segunda-feira, 8 de abril de 2019

Paulo Coelho, A espia

Primeiro ponto: simpatizo com Paulo Coelho. Parece-me genuíno na sua forma de estar e apreciei especialmente o seu desprendimento em relação aos direitos de autor que o leva a não ter nada contra as muitas edições piratas dos seus livros. É através delas que muita gente tem acesso às suas obras que, de outro modo, seriam demasiado caras para as suas bolsas. É verdade que Paulo Coelho vende muito. Mas há outros que vendem tanto como ele e não se mostram tão generosos.
Segundo ponto: gostei francamente de O alquimista. Tinha dezoito anos quando o li e nunca esqueci a importância de descobrirmos e vivermos a nossa lenda pessoal. O conceito pode parecer esotérico mas é bem terreno. Porque o mundo está sempre a tentar afastar-nos do nosso caminho e vestir-nos com os objectivos e sonhos (quantas vezes de consumo) do que parece bem e deve ser.
Terceiro ponto: com excepção de O alquimista não gostei de mais nenhum livro do Paulo Coelho. Não cheguei ao fim de Diário de um Mago ou de As Valquírias e detestei O Adultério. Este, pior do que ser um mau livro, é um livro mau que podia ter sido muito bom. Uma tristeza maior, pois.
Quarto ponto: A espia. Ouvi falar bem deste livro e decidi arriscar, mais uma vez. O que dizer? Trata-se de um esboço biográfico de Mata-Hari, uma mulher que ganhou fama como dançarina e cortesã. Também lhe atribuíram trabalhos de espionagem e contra-espionagem. Foram eles que a levaram à morte por fuzilamento. O livro de Paulo Coelho é cauteloso na fórmula narrativa. É parco em descrições quanto ao mundo exterior e limitado quanto aos diálogos. Opta pela fórmula, sempre mais simples, da epístola. Mata-Hari, enquanto aguarda pelo resultado de recurso, escreve uma longa carta destinada ao seu advogado e à filha, explicando a sua vida. O advogado escreve também uma carta procurando reconciliar-se com o seu fracasso. 
     Paulo Coelho procura reabilitar a memória de uma mulher que acabou por ser punida, na perspectiva dele, por ter ousado ser diferente. Apresenta-nos a sua vida e luta para se tornar independente, com a necessidade de se inventar perante uma sociedade em que, apesar do fascínio e popularidade de que gozou, nunca foi aceite ou sequer compreendida. Faz um paralelo interessante entre Mata-Hari e Dreyfus, o oficial judeu injustamente acusado de traição e que acabou por ser defendido publicamente por Emílio Zola com o célebre J’accuse. Apesar de também existirem fortes suspeitas de que Mata-Hari foi injustamente acusada, ninguém correu em sua defesa. Em suma este é um livro escrito de modo simples e leve sobre uma situação de vida extremamente pesada. A meu ver, vale pela tentativa de resgatar, humanizar e problematizar uma vida que passou à História coberta por um manto de desconhecimento e injustiça. E pode abrir a porta a leituras mais profundas sobre essa realidade que não é rara, nem está afastada do mundo contemporâneo.

segunda-feira, 1 de abril de 2019

Um sonho feito real: Epulata

       
  

      Na vida o que nos move é o sonho e não propriamente o pagar as continhas no supermercado ou liquidar os impostos ao Estado. Claro que cada um tem os seus sonhos e todos têm igual dignidade. Pode ser ver os filhos crescerem com saúde e alegria, viver um grande amor, acabar com a fome no mundo, conhecer todos os países que o compõem ou compor uma sinfonia. Pode ser tudo isto. Ou não ser nada disto. A diversidade dos sonhos reflecte a diversidade dos sere humanos. Desde que o sonho seja conforme à ética, todos são de acarinhar. Se não o forem, não são sonhos. São pesadelos.
            Uma coisa que sempre me fez muita impressão é o constante adiamento de sonhos. “Um dia …” é das expressões de que mais tenho medo. Um dia vou viajar, um dia vou voltar a fazer ginástica, um dia vou aprender a tocar piano, são frases que, a partir de certa idade, me começam a soar como um “empurrar com a barriga”. A paciência é uma arte que só tem sentido se fixarmos um objectivo e o concretizarmos. Foi este o motor para a concretização dos sonhos que levei a cabo até agora. Não sei se são grandes ou pequenos. Originais ou banais. São meus e tanto me basta para os realizar. Os sonhos não se esgotam, digo-o de ciência certa. Quando realizamos um aparece pouco depois um outro a espreitar-nos a imaginação, implantando-se no centro da nossa alma. Um dos meus sonhos era criar uma revista. Sei que há muitas, mas queria uma onde pudesse ter a minha própria voz e dar a conhecer ao mundo um punhado de pessoas muito talentosas, a que tenho o gosto de chamar amigos.
Hoje o sonho tornou-se real. A revista chama-se Epulata. É um projecto de amigos, assente no prazer da descoberta e da troca de ideias. É essa a moeda de pagamento. Não há publicidade e não há fretes para ninguém. O título é uma palavra inventada, brincando com a ideia de banquete, em latim. A ideia é apelar ao festim das ideias, às conversas sem fim com os amigos com quem partilhamos gostos e discordâncias.
Cinema, artes plásticas, livros, música, direito ao esquecimento, a nudez feminina enquanto acto político, a preguiça (o contributo da blogger) e há uma entrevista com Mimi Tavares, pintora e ser humano de excepção. Espero que vejam e gostem e, sendo caso disso, que partilhem. Contamos com as vossas opiniões e, caso tenham textos que gostassem de ver publicados e que se insiram no espírito da revista, convido-vos a procederem ao seu envio para epulatageral@gmail. com.

