço. Perpassam a mente dos adolescentes e das adolescentes dos nossos dias, pelo menos nas sociedades ocidentais. A forma de expressão da autora calha bem às pessoas da faixa etária dela, que se sentem naturalmente próximas da sua forma de escrita. Leitores de outras idades terão uma posição menos encantada, sobretudo se estiverem habituados a ler poesia. Não está em causa a simplicidade das palavras usadas, pois com bem sabemos há belíssimos poemas que não recorrem a figuras de estilo complexas ou a palavras caras. Basta pensar em poetas populares como António Aleixo ou nos versos que Amália nos deixou. 
     O que me surpreendeu foi a banalidade dos textos que, por vezes, é mesmo confrangedora (por exemplo, "tens tanto/mas queres sempre mais/para de ansiar pelas coisas que não tens/e olha para aquilo que tens/ - onde vive a satisfação" ou "será bem vindo/um companheiro/que seja meu igual"). A autora não fez qualquer esforço na redacção (pelo menos, aparentemente) e não o pede também a quem a lê. Parte dos textos parece saído de um manual de auto-ajuda (como quando escreve "há alguma coisa mais forte/que o coração humano/estilhaça-se vezes sem conta/e continua vivo"ou"não acordas um belo dia e estás transformada em borboleta - o crescimento é um processo"). Os desenhos que ilustram o livro condizem com essa origem. Há alguns poemas dedicados a sua mãe e àquilo de que esta teve de abdicar na sequência do casamento e nascimento dos filhos. Mas tudo muito superficial, quer na forma, quer no conteúdo. No essencial, os textos parecem-me desabafos e manifestações de desejos pessoais análogos aos que tantas outras pessoas têm para si próprias e que reduzem a escrito em diários ou cadernos de apontamentos reservados aos seus olhos. Como a frase da minha lavra com que iniciei este texto. 

Rupi Kaur é hoje a mais famosa das instapoetas, uma categoria de autores que se celebrizou por veicular as suas obras a partir de redes sociais. Perante sucessivas recusas de publicação optou por publicar os seus poemas pagando a edição. Esta opção nada tem de errado. A arte é subjectiva e os critérios de publicação obedecem muitas vezes a objectivos comerciais e não tanto à qualidade do que é apresentado. O seu trabalho e nome tornaram-se conhecidos com rapidez e Kaur já vendeu milhões de livros (deixando as editoras que a recusaram certamente pesarosas). A sua escrita é criticada, bem como a auto-suficiência a que se arroga perante os demais criadores. Mas isso não tem beliscado a sua fama que assenta também numa colagem ao movimento feminista internacional (é uma das autoras lidas no clube de leitura fundado pela actriz Emma Watson). Mas mesmo o seu feminismo parece-me algo artificial. No livro O sol e as suas flores, a autora começa abandonada pelo seu amado, com todos os sentimentos de rejeição inerentes a uma situação dessas e vai evoluindo, abrindo-se à vida e descobrindo o amor próprio. Mas tudo isto desemboca num novo amor. Não que apaixonar-se outra vez esteja errado. O que me parece é que para o final feliz seria suficiente a descoberta de si própria e do seu valor. Com ou sem namorado novo. A mensagem para as jovens leitoras não é "recupera do desgosto e ama-te". É antes "recupera do desgosto, pois vais encontrar alguém que te amará de novo". Isso é maravilhoso, claro. Mas fica um tudo nada atrás do discurso empoderador. 
O que resta perguntar é durante quanto tempo continuará Kaur a produzir best-sellers . Uma coisa tenho por segura: nada de mal pode advir da leitura dos seus livros. Mais amor-próprio e sentido do valor de cada um (a) de nós, só pode fazer bem. Com ou sem namorado/a. E todos e todas beneficiamos do encorajamento à criatividade. Para além de ler, escrever, pintar, imaginar melodias. Enfim, não apenas consumir cultura, mas criá-la, expressarmo-nos como escolhermos, recorrendo mesmo às potencialidades técnicas dos nossos dias. Nesse aspecto, creio que o exemplo de Rupi Kaur só pode ser positivo. Há é poetas melhores, mas isso é todo um outro departamento.