quarta-feira, 27 de março de 2019

Bruce Chatwin




Anatomia da Errância, Na Patagónia, Utz. Eis algumas das obras de Bruce Chatwin que me ajudaram a sonhar a minha vida quando era adolescente e passava grande parte das férias em casa. Sem muitos amigos mas rodeada de livros. E segura de que a minha vez de conhecer o mundo haveria de chegar. Tanto como os livros fascinou-me a personalidade de Bruce Chatwin dono de si e das suas decisões, livre de amarras interiores e capaz de pôr de lado os confortos da vida burguesa para ir atrás de uma aventura do outro lado do mundo. Esta citação é a demonstração da sua imensa cultura e a confirmação de que não há conhecimento inútil quando se trata de acumular riquezas da alma. Morreu muito jovem, com quarenta e oito anos. Além da tragédia pessoa ficámos privados da sua escrita límpida e detalhista, capaz de nos reconciliar com a beleza do mundo para lá das suas misérias. 
Tenho andado a reler Utz e talvez por isso o meu primeiro pensamento quando acordei foi para Chatwin e um bilhete que ele deixou na secretária do local onde trabalhava “Fui para a Patagónia”. Assim. Claro e simples.

sexta-feira, 22 de março de 2019

Ontem foi Dia Mundial da Poesia


          Ontem celebrou-se o Dia Mundial da Poesia. Durante anos não li este género literário. Na escola li os poetas oficiais sem grande gosto. Só mais tarde despertei para a beleza dos trabalhos de autores como Antero de Quental e Fernando Pessoa e seus heterónimos. Na verdade, em matéria de poesia considero-me uma autodidacta. Procurei sozinha, gradualmente, os poetas que me convinham. Não só porque expressavam em palavras o que eu não conseguia dizer, mas porque me abriam mundos e mistérios de cuja existência apenas suspeitava. A minha lista de poetas é grande. Há textos a que regresso ciclicamente ou de que me lembro sem motivo aparente ao longo do dia. Mas estou sempre à procura de novos poetas. São algumas dessas descobertas que deixo aqui, para quem as queira conhecer ou partilhar também as suas.









quinta-feira, 21 de março de 2019

Literatura asiática





Mantendo ainda o tópico da não limitação das leituras a cânones deixo aqui este artigo que encontrei com uma lista de livros escritos por autoras asiáticas contemporâneas. Dois deles já li e comentei aqui no blogue: Sayaka Murata cujo livro Convenience Store Woman foi traduzido para português como Uma questão de conveniência e Erotic Stories From Bunjabi Widows escrito por Balli Kaur Jaswal. Mas há muito mais para conhecer. Por mim, fiquei já curiosa quanto à autora escolhida para representar o Afeganistão. 

segunda-feira, 18 de março de 2019



     Sou contra toda e qualquer forma de snobismo literário. Sempre tive dúvidas sobre cânones e, embora lhes reconheça relevo indicativo sobretudo nos anos de formação, acho que quem lê se deve emancipar de fórmulas e explorar o fabuloso mundo dos livros. O que se escreveu em tempos idos nas mais variadas latitudes e o que se escreve agora em todos os cantos do mundo. Há algo de muito satisfatório em descobrir as nossas emoções plasmadas num poema escrito algures na China e de reconfortante em lermos um romance escrito na América do Sul, mas que nos cai como um vestido feito à medida, por exemplo. Por isso, gostei particularmente de ler este testemunho que encontrei no The Guardian. Os livros devem ser território de liberdade e não um lugar de vergonha.  

sexta-feira, 15 de março de 2019

Travessuras da Menina Má, Mario Vargas Llosa


Mário Vargas Llosa é um escritor que me acompanha há muitos anos. Li com entusiasmo na minha adolescência A Tia Júlia e o Escrevedor e A Festa do Chibo na mesma altura em que me encantei por outros nomes da literatura sul-americana, em particular Gabriel Garcia Marquez e Isabel Allende. A Festa do Chibo foi um dos livros que mais me marcou até hoje pela limpidez da escrita e implacabilidade da narrativa que nos reserva surpresas até à última página.
Por isso, foi com gosto que mergulhei nesta sua obra Travessuras da Menina Má. O livro narra uma história de amor que começa no Peru e atravessa o mundo. O protagonista, Ricardo, é um homem só aparentemente banal que realiza o seu sonho de criança: viver em Paris, para onde vai trabalhar como tradutor. Realizar sonhos de criança não é para todos, pelo que logo aqui o romance tem um toque de excepcionalidade. Mas onde a existência aurea mediocritas do protagonista é cabalmente afastada é na paixão que o alimenta desde a adolescência até ao final do romance: a menina má. Os dois conhecem-se na capital do Peru muito jovens e os seus destinos vão-se cruzando ao longo de décadas pelo mundo: Londres, Tóquio, Madrid e, claro, Paris.
De algum modo, a história introduz uma desconstrução de género. O protagonista masculino é a personagem que deseja viver as delícias da vida doméstica e casar, pedido que faz recorrentemente à menina má. Esta prefere uma vida de aventuras, em busca de riqueza e emoções fortes, recusando a vida sem brilho nem ousadia que o seu apaixonado lhe quer oferecer.  
Não é o primeiro escritor a inverter a lógica da mulher sofredora. Somerset Maugham no seu Da Servidão Humana fez o mesmo. Mas são raros os que se atrevem. A qualidade que recordava na escrita de Vargas Llosa surge nas páginas onde narra os estados de espírito do seu protagonista, os prazeres eróticos do casal e as deambulações pelas cidades onde se vão encontrando. Poucos escritores ditos “sérios” relatam interlúdios sensuais, mas Vargas Llosa fá-lo com elegância sem recorrer a floreados.          O livro percorre várias décadas de vida dos dois protagonistas, mostrando-nos as suas alegrias e tristezas, perdas, ódios e paixões, bem como a situação política do seu Peru natal. A acção é-nos narrada apenas pela voz do protagonista masculino, o que é pena, pois nunca conhecemos os pensamentos da protagonista feminina, nem pela sua voz, nem através de um narrador imparcial.
 Num artigo que escreveu há anos atrás Vargas Llosa falou sobre o grande perigo para a escrita actual que se encerra nos movimentos feministas radicais. Terminada a leitura deste seu livro não surpreende essa preocupação. O fim reservado para a protagonista feminina é de molde a fazer soar campainhas feministas, radicais ou não (o que quer que isso seja).  Uma leitura de alguns textos de crítica literária permitiu-me concluir que não estou sozinha nas minhas dúvidas. 
Explicando: um dos grandes mitos do romance ocidental (sobretudo o escrito por homens brancos ao longo de séculos) é o da natureza sofredora das mulheres, preparadas para se sacrificarem ou mesmo morrerem pelos homens que amam e sem os quais a vida não faz sentido. Hoje, é manifesto que esta visão está superada. Nos nossos dias não há romancista que se lembre de por uma protagonista a morrer de desgosto amoroso. É um mito ultrapassado. Mas mesmo os romances escritos por mulheres ao longo dos séculos lançam muitas dúvidas sobre a existência real dessa mulher em desespero absoluto para quem a alternativa ao fim/impossibilidade de relação amorosa é o encontro com a morte. Basta pensar nas protagonistas de Jane Austen, por exemplo.
Mas eis que um outro mito não está ultrapassado: o da liberdade castigada. E aqui confesso que o final que Vargas Llosa reserva para a sua protagonista me deixou a pensar: ela não se limita a morrer. Morre de uma doença dolorosa que lhe afecta os seios (retirados em cirurgia sem que exista a possibilidade de os reconstituir) e mutila a vagina. Como já a protagonista de A festa do chibo sofreu lesões irreversíveis na zona vaginal que condicionaram o seu percurso de vida. Não conheço toda a obra deste escritor, mas sei que este tipo de solução literária não lhe é exclusiva. Por exemplo, para as mulheres protagonistas do livro Zorba, o Grego, para quem o encontro sexual livremente escolhido conduz à morte (o que não sucede aos seus parceiros, que saem antes renovados da experiência). Serão coincidências? Liberdade criativa? Talvez. Mas pergunto: há protagonistas masculinos heterossexuais a sofrerem o mesmo destino? É que eu não me consigo lembrar de nenhum. E isso talvez não seja uma coincidência. 




segunda-feira, 11 de março de 2019

Juan Vicente Piqueras




                                                           in Instruções para atravessar o deserto, Assírio e Alvim

sexta-feira, 8 de março de 2019

This is what a feminist looks like - Benedict Cumberbatch
      Se pegarmos num dicionário veremos que o feminismo é uma corrente de pensamento que defende a igualdade de direitos e deveres para todas as pessoas independentemente do género. De ser feminista não resulta, ao contrário da crença que vejo disseminada em certos sectores, ser contra os homens, não gostar de homens (designadamente na perspectiva amorosa e erótica) ou querer ser um homem. Também não existe qualquer oposição de base ou contradição entre ser feminista e ser feminina. Claro que não posso dizer que perceba muito bem esse trocadilho. O que é estranho, pois, sem falsas modéstias, posso dizer que por regra percebo facilmente metáforas, analogias e todas as demais figuras de estilo. Mas fico por perceber o que querem dizer as que dizem “não sou feminista, sou feminina”. Ah, e para ser feminista não é preciso ser mulher (o que explica a fotografia do Cumberbatch). Como para ser contra o racismo não é preciso ser parte de uma minoria étnica. Ou para ser a favor do casamento entre pessoas do mesmo sexo não é necessário desejar efectivamente casar com uma pessoa do mesmo sexo. Isto porque a capacidade de reconhecer os demais seres humanos como pessoas como nós advém de algo diverso: a empatia. Isto é, a capacidade de nos pormos na pele dos outros. Uma das formas de desenvolver esta qualidade humana é através da leitura. Foi isso que sucedeu a partir do século XVIII na Europa, com a inerente ligação ao desenvolvimento dos direitos humanos. O The Guardian publica um artigo sobre as obras feministas que podem ajudar a perceber a causa nas suas múltiplas dimensões. Foram lidas por Carl Sedeström um académico sueco em busca de um modo de mostrar a sua solidariedade para com as mulheres. Podia ter lido Jane Austen ou as irmãs Brontë. Mas escolheu no essencial autoras contemporâneas. Alguns dos títulos são sobejamente conhecidos. É o caso de O segundo sexo de Simone de Beauvoir. De outros, incluindo Hunger de Roxanne Gay, já escrevi aquiVale a pena conhecer a lista, para concordar ou discordar. Sobretudo para pensar. Hoje e todos os dias.  

quinta-feira, 7 de março de 2019

I'll die standing on my feet, Oriana Fallaci



Não acredito em dias de luto para resolver problemas sociais. Acredito em dias de luta que se renovam entre vitórias e derrotas porque a ideia de que podemos instalar o paraíso na Terra é algo que ficou para trás com o fim das utopias. Oriana Fallaci foi uma escritora e jornalista italiana. Nasceu em Florença, viajou pelo mundo com frequência para cenários de tensão (para dizer o mínimo, considerando que fez a cobertura de conflitos armados na América do Sul e Vietname) e acabou por falecer na cidade onde veio ao mundo. Coragem, coragem e coragem foi a mensagem que nos deixou. Em miúda lembro-me de ver em casa dos pais o seu livro Entrevista com a História. Incluía diálogos com Indira Ghandi, Golda Meir, Yasser Arafat e Henri Kissinger. Impressionante, sem dúvida. Mas Oriana não se deixava impressionar pelos ricos e poderosos. Numa viagem recente a Florença encontrei este pequeno livro. Contém a última entrevista que deu na sua vida quando já sabia que o cancro a ia matar. Fala com desassombro sobre a sua vida recheada de episódios que a obrigaram a ser forte e seguir em frente. Não sei se teria a capacidade de resistência desta mulher italiana. Sei que me encontrei numa das suas frases: o mais importante é a liberdade. Um belíssimo livro para recordar Oriana ou para começar a conhecê-la. 

sexta-feira, 1 de março de 2019

Dunbard e as suas filhas, Edward St Aubyn





Em dias mais felizes Dunbar foi dono de um império de comunicação social, com muito dinheiro e poucos escrúpulos. Mas esses tempos já lá vão. Quando o conhecemos encontra-se internado pelas duas filhas mais velhas num lar de idosos algures no campo inglês, a pretexto de que enlouqueceu. Com o mesmo argumento as duas filhas preparam-se para o despojar do seu império de comunicação social. Longe de apreciar a paisagem bucólica que o rodeia, Dunbar anseia por fugir e retomar o poder, dando às duas filhas uma lição e reconciliando-se com a irmã mais nova de ambas, com quem reconhece ter sido injusto. A história deste milionário tem pontos de contacto com a do Rei Lear e não é por acaso. Este livro é o contributo de St Aubyn para uma colecção de homenagem a Shakespeare em que autores ingleses contemporâneos revistam e recriam as suas peças.
         Este foi o primeiro livro de St Aubyn que li e não desmereceu em nada as opiniões elogiosas que tenho ouvido sobre as suas obras. A sua escrita transmite a imensa força de espírito do protagonista apesar da idade, da fragilidade física e da situação desesperante em que se encontra. As partes do livro relativas às filhas de Dunbar são igualmente bem conseguidas. Florence é alguém que ama o pai ainda que rejeite o seu modo de vida. Sente-se, porém, culpada por não ter encetado um esforço de reconciliação mais cedo. Como tantos de nós, deixou passar demasiado tempo. Durante grande parte do livro interroga-se se não terá passado tempo demais. As suas irmãs Abby e Megan têm natureza cruel e perversa. Para quem conhece um pouco a natureza humana o retrato traçado é credível. A maldade suprema não é uma ficção ou um exclusivo das peças do bardo inglês. Qualquer que seja a sua origem, ela faz parte de nós e tem lugar na nossa sociedade, às vezes onde menos suspeitamos. O final do livro é fiel ao sentido dado por Shakespeare à sua peça, conseguindo, contudo manter-nos expectantes até à última linha. O livro é uma bem conseguida homenagem ao bardo inglês: o amor filiar/parental, o peso do passado, a ambição, a amizade desinteressada, a ambição descontrolada e a ausência de escrúpulos passam pelos nossos olhos numa galeria de personagens que nada tem de anacrónico. São bem actuais. Como actual é a influência daqueles que controlam os media e que nem sempre sabem honrar a responsabilidade que têm nas mãos. Tudo temas que surgem nesta obra. 
         Gostei bastante deste livro e posso dizer que fiquei curiosa para conhecer outros títulos desta colecção e para ler outras obras de Edward St. Aubyn.



quinta-feira, 28 de fevereiro de 2019

O direito à preguiça, Paul Lafargue



     Entre as conquistas da Revolução Francesa estava o direito ao trabalho. Mas com o advento da industrialização alguns ideólogos começaram a duvidar dos benefícios do exercício daquele direito atentas as condições da classe operária. Muitas horas de trabalhos (pelo menos 12h), ausência de férias ou fins de semana e má nutrição foram denunciados por autores como Emília Zola (por exemplo no seu livro O germinal) e combatidos por pensadores políticos que viriam a revelar-se cruciais no dealbar do século XX. Paul Lafargue, jornalista e revolucionário franco-cubano, escreveu este pequeno, mas elucidativo ensaio. Um pouco datado, é certo, mas dá-nos uma visão do que eram as condições de vida dos operários do século XIX. A exploração e o embrutecimento são dois dos pilares em que assenta esta denúncia que termina com uma proposta arrojada: a revogação do direito ao trabalho e a sua substituição pela proibição de qualquer pessoa trabalhar mais de três horas por dia. Vejo a ideia com franca simpatia, confesso.

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2019

Rupi Kaur , O sol e as suas flores



"a tua voz transforma o meu coração numa cascata". 

Ocorreu-me esta frase há uns tempos e escrevinhei-a num dos meus cadernos. Interrogo-me: será arte? Serei mais uma poeta num país de poetas? 
A dúvida, que tem o sei quê de delicioso, admito, adensou-se ao ler este O sol e as suas flores. E ocorrem-me novas perguntas: o que é a poesia? Quem pode dizer-se poeta? 
Demorei muito tempo a investigar o fenómeno Rupi Kaur. Alguém que construiu a sua carreira com recurso a redes sociais cria-me algumas reservas, porventura fruto de preconceito. Folheei os seus livros em livrarias e confesso que não me causaram grande impressão. Finalmente, não resisti e comprei este O sol e as suas flores, para leitura mais detalhada. 
O livro, confesso, deixou-me indiferente. É um conjunto de textos sobre abandono, tristeza, recuperação de desilusão amorosa, promessas de auto-estima e cuidado consigo própria e um novo amor. Não sei sequer se poderão, em rigor, ser considerados poemas e não estou sozinha nessa dúvida (por exemplo, ver aqui)
O objecto dos textos são temas com que todos nos identificamos sem necessidade de esforço. Perpassam a mente dos adolescentes e das adolescentes dos nossos dias, pelo menos nas sociedades ocidentais. A forma de expressão da autora calha bem às pessoas da faixa etária dela, que se sentem naturalmente próximas da sua forma de escrita. Leitores de outras idades terão uma posição menos encantada, sobretudo se estiverem habituados a ler poesia. Não está em causa a simplicidade das palavras usadas, pois com bem sabemos há belíssimos poemas que não recorrem a figuras de estilo complexas ou a palavras caras. Basta pensar em poetas populares como António Aleixo ou nos versos que Amália nos deixou. 
     O que me surpreendeu foi a banalidade dos textos que, por vezes, é mesmo confrangedora (por exemplo, "tens tanto/mas queres sempre mais/para de ansiar pelas coisas que não tens/e olha para aquilo que tens/ - onde vive a satisfação" ou "será bem vindo/um companheiro/que seja meu igual"). A autora não fez qualquer esforço na redacção (pelo menos, aparentemente) e não o pede também a quem a lê. Parte dos textos parece saído de um manual de auto-ajuda (como quando escreve "há alguma coisa mais forte/que o coração humano/estilhaça-se vezes sem conta/e continua vivo"ou"não acordas um belo dia e estás transformada em borboleta - o crescimento é um processo"). Os desenhos que ilustram o livro condizem com essa origem. Há alguns poemas dedicados a sua mãe e àquilo de que esta teve de abdicar na sequência do casamento e nascimento dos filhos. Mas tudo muito superficial, quer na forma, quer no conteúdo. No essencial, os textos parecem-me desabafos e manifestações de desejos pessoais análogos aos que tantas outras pessoas têm para si próprias e que reduzem a escrito em diários ou cadernos de apontamentos reservados aos seus olhos. Como a frase da minha lavra com que iniciei este texto. 

Rupi Kaur é hoje a mais famosa das instapoetas, uma categoria de autores que se celebrizou por veicular as suas obras a partir de redes sociais. Perante sucessivas recusas de publicação optou por publicar os seus poemas pagando a edição. Esta opção nada tem de errado. A arte é subjectiva e os critérios de publicação obedecem muitas vezes a objectivos comerciais e não tanto à qualidade do que é apresentado. O seu trabalho e nome tornaram-se conhecidos com rapidez e Kaur já vendeu milhões de livros (deixando as editoras que a recusaram certamente pesarosas). A sua escrita é criticada, bem como a auto-suficiência a que se arroga perante os demais criadores. Mas isso não tem beliscado a sua fama que assenta também numa colagem ao movimento feminista internacional (é uma das autoras lidas no clube de leitura fundado pela actriz Emma Watson). Mas mesmo o seu feminismo parece-me algo artificial. No livro O sol e as suas flores, a autora começa abandonada pelo seu amado, com todos os sentimentos de rejeição inerentes a uma situação dessas e vai evoluindo, abrindo-se à vida e descobrindo o amor próprio. Mas tudo isto desemboca num novo amor. Não que apaixonar-se outra vez esteja errado. O que me parece é que para o final feliz seria suficiente a descoberta de si própria e do seu valor. Com ou sem namorado novo. A mensagem para as jovens leitoras não é "recupera do desgosto e ama-te". É antes "recupera do desgosto, pois vais encontrar alguém que te amará de novo". Isso é maravilhoso, claro. Mas fica um tudo nada atrás do discurso empoderador. 
O que resta perguntar é durante quanto tempo continuará Kaur a produzir best-sellers . Uma coisa tenho por segura: nada de mal pode advir da leitura dos seus livros. Mais amor-próprio e sentido do valor de cada um (a) de nós, só pode fazer bem. Com ou sem namorado/a. E todos e todas beneficiamos do encorajamento à criatividade. Para além de ler, escrever, pintar, imaginar melodias. Enfim, não apenas consumir cultura, mas criá-la, expressarmo-nos como escolhermos, recorrendo mesmo às potencialidades técnicas dos nossos dias. Nesse aspecto, creio que o exemplo de Rupi Kaur só pode ser positivo. Há é poetas melhores, mas isso é todo um outro departamento. 



quinta-feira, 21 de fevereiro de 2019

Erosão, Gisela Casimiro





Uma das minhas citações favoritas é atribuída ao escritor russo Anton Tchekhov: “Qualquer idiota sobrevive a uma crise é o dia-a-dia que nos esgota.” Está aqui uma grande verdade. São as pequenas coisas, o rame-rame, o day in-day out de que falam os ingleses que nos trazem o cansaço e a erosão. Connosco próprios e com os que nos rodeiam. Para fazer face a este estado de coisas e não sermos cadáveres adiados deambulando pelos dias resta-nos encontrar as nossas poções secretas, os nossos encantamentos que nos devolvem a alegria roubadas nos momentos mais difíceis. Que mais não seja pela repetição. Cada um terá a sua terapia. Uma das minhas favoritas é a música. Depois de ouvir uma das minhas canções favoritas de sempre pelo incomparável Prince sinto-me renovada. Outra forma de me reconciliar com os dias é descobrir novos poetas. E assim cheguei a este livro de Gisela Casimiro. Poetisa portuguesa, nascida na Guiné-Bissau, escreve sobre os seus desgastes a as suas receitas para combater os seus efeitos. Este é o seu primeiro livro e nele encontramos as dificuldades do embate com o mundo exterior, com o corpo que todos os dias envelhece, com os afectos que se perdem. E os antídotos. Que vão desde o doce de tomate da mãe a chegar ao fim do dia na praia, passando por aceitar o que só pode ser aceite, para podermos continuar. Resistência e não resignação. Desdramatizar. Às vezes caímos e temos de ser nós a levantar-nos. Outras vezes há uma voz que nos ajuda a reerguer. 
São poemas simples, por vezes com um travo amargo, às vezes com doçura, aqui e ali com ironia (era tão bom conseguir transformar um desgosto amoroso em canções que valem milhões). Mas nunca com desesperança. Afinal, a história ainda agora está no início.

terça-feira, 19 de fevereiro de 2019

Ainda sobre a Índia ...






Se as viagens são um tema apaixonante os périplos pela Índia são um daqueles assuntos que nunca se esgota. Para os ocidentais aquele país foi sempre uma terra de mistérios envolta em fantasia e nem o turismo de massas conseguiu destruir esse encantamento.
Estes dois livros falam, porém, do lado negro dessa viagem.
O primeiro (Loucos pela Índia) foi escrito pelo psiquiatra francês Régis Airault. Durante vários anos exerceu funções no consulado daquele país com a missão de auxiliar no tratamento e repatriamentos dos seus concidadãos que sofressem distúrbios psíquicos graves durante a viagem a terras indianas. O autor distingue entre viagem patológica e viagem patogénica. Na primeira categoria inserem-se as viagens determinadas por distúrbios mentais. A segunda diz respeito às situações em que o contacto com a realidade indiana (clima, experiências de vida e modos sócio-culturais) é de tal forma intensa que conduz a um desequilíbrio mental do viajante. O facto de ter sido necessário ter um psiquiatra de serviço no consulado é já prova evidente do número e gravidade de casos registados. O autor narra vários dos que lhe chegaram às mãos e ensaia algumas explicações para estes resultados infelizes e por vezes dramáticos de viagens iniciáticas.
O segundo livro que surge na foto é como que uma contra face de Loucos pela Índia. Gihta Meta é uma escritora e jornalista indiana. Em Karma Cola (ao que sei sem tradução em português) escreve sobre a quantidade de ocidentais que a partir da década de 60 chegou à Índia, muitos deles decididos a viver uma experiência espiritual encontrando um guru.
       Neste livro, também ele recheado de relatos pessoais, a autora reflecte sobre o mito da Índia espiritual e algumas das mentiras e fraudes de que os estrangeiros são vítimas por conta da sua ânsia em penetrar numa realidade que lhes é totalmente estranha.
O melhor livro que li sobre a Índia escrito por um ocidental foi o de Octavio Paz de que já escrevi aqui no blogue (Vislumbres da Índia). Nele damos conta da imensa complexidade de um mundo que para quase todos nós permanecerá incompreensível. Os livros de que hoje escrevo ajudam-nos a cimentar esta posição. A viagem a um país tão estranho mas tão presente no nosso imaginário encerra vários perigos e nem todos são de natureza material (como o medo de ser vítima de crimes). Ir, sim, mas também saber de antemão que seremos expostos a dificuldades e que devemos sempre guardar humildade em relação a um mundo que se situa nos antípodas do nosso. E ter presente a frase que Boswell atribui ao escritor inglês  Samuel Johnson: He who would bring home the wealth of the Indies must carry the wealth of the Indies with him, so it is with travelling, –a man must carry knowledge with him if he would bring home knowledge. Ou seja, a viagem espiritual é interior e interior apenas. Não vale a pena ir ao outro lado do mundo para procurar o que só pode estar dentro de nós. 




quinta-feira, 14 de fevereiro de 2019

A pantera, Rainer Maria Rilke

Imagem obtida aqui



   
Para mim, a melhor coisa do mundo é a liberdade (e tarte de chocolate). Por isso, este poema de Rilke sempre me angustiou. Conheci-o através de um dos meus filmes favoritos, Uma outra mulher. A acção centra-se nas escolhas de vida de uma professora de filosofia que sempre se guiou pelo pragmatismo e pela razão. Não é uma comédia mas tem um final esperançoso, o que já não é nada mau. Numa das cenas centrais ela relê um dos seus poemas mais amados, A pantera de Rilke, colocando-se no lugar do felino para concluir “you must change your life”.
 Haverá pior coisa do que não ser livre? Encerrado atrás de grades, reais ou metafóricas, olhando para o espaço que devia ser o nosso, do outro lado da jaula. Detesto jardins zoológicos por causa disso mesmo. Ontem vi as fotografias da muita rara pantera negra. Em liberdade. O seu olhar não esmoreceu, o seu vulto continua andante e flexível e as imagens que a sua pupila capta não lhe morrem no coração. Reconciliei-me com o poema. Há panteras livres, como todas deviam ser. Como todos deveríamos ser. 

De tanto olhar as grades o seu olhar
esmoreceu e nada mais aferra.
Como se houvesse só grades na terra:
grades, apenas grades para olhar.

A onda andante e flexível do seu vulto
em círculos concêntricos decresce,
dança de força em torno de um ponto oculto
no qual um grande impulso arrefece.

De vez em quando o fecho da pupila
abre-se em silêncio. Uma imagem, então,
na tensa paz dos músculos instila-se
para morrer no coração.

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2019

Gisela Casimiro, O poema é um campo de batalha.




O dia em que se descobre um novo poeta fica sempre marcado com a etiqueta de um bom dia.  
O livro chama-se erosão. 


sexta-feira, 8 de fevereiro de 2019

Flâneuse, Lauren Elkin




O fascínio que os norte-americanos têm por Paris é quase um lugar-comum. Talvez isso venha da ligação estreita que criaram com França aquando da sua independência da Inglaterra (foram os franceses quem lhes ofereceu a Estátua da Liberdade, imagem icónica de Nova Iorque). Ou seja fruto da deslocação de intelectuais norte-americanos, como Gertrude Stein, Hemingway e Fitzgerald para aquela cidade. Ou da recorrência da cidade no cinema e televisão. Por exemplo, Sabrina, a protagonista do filme com o mesmo nome de Billy Wilder vai para Paris e torna-se uma mulher sofisticada. Gene Kelly é o protagonista de um dos mais famosos filmes musicais de Hollywood, Um americano em Paris. E Carrie Bradshaw, uma das personagens de O sexo e a cidade, vive dias de desencanto amoroso na capital francesa e é lá que reencontra Mr Big, o seu verdadeiro príncipe encantado.
Lauren Elkin, a autora de Flanêuse, não é excepção ao feitiço parisiense. A autora cresceu nos subúrbios de Nova Iorque e narra a vontade que tinha de viver na capital francesa. Um sonho realizado desde 1999. Primeiro na margem esquerda e agora na margem direita, Elkin é ensaísta, académica e escritora, residente em Paris. Colabora com publicações de renome mundial e tem diversos livros publicados. Este Flâneuse é, em primeiro lugar, uma carta de amor a Paris. Aos seus intelectuais e activistas. Aos seus bairros e lojas. À sua história e ao seu presente.
O livro leva-nos às ruas de Paris, sobretudo. Mas também às de outras cidades como Londres, Nova Iorque, Veneza e Tóquio. A premissa em que assenta é simples: as ruas, como o espaço público em geral, pertenceram sempre aos homens, mesmo nas sociedades ocidentais. Eles saiam para o trabalho, para o café e também simplesmente para passearem na cidade, para a viverem. Ainda é assim, como bem sabemos, em demasiadas latitudes deste mundo. Verificando que o termo flâneur apenas existe na versão masculina do vocábulo a autora inventa o correspondente feminino flâneuse. Os e as que caminham, erram, deambulam, vadiam pela cidade. E é sobre as flâneuses que Lauren Elkin constrói o seu mundo: Virginia Woolf (Londres), Sophia Calle (Veneza), Joan Didion (Nova Iorque), George Sand e Agnès Varda (Paris). O livro é uma confluência de histórias, das ruas das cidades, dos acontecimentos que ali tiveram e têm lugar (com páginas sobre a história das revoltas urbanas francesas muito bem conseguidas) e das mulheres que se notabilizaram pela sua relação com cada centro urbano. Nessa medida, é um livro de excelente leitura, tanto mais que é servido por uma escrita desenvolta e atenta aos detalhes. Esta obra é também uma memória das próprias vivências da escritora no que à vida urbana diz respeito. Recorda a sua infância e juventude num subúrbio de Nova Iorque onde toda a gente se deslocava para todo o lado só e apenas de carro (sobre isto, o pequeno ensaio de George Steiner com o título A ideia de Europa vale por muitas leituras sobre sociologia e arquitectura dos espaços urbanos) e também da sua descoberta de Paris. São igualmente interessantes e bem actuais as suas considerações sobre os protestos levados para as ruas. Lauren Elkin consegue fundir de modo muito feliz momentos do Maio de 68 em Paris com protestos em que ela própria se viu integrada, quer na capital francesa, quer em Nova Iorque (movimento Occupy Wall Street), em páginas de escrita viva e honesta. Já é mais difícil de perceber a relevância do capítulo que dedica à sua estadia em Tóquio, para onde foi tão só para acompanhar um namorado. Grande parte das páginas desse capítulo é dedicada ao esforço que fez para se adaptar à cidade e ao modo de vida do namorado bancário, para si artificial e pouco interessante. O que me parece é que o capítulo em causa surge desgarrado face à totalidade da obra. E que a escritora passou ao lado de um cidade que é das mais interessantes e completas do mundo, designadamente em termos culturais.
Apesar daquele reparo, na sua globalidade, esta é uma obra que vale a pena ler, quer pela originalidade do tema, quer pelo manancial de informação sobre cada um das cidades escolhidas. E porque põe bem em relevo a importância da vivência do espaço público na construção da liberdade.




segunda-feira, 4 de fevereiro de 2019

Eça na Gulbenkian



       Quantos Eças há no nosso Eça? É difícil responder a essa pergunta. Há o crítico social, o gourmet, o viajante por motivos profissionais e lúdicos, o jornalista, o cronista, o romancista. Há o homem da ironia e o homem da sensualidade. O fantasioso que sonhou um mandarim na China ou uma história de deboche entre um português em peregrinação pela Palestina em representação da titi e uma Mary que nada tinha de sagrado. O que identificava os males da Pátria e o sonhava o homem novo em A cidade e as serras ou no conto A catástrofe. Lemos Eça e passeamos pelo mundo, descobrimos sons, sabores, cores e geografias. E personagens com alma travestida das emoções mais nobres e mais vis. Desde os grandes amores condenados, passando pelo sonho de reformar a Pátria sem energia para lá chegar até darmos de caras com os aproveitadores e más línguas das cornetas do Diabo, todos têm o seu lugar no mundo delineado por Eça. Há quem diga que exagerou as cores da crítica e que Portugal nunca foi tão mau como ele o descreveu. Mas não deixa de ser curiosa a persistência da sua presença na vida nacional tantos anos passados. E como certas frases suas caem como uma luva na actualidade. Já para não falar dos prazeres culinários que perpassam as suas páginas, a riqueza das descrições de cenários e de experiências sensuais que para muitos são ainda tabu. Nunca Eça sonhou, se calhar, vir a ter tal influência. 
     Todo o seu universo, inspirado e inspirador para outros artistas, surge aos nossos olhos na exposição Tudo o que tenho no saco na Fundação Calouste Gulbenkian. Quem já conhece Eça de Queirós vai rejubilar. Quem ainda não o conhece sai da exposição com vontade de ir ao seu encontro